Experiências no caminho do autoconhecimento

Experiências de autoconhecimento

Quanto tentamos enxergar fundo dentro de nós, quanto tentamos viver uma vida interior, podemos encontrar muitas dificuldades. Dizemos, “Veja, Deus, agora que nos voltamos a Você, temos de passar por tantos testes!” Não encontrando saída, ficamos perturbados. Mas por que deveríamos? Não nos falham a memória as tristezas da vida. Antes de entrarmos para a vida espiritual, o sentimento de vazio era nosso companheiro constante. Agora estamos numa posição melhor já que temos a capacidade de reconhecer o tigre feroz da mundanidade. Encaremos a inquietação e fraqueza como testes.”

Sri Chinmoy, Yoga and the spiritual life. The journey of India’s Soul., Tower Publications, Inc., New York, 1971

Hoje estava terminando meu horário de meditação. Alguns pensamentos me atrapalhavam muito. Eram coisas que me deixavam irritado.

De repente, por qualquer milagre que tenha ocorrido, me lembrei do texto acima, que havia lido uns dois dias antes. E tive a experiência. Eu olhei para mim mesmo e percebi que não era eu quem estava incomodado, mas sim minha mente ou emoções, meu ego, ou algo afim. Senti a luminosidade dos escritos.

Nesse momento, me dissociei um pouco, como quem pensa “grande coisa se você gosta disso ou não gosta daquilo. A realidade é maior do que isso que você enxerga.” Senti uma serenidade, e minha visão até mudou o foco. Tudo ficou mais bonito, como se estivesse num lugar que eu gostava muito de estar. E estava. Estava no meu altar de meditação, olhando para a foto do meu Mestre, com uma moldura nova dourada, em cima da mesa que meu pai me fez, meu nome espiritual escrito nela, o livro de orações aberto em frente, o incenso que me presentearam aceso.

Parte da série sobre autoconhecimento

Aprendendo meditação com Sri Chinmoy

 

 

sri chinmoy meditação samadhi

 

Donna Halper: Você diz aos seus alunos como devem meditar, ou eles escolhem por conta própria a melhor forma?

Sri Chinmoy: Exteriormente eu lhes dou orientações muito gerais, porque a forma de meditação de cada pessoa é única e pessoal. Pela Generosidade infinita de Deus, eu tenho a capacidade de ensinar, interiormente, as suas almas a meditar. Cada discípulo meu aprende então a sua melhor forma de meditação com sua própria alma. Eu também escrevi consideravelmente sobre a meditação e as diversas técnicas interiores, e portanto eles podem ler os meus escritos.

 

Donna Halper: Para uma pessoa que está completamente sozinha e gostaria muito de meditar, há algo com que possa começar sem frequentar uma escola ou encontrar um professor para aprender?

Sri Chinmoy: Sim, claro. Ela pode ler alguns livros espirituais para se instruir e começar a meditar em casa. A melhor coisa a se ter é uma mente repleta de paz – ou seja, não permitir que quaisquer pensamentos entrem na mente. Mas a pessoa verá que alguns pensamentos entram apesar dos seus melhores esforços. Assim, é necessário fazer uma seleção e permitir que apenas os bons pensamentos permaneçam na mente. Os pensamentos ruins serão descartados assim que possível. Permitindo que apenas os pensamentos bons permaneçam, ela será capaz de obter uma certa paz de espírito. Meditação é paz na mente e bem-aventurança no coração.

 

Donna Halper: Você trouxe uma questão à tona. Facilmente consigo ouvir as pessoas dizendo por aí: “É ótimo sentar-se e pensar bons pensamentos e coisas do tipo. Mas, e quando estamos inseridos na vida material e tudo está um caos, foi um dia ruim no escritório, seu chefe gritou com você, etc.? Como é possível ter os bons pensamentos numa hora como essa?”

Sri Chinmoy: Na maior parte dos casos, a manhã indica como será o dia. De manhã, antes de começarmos a correria do dia, antes de sairmos de casa e entrarmos nas atividades do dia, se meditarmos devotadamente por alguns minutos, certamente obteremos uma certa paz interior. Essa paz levaremos em nossos corações quando formos ao escritório ou adentrarmos as variadas atividades e confusão do dia a dia. Poderemos trazer à tona essa paz interior quando precisarmos dela. Assim seremos de fato capazes de controlar a situação.

 

Donna Halper: Acho que há um tremendo precedente para isso. Se eu lembro corretamente, na Bíblia é dito que a melhor hora para se orar é pela manhã, pois, se começar o seu dia pensando nas coisas espirituais, isso o carregará pelo restante do dia. O que você diz na verdade não é muito diferente do que chamamos de religião ocidental.

Sri Chinmoy: Não há tanta diferença entre religião ocidental e oriental quanto as pessoas pensam. Somos todos filhos de Deus. Falamos diferentes línguas, mas, quando se trata do coração – o seu coração, o meu coração, o coração dela –, estamos todos afinados. É a mente que cria os problemas. O coração aspirante se comunica conscientemente com a alma, e a alma é o representante de Deus. Há sempre uma verdade incipiente dentro de todos nós. Quando se trata de verdadeira espiritualidade, não há barreiras geográficas – ocidente e oriente, norte e sul. O que existe é a unicidade do coração. É através da unicidade do nosso coração que nos satisfazemos e a Deus em e através de nós.

 

Donna Halper: Quando uma pessoa se envolve mais na espiritualidade, isso levaria a que, digamos, esteja se tornando menos presa a coisas como preconceitos. Portanto, ela não teria sentimentos contra qualquer raça, credo, etc. As pessoas que estão presas em pensamentos preconceituosos se afastaram de Deus, ou apenas não compreendem Deus, ou é ainda outra coisa?

Sri Chinmoy: Elas não necessariamente se afastaram de Deus, mas compreendem Deus de acordo com sua capacidade limitada. Um verdadeiro buscador, entretanto, não os condenará. Pelo contrário, ele tentará enxergar e sentir que os erros cometidos pelos outros são seus próprios erros, pois ele aceitou Deus completamente. Essa aceitação de Deus inclui a aceitação da criação inteira de Deus, e essas pessoas que estão cometendo enganos também são filhos de Deus. Portanto, um aspirante sincero sente que lhe é obrigatório considerar as fraquezas, fracassos e defeitos dos outros como seus próprios. Porque ele ama Deus, ele sente que tem de se identificar com a criação de Deus. Ele não pode negar a criação de Deus; não pode falar mal da criação de Deus. Ele só consegue aceitar a criação de Deus como tal e orar para Deus e meditar em Deus para que ilumine a Sua criação.

 

Donna Halper: Isso quer dizer que, se uma pessoa se envolver com a meditação, quanto mais ela meditar e mais entender sobre Deus, maior será compreensão do mundo também?

Sri Chinmoy: A pessoa terá mais compreensão, mais iluminação. Ela será capaz de aceitar o mundo ao invés de negar o mundo, pois o mundo é a criação de Deus, e Criador e criação sempre andam juntos. Se pudermos aceitá-los em conjunto, seremos capazes de satisfazer a Realidade Suprema dentro de nós.

Meditação é para autoconhecimento

por Thamara Paiva

Muito tem se falado ultimamente sobre meditação como algo terapêutico, para ajudar a aliviar o stress ou a ansiedade. Contudo, ela é uma poderosa ferramenta para o autoconhecimento e autotranscendência, de acordo com os ensinamentos do professor de meditação Sri Chinmoy que continuam sendo difundidos por seus alunos por meio de cursos de meditação gratuitos no mundo todo, e também em São Paulo.

Patanga Cordeiro é um dos alunos de Sri Chinmoy, é ultramaratonista de provas de 10 dias de duração e pratica meditação há mais de 20 anos, e diz que meditação é um instrumento que pode transformar e iluminar a condição atual de quem a pratica. Não se trata de terapia ou relaxamento – é uma forma de ser aquilo que você nasceu para se tornar.

“Com sua boa vontade e determinação você pode usar esse instrumento para descobrir o que existe de real dentro de você e fazer da sua vida algo mais pleno, indo além do vazio, frustração, dúvida ou qualquer imperfeição que considere um obstáculo. Todavia, para isso é preciso praticar com disciplina e sinceridade, como um atleta divino. Uma vez que isso faça parte da sua vida, naturalmente vem um sentimento de satisfação, de a vida valer a pena, de tudo fazer sentido e ter um propósito, de se sentir verdadeiramente feliz mesmo sem ter acontecido nada de bom”, define.

Ele explica que, de acordo com o que Sri Chinmoy deixou de ensinamento, a meditação não significa apenas sentar quietamente em silêncio por cinco ou dez minutos. “A meditação requer esforço consciente. A mente tem que ser posta calma e quieta. E, ao mesmo tempo, tem que ser vigilante, para não permitir que qualquer pensamento ou distração ou desejo perturbador, entre”, explica Sri Chinmoy.

É a partir desse ponto, quando a mente se torna calma e quieta, é que é possível sentir que uma nova criação está se despertando dentro de si. “Quando a mente está vazia e tranqüila, e nossa existência inteira torna-se um recipiente vazio, Deus a preencherá com paz, luz e bem-aventurança.”

Segundo o Patanga, que é um dos que ministram os cursos de meditação gratuito em São Paulo, muitas pessoas procuram a meditação porque sentem que precisam de algo a mais na vida, uma felicidade maior, mas ainda não sabem o que é. Ele explica que por meio da meditação no coração, como a ensinada nos cursos, é possível encontrar as respostas. Foi assim que começou a correr também, pois a corrida e a meditação foram de auxílio mútuo.

“Sri Chinmoy ensinou para nós que a meditação faz com que nos tornemos inseparavelmente um com o mundo inteiro. Quando queremos alcançar paz, luz e felicidade ilimitadas, a meditação é a resposta. O mundo precisa de uma coisa – paz – e a meditação é a resposta”, diz Patanga.

 

Exercício de meditação no coração para fazer em casa

O Centro de Meditação Sri Chinmoy em São Paulo costuma oferecer cursos mensalmente, porém, Patanga Cordeiro compartilhou conosco um dos exercícios ensinados por Sri Chinmoy que é possível fazer em casa:

A vastidão do céu

“Mantenha os olhos semi-abertos e imagine o vasto céu. No começo, tente sentir que o céu está diante de você. Mais tarde, tente sentir que você é tão vasto quanto o céu, ou que é a própria vastidão celeste.

Depois de alguns minutos, feche os olhos e tente ver e sentir o céu dentro do seu coração. Por favor, sinta que você é o coração universal, e que dentro de si mesmo está o céu em que meditou e com o qual se identificou. Seu coração espiritual é infinitamente mais amplo do que o céu. Portanto, você pode facilmente abrigar o firmamento dentro de si mesmo.”
-Sri Chinmoy, do livro Meditação: Homem-Perfeição na Deus-Satisfação

Resumindo, você irá primeiro imaginar o céu. Depois vai sentir o céu todo dentro de si. A chave é afastar outros pensamentos. No silêncio dos seus pensamentos, você ouvirá uma nova música, de paz e dinamismo.

 

Quem foi seu professor: Sri Chinmoy

Sri Chinmoy Kumar Ghose (27 de agosto de 1931 – 11 de outubro de 2007) foi um Mestre espiritual indiano e professor que emigrou para os Estados Unidos em 1964.

Um escritor prolífico, compositor, artista e atleta, durante toda sua vida, Sri Chinmoy foi reconhecido internacionalmente por suas numerosas iniciativas em prol da paz interior e harmonia mundial. Sri Chinmoy é mais conhecido por promover eventos públicos sobre o tema como concertos, meditações e corridas.

Conduziu por muitos anos meditações na sede da ONU nos EUA, recebeu prêmios de líderes governamentais e educacionais, bem como comunidades locais. Alguns deles são o Prêmio Madre Teresa, recebido do presidente da Macedônia, o Medalhão Nehru da UNESCO e o Prêmio Gandhi da Paz, da Índia. No Brasil, recebeu doutorado honoris causa em Estudos da Paz pela PUC-Campinas.

Seus ensinamentos enfatizam o amor a Deus, meditar diariamente no coração, servir ao mundo e a tolerância fundada na visão moderna de que toda fé é essencialmente divina. Sri Chinmoy costumava referir a si mesmo como “um aluno da paz”.

 

Parte da série sobre autoconhecimento