Como escolher o caminho espiritual certo para você?

Nesta resposta, Sri Chinmoy explica e exemplifica um dos métodos para você saber escolher ou reconhecer o seu caminho e Mestre espiritual. Há alguns desafios inerentes, como ele mesmo cita: “Quando você vai dedicar toda a sua vida a alguém, não quer se tornar discípulo de um Mestre apenas porque alguém que você conhece o aceitou como Mestre, ou apenas porque ele tem milhares de discípulos.” É necessário uma sinceridade central, além da emoção, da cultura, e e da racionalidade. Mas também certezas interiores: “Quando o discípulo está pronto, o Mestre certamente aparece”.

Pergunta: Existem tantos caminhos espirituais e tantos mestres espirituais. Como alguém descobre qual é o caminho certo?

 

Sri Chinmoy: É uma questão de sentimento e afinidade interiores. Em nossa vida exterior, existem muitas escolas, mas um indivíduo frequenta apenas uma. Aqui em Minnesota e nos estados vizinhos, há centenas de universidades. No entanto, algumas pessoas que vivem aqui vão para Nova York estudar, e vice-versa. Por que alguém prefere uma universidade de Nova York a uma de Minnesota? Por algum motivo, ela lhe agrada mais. Existem várias escolas e vários professores, mas é natural que um indivíduo prefira uma universidade específica a outra. Ele leu sobre aquela universidade ou tem a sensação interior de que ela é melhor. A escolha cabe a ele.

 

Na vida interior, existe uma maneira fácil, uma maneira convincente, de saber quem é o seu Mestre. Basta pegar um pedaço de papel e anotar os nomes dos Mestres espirituais que você viu, sobre os quais leu ou de quem apenas ouviu falar. Eles podem estar aqui na América ou em qualquer outro lugar. Ao anotar o nome de um determinado Mestre, repita o nome dele em voz alta sete vezes, com profunda alma, colocando a palma da mão direita sobre o coração. Tente sentir a vibração que emana dele. Agora, você mesmo se torna o avaliador. Se não sentir nenhuma vibração, dê a ele uma nota zero. Repita esse procedimento, atribuindo uma nota a cada Mestre. Se sentir alguma vibração, dê a ele a nota que você acha que ele merece.

 

Você é o juiz. É você quem vai oferecer sua vida a alguém, e você não pode ser tolo. Quando você vai dedicar toda a sua vida a alguém, não quer se tornar discípulo de um Mestre apenas porque alguém que você conhece o aceitou como Mestre, ou apenas porque ele tem milhares de discípulos. Por outro lado, se um Mestre tem poucos discípulos, você também não deve procurá-lo apenas por esse motivo. Tudo isso é o jogo de Deus. Deus deu a alguns Mestres milhares e milhares de discípulos, e a outros deu muito poucos. Deus diz a um Mestre que ele deve ser muito seletivo, e diz a outro Mestre para aceitar qualquer pessoa que o procure.

 

Deus lhe deu a oportunidade de fazer uma escolha. Continue anotando os nomes dos Mestres e repetindo-os em voz alta. Se você sentir uma vibração intensa e um verdadeiro arrebatamento interior — uma sensação de êxtase — ao pronunciar um determinado nome, então dedique a esse Mestre 80, 90 ou até mais repetições. Mas, se sentir apenas uma boa vibração sem esse arrebatamento interior, dedique a ele 40 ou 50. Se nenhum dos Mestres que você conhece estiver destinado a ser o seu Mestre, você não sentirá esse arrebatamento interior com nenhum deles. Talvez você ainda não conheça o nome do seu Mestre. Mas, na Índia, dizemos: “Quando o discípulo está pronto, o Mestre certamente aparece”. Se você estiver realmente pronto para um Mestre, quero lhe dizer que o seu Mestre está disponível. Ele pode estar no canto mais remoto do globo, na Índia ou em qualquer outro lugar; mas você certamente o encontrará.

 

Ao aceitar um Mestre, o caminho dele passa a ser o seu. Você não pode estar em dois barcos ao mesmo tempo. Se mantiver um pé em um barco e o outro em outro, acabará quebrando as pernas. Cada Mestre está certo à sua própria maneira. Cada barqueiro o levará à Meta destinada. Você precisa saber que a Meta é a mesma, mas os caminhos podem não ter — e não podem ter — a mesma extensão. Há muitas estradas que levam a Roma, mas você verá que uma estrada específica o levará lá mais rapidamente do que as outras. Na vida espiritual, essa estrada, esse caminho, é o caminho do Amor. O caminho do conhecimento, da sabedoria e do intelecto o levará à sua Meta, sem dúvida, mas será um processo longo e lento.

 

Agora, peço licença. Respondi à sua pergunta e depois entrei em outros detalhes. Voltando à sua questão, quero dizer que o próprio nome do seu Mestre espiritual lhe proporcionará, de imediato, uma alegria imensa. Tenho vários discípulos que simplesmente ouviram meu nome ao telefone ou em outro lugar e vieram até mim. Deus conhece as necessidades deles e os encaminha ao Mestre certo, desde que sejam sinceros em seu clamor interior. O nome da pessoa que será o seu Mestre lhe transmitirá uma vibração divina, um arrebatamento interior, pois você terá uma forte afinidade interior com ela. Talvez você não tenha lido nenhum livro dele, talvez não saiba quase nada sobre a sua vida exterior ou interior, mas o nome dele exercerá um efeito de mantra sobre você, pois, mais cedo ou mais tarde, ele será o seu Piloto interior. O seu clamor interior já alcançou o coração do seu Mestre. Na vida exterior, no momento em que o nome dele chegar até você, você sentirá uma mágica vibração interior e o seu coração será tocado.

 

Sri Chinmoy, *Fifty Freedom-Boats to One Golden Shore*, parte 6, Agni Press, Nova York, 1975

Podemos reconhecer o Mestre pelos escritos?

Todos os Mestres espirituais genuínos escrevem coisas que nos elevam a consciência e nos inspiram. Sri Chinmoy diz que “Meus escritos não são pensamentos emprestados, mas sim expressões da minha própria experiência. Alguns filósofos, professores e estudiosos emprestam ideias dos outros; as ideias sobre as quais escrevem não vêm da sua própria realização. No meu caso, a gramática pode até estar errada, mas a consciência que revelo é uma consciência divina… Lendo os meus escritos, muitas coisas lhes serão esclarecidas. Respondo as perguntas a partir da minha luz interior – e para onde vai essa luz? Ela entra nos livros… ”

Então, é possível saber por essa inspiração através dos livros e ensinamentos escritos que aquele é o seu Mestre pessoal?

Sri Chinmoy respondeu à seguinte pergunta:

Pergunta: Podemos determinar quem é o nosso Guru lendo seus escritos?

Sri Chinmoy: Em primeiro lugar, você precisa sentir a aceitação do Guru por você e também a sua aceitação do Guru. Não se trata de ler alguns livros e, de repente, ser transportado para um plano de alegria ou deleite. Digamos que você leu o livro de um determinado Mestre e, de repente, se sente transportado e acredita que esse Mestre é o certo para você. Mas, no dia seguinte, você pode ler os escritos de outro Mestre e sentir um deleite extremo, acreditando que ele é o seu Guru. Depois de amanhã, você lerá os escritos de outra pessoa e poderá sentir o mesmo tipo de alegria, mas de uma maneira diferente. Apenas lendo as obras de alguém, você não será capaz de aceitar ou rejeitar um determinado Mestre. Somente através da meditação você poderá saber quem lhe proporciona maior deleite.

Suponha que você esteja em dúvida sobre dois ou três Mestres que você gostaria de aceitar. Logo pela manhã, repita com toda a alma o nome de um deles sete vezes. Então, no dia seguinte, você repetirá o nome de outra pessoa. Certamente, você obterá a alegria mais profunda ao pronunciar o nome do Mestre específico que lhe foi destinado. Mas, por favor, não se confunda ao ler livros. Muitos Mestres espirituais escreveram coisas maravilhosas, mas se você quiser oferecer sua existência ou aceitação a alguém apenas porque gosta de seus escritos, poderá estar cometendo um erro.

Sri Chinmoy, Obedience or oneness, Agni Press, New York, 1977

Uma biografia resumida de Sri Chinmoy

por Yoga Integral Poá

Mais em Vídeo: Sri Chinmoy sobre si mesmo

 

O Mestre espiritual e a meditação

 

Abaixo trechos de uma entrevista na rádio com Sri Chinmoy, em particular os trechos que falam sobre a relação que buscadores espirituais podem ter com a figura do Mestre espiritual, no caso Sri Chinmoy.

sri chinmoy jornal

Donna Halper: Mas as pessoas não o procuram para saber o que é Deus?

Sri Chinmoy: Elas me procuram por isso, mas são apenas as pessoas que acreditam em Deus que vêm até mim. Os ateus completos não vêm até mim. Para eles, Deus é outra coisa. O Deus de que falamos, para eles não é Deus. Mas eu tenho um profundo respeito pelo Deus deles. Se eles dissessem que Deus não existe, eu responderia “Tudo bem.” Contanto que acreditem em algo, eu sinto que esse algo é Deus, pois Deus é onisciente, onipresente e onipotente.

 

Donna Halper: Sri Chinmoy, quando as pessoas o procuram, o que elas estão buscando encontrar?

Sri Chinmoy: Normalmente elas buscam paz de espírito. Elas esperam uma melhor compreensão da vida. Elas esperam um êxtase interior.

 

Donna Halper: Você as proporciona isso?

Sri Chinmoy: Eu ofereço isso a elas, e elas recebem de acordo com sua receptividade.

 

Donna Halper: Há tantas pessoas buscando, tentando descobrir mais sobre religião. Elas não se sentem satisfeitas com a religião organizada, digamos, e por isso procuram você. Como essas pessoas saberiam se você é o Mestre espiritual certo para elas?

Sri Chinmoy: Elas serão capazes de descobrir em poucos minutos. Assim que me virem, se eu for o Mestre certo para elas, sentirão uma espécie de vibração ou sentimento de familiaridade. Elas não precisam conversar comigo. Essas pessoas sentirão uma comunicação interior. Elas verão e sentirão em mim um amigo, um amigo verdadeiro e eterno.

 

Donna Halper: E, com respeito à pessoa que vem até você e é muito cética, você também é um amigo para essa pessoa?

Sri Chinmoy: Certamente serei seu amigo, mas ela se sentirá desconfortável. Essa pessoa deverá buscar outro com quem se sinta confortável e que será capaz de orientá-la de uma maneira diferente.

 

Donna Halper: Estamos falando sobre música, meditação e religião. Continuando no tópico de religião, Guru, há tantas pessoas chamando-se de gurus nesses dias, tantas pessoas que se consideram messias, reivindicando possuírem a resposta. Como alguém que levasse a sua busca a sério poderia saber quem é um Mestre espiritual verdadeiro e quem não é?

Sri Chinmoy: Há diversas formas de se saber se um Mestre é genuíno ou não. Se o Mestre disser que poderá lhe dar a realização da noite para o dia, ele é um falso mestre. Se disser que, caso lhe dê uma quantia de centenas ou milhares de dólares, ele será capaz de lhe auxiliar a alcançar um plano superior de consciência e adquirir Paz, Luz e Deleite, esse é um falso mestre. Um Mestre verdadeiro sempre dirá ao buscador que ele, o Mestre, não é Deus; ele não é nem mesmo o Guru. Deus é o verdadeiro Mestre. O Mestre humano está apenas a serviço de Deus dentro dos buscadores. Ele não é o Guru. O verdadeiro Guru é Deus. Se um buscador quiser saber quem é um Mestre verdadeiro, com essas orientações ele normalmente será capaz de discernir o verdadeiro do falso.

 

Donna Halper: Então a pessoa que diz ter a resposta mágica provavelmente não é a pessoa que deve ser levada a sério?

Sri Chinmoy: O progresso espiritual não é como preparar café solúvel. O progresso espiritual é lento e consistente. Lenta, gradualmente e certamente devemos trilhar a Estrada da Eternidade para alcançarmos a Meta da Infinidade.

 

Donna Halper: Se alguém o procurar e decidir que você é a pessoa certa com quem deveria estudar, o que deveria fazer?

Sri Chinmoy: Há algumas regras e orientações que os buscadores deverão seguir se eu os aceitar como meus alunos. Para começar, pedirei que sejam muito simples, muito sinceros, humildes e puros. Eu recomendo uma vida muito simples.

 

Donna Halper: Lemos nos jornais sobre diversos movimentos que são bastante austeros, onde os homens e mulheres não podem ter contato mútuo. Eles não podem comer carne e, basicamente, ficam dentro dos seus lugares meditando o tempo todo. Esse é o tipo de vida que os seus discípulos têm?

Sri Chinmoy: Não, eu não advogo a austeridade. Eu não quero que meus discípulos vivam nas cavernas nas montanhas dos himalaias. Advogamos a aceitação da vida. Temos de aceitar a vida e então temos de transformar a vida. Há diversas coisas na vida humana as quais não conseguimos apreciar. Elas são as nossas tristes imperfeições. E por isso tentamos iluminar essas fraquezas. Não evitamos a vida. Aceitamos a vida, mas transformamos o que deve ser transformado.

 

Donna Halper: Além da meditação, os seus discípulos praticam cânticos ou algo desse tipo?

Sri Chinmoy: Sim, às vezes eles entoam cânticos. Eu escrevi diversas melodias para versos dos Vedas, Upanishads e Bhagavad Gita. Fiz música para vários deles, e os meus alunos às vezes os entoam.