Ser como uma criança

por Patanga Cordeiro,

com a aparição especial do bichinho colorido…

(e me desculpem se ele pula muito)

 

nyan_cat_animated

As caretas da idade

Nunca afetarão a beleza

De um coração de criança.

 

Sri Chinmoy, Seventy-Seven Thousand Service-Trees, Part 15, Agni Press, 1999

 

Sri Chinmoy não foi o primeiro Mestre a deixar clara a importância de termos uma postura pura, inocente, cheia de entusiasmo e novidade e sem preconceitos – justamente como uma criança. O Cristo, ao falar aos seus discípulos sobre quem seria o maior no reino dos céus, disse: “Eu lhes asseguro que, a não ser que vocês se convertam e se tornem como crianças, jamais entrarão no Reino dos céus.”

Nossa vida parece perfeita até certo momento, não? Qual momento é esse? Pense comigo: quando nos sentimos responsáveis pelas nossas vidas e pelo nosso futuro. E quando isso acontece? Quando nossa mente começa a substituir o nosso coração (não falo das emoções, mas sim do coração espiritual).

O coração é sublime. Ele nunca se cansa. Não julga mal. Ele depende de seu Pai divino para tudo e, portanto, nada teme. É alegre. É gentil. É dinâmico. É entusiasmado e entusiasmante. Ele enxerga o mundo através da sua unicidade com o mundo. São qualidades que toda pessoa espiritual irá valorizar muito.

Pobre mente. Ela não é má, mas somente sabe como dividir as coisas até que fiquem do tamanho que ela possa digerir. E, aí, claramente, seu julgamento não será certeiro. E nós sofreremos. Nos sentiremos separados da Fonte, do Pai, que é a nossa segurança, e, frustados por não conseguirmos satisfação genuína, ficaremos entristecidos ou culpando o mundo.

Sugiro um exercício para meditar no coração, do livro Asas da Alegria:

            Durante a meditação, sinta que você é uma criança num jardim florido. Esse jardim de flores é o seu coração. Uma criança pode brincar nesse lugar por horas, indo de flor em flor. Ela não deixará o jardim, pois se alegra com a beleza e fragrância de cada flor. Imagine que em seu interior há um jardim, e que você pode permanecer nele o quanto quiser. Assim você poderá meditar no coração. – Sri Chinmoy, as Asas da Alegria

A Graça de Deus e o esforço pessoal

textos de Sri Chinmoy compilados e traduzidos por Patanga Cordeiro

 

O meu início foi o meu fim

Quando pensei

Que podia fazer tudo sozinho.

 

Meu fim foi o meu início

Quando senti

A Graça de Deus agir em e através de mim.

 

O intermédio foi preenchedor

Quando descobri

Que meus braços e pernas são feitos

Da Luz-Compaixão de Deus.

 

Sri Chinmoy, The Wings Of Light, Part 8, Agni Press, 1974

 

sri-chinmoy-concert-barcelonaUma grande personalidade espiritual indiana, ao ser perguntada por seus discípulos sobre quantos anos de prática esforçada trouxeram a ela a Realização plena, simplesmente caiu na risada.

“Pratiquem! Minhas crianças, aquilo a que vocês chamam de prática, nada é senão seu esforço pessoal. Quando eu estava no mesmo estágio que vocês, não realizado, eu pensava e sentia que meu esforço pessoal era noventa e nove por cento, e que a graça de Deus era um por cento, e não mais. Mas minha completa estupidez morreu no momento em que a auto-realização nasceu. Então, para minha surpresa, eu senti, vi e realizei que a Graça do meu misericordioso Senhor era noventa e nove por cento, e que o meu débil esforço pessoal era um por cento. Mas a minha história não termina aqui. Por fim, eu percebi que aquele meu um por cento também era o incondicional e devotado cuidado do meu Pai Supremo por mim. Minhas crianças, vocês sentem que a realização-Deus é uma corrida que exige muito esforço. Isso não é verdade. A realização-Deus é sempre uma Graça que vem das alturas.”

Sri Chinmoy, Commentary On The Bhagavad Gita, Agni Press, 1971

 

Esportes e a Meditação

srichinmoyrunning.jpgMens sana in corpore sano é um ditado do latim bem conhecido, que diz que a mente, para ser sadia, precisa de um corpo sadio.

Mas, no âmbito interior, os esportes vão além do conceito de saúde. Auto-transcendência, disciplina, entusiasmo, alegria e inocência são todas qualidades importantes para uma vida espiritual e são todas encontradas no mundo dos esportes. E fazem parte de ser realmente sadio.

“In the heart of action is the silence of meditation, and in the heart of meditation is the dynamism of action.” – Sri Chinmoy

Eu (que estou escrevendo este artigo), recentemente completei uma prova de 10 dias de corrida, percorrendo 570 quilômetros. Meu amigo Adriano Passini está treinando para a travessia do Canal da Mancha. Tudo isso é louvável e traz enormes transformações. Mas você não precisa ficar assustado. O mais importante é se exercitar. A quantidade é algo que vai vir naturalmente. E o resultado, que é inocência, paz, pureza, você vai sentir em meros dez minutos depois de começar a se exercitar.

Disciplina todos temos. Você também! Você não escova os dentes todos os dias? Toma banho todos os dias? Come todos os dias? Vai ao trabalho/aula todos os dias? Então você é disciplinado! É só uma questão de considerar a prática de exercícios como algo igualmente necessário. E é!

No livro Sport and Meditation, de Sri Chinmoy, o famoso corredor Paul Tergat conta:

paul_tergat “Sri Chinmoy estava tão certo no que me disse antes da Maratona de Nova Iorque – que eu deveria me concentrar até a última milha. Certamente foi a corrida mais dura da minha vida. Até o fim não sabíamos quem ia vencer a prova.
“Eu acredito que há um propósito por detrás da capacidade que eu recebi para minha vida atlética: que eu utilize o esporte com a postura correta e para benefício da minha vida interior. É por conta dessa capacidade que eu pude continuar até agora. Sem esse poder mais elevado, eu poderia facilmente ter declarado “Sim, eu quebrei recordes mundiais, corri bem” e então ter me aposentado cinco anos atrás.
“… portanto, o esporte está realmente vindo à tona para o desenvolvimento do mundo.” – Paul Tergat

Não se intimidem por ler isso vindo de um campeão. Isso vale para todos – você, eu e todos nós.

Prehi, abhihi, dhrishnuhi.

Go forward, fear not, fight.

Siga em frente, não tema, lute.

– Upanishads, traduzido por Sri Chinmoy / Patanga Cordeiro

Yoga e Meditação

por Patanga Cordeiro, com respostas e aforismos de Sri Chinmoy

Yoga (ou ioga) é um termo do sânscrito que significa “união”, em particular união com nosso verdadeiro “eu”. No latim, de onde a palavra religião origina, “religare” quer dizer “reunião”. Assim, vemos que yoga e religião possuem metas que levam à mesma direção.

 

Captura-de-pantalla-2014-01-15-a-las-10.59.12-400x240Três formas de yoga

Em particular, há três formas de yoga (ou ioga) que são encontradas nas religiões e caminhos espirituais: jnana yoga (ir além da mente), bhakti yoga (devoção), karma yoga (ação).

Hoje em dia, yoga é comumente associada com uma série de exercícios físicos, buscando equilíbrio dos nervos e proporcionando saúde. Mas quando se fala em espiritualidade, yoga não está relacionada com exercícios físicos. É uma questão de busca interior, de prática espiritual (como a oração e a meditação). Os exercícios físicos são agrupados de maneira geral como hatha yoga e servem para trazer saúde e estabilizar nosso sistema nervoso. Mas, por si só, não levam o ser humano à sua meta. É necessário exercitar nossa aspiração e transcender limitações internas e externas, através dos tipos de yoga tradicionais.  Hatha yoga e os tipos de yoga espiritual são complementares.

Sri Chinmoy explica belamente no aforismo abaixo sobre hatha yoga e raja yoga (parte do jnana yoga), e seu papel complementar:

Hatha yoga é purificação física.

Raja yoga é preparação mental.

Hatha yoga tenta controlar o corpo.

Raja yoga tenta despertar a alma.

Os fracos precisam de Hatha yoga para se tornarem fortes.

Os fortes precisam de Raja yoga para se tornarem vitoriosos.

 Sri Chinmoy, God’s Hour, Agni Press, 1973

 

Meditação, Oração e o Yoga

A meditação em si toma parte auxiliando o buscador em todas as formas do Yoga. Meditação é ir além da mente (jnana yoga). Meditação é devoção (bhakti yoga). Meditação é ação (karma yoga).

Então, a meditação em si não é o caminho, mas a meditação (e a oração) é quem nos faz trilhar o caminho do yoga até alcançarmos a nossa Meta derradeira.

textos de Sri Chinmoy

 

Hatha Yoga

Hatha yoga é purificação física.

Raja yoga é preparação mental.

Hatha yoga tenta controlar o corpo.

Raja yoga tenta despertar a alma.

Os fracos precisam de Hatha yoga para se tornarem fortes.

Os fortes precisam de Raja yoga para se tornarem vitoriosos.

 Sri Chinmoy, God’s Hour, Agni Press, 1973

 

ckg-passaro-azulPergunta: A meditação que você oferece para as pessoas que participam das suas sessões, é ela Yoga, ou estamos falando de outra coisa?

Sri Chinmoy: É Yoga. Yoga inclui oração e meditação e espiritualidade em geral. Com certeza estamos praticando Yoga. Yoga é uma palavra do sânscrito que significa união consciente com Deus. Alcançamos nossa união consciente com Deus através da nossa oração, meditação, aspiração e etc.

 

O que é Yoga ou Ioga?

O que é Yoga? Yoga é a linguagem de Deus. Se queremos falar com Deus, temos de aprender a Sua linguagem.

O que é Yoga? Yoga é aquilo que revela o segredo de Deus. Se queremos conhecer o segredo de Deus, temos de mergulhar no caminho do Yoga.

O que é Yoga? Yoga é o Alento de Deus. Se queremos enxergar através dos Olhos de Deus e sentir através do Seu Coração, se queremos viver no Sonho de Deus e conhecer a Realidade de Deus, se queremos possuir o Alento de Deus e, finalmente, se queremos nos tornarmos o Próprio Deus, o Yoga nos chamará.

Yoga é união. É a união da alma individual com o Eu Supremo. Yoga é a ciência espiritual que nos ensina como a Realidade Última pode ser realizada na vida.

O que temos de fazer é aceitar a vida e satisfazer o Divino em nós mesmos aqui na Terra. Isso só se consuma ao transcendermos nossas limitações humanas.

Yoga nos diz o quão longe progredimos com relação à realização-Deus. Ela também nos conta sobre nosso papel destinado no Drama cósmico de Deus. A palavra final em Yoga é que cada alma humana é um representante divino de Deus na Terra.

Foquemos agora a nossa atenção no aspecto prático do Yoga. Há vários tipos de Yoga: Karma Yoga, o caminho da ação, Bhakti Yoga, o caminho do amor e devoção e Jnana Yoga, o caminho do conhecimento. Esses três são considerados os mais importantes tipos de Yoga. Há outros tipos significativos de Yoga, mas são ramos desses três, ou então tipos muito similares.

Esses três yogas servem como os três portais principais para o Palácio de Deus. Se queremos ver e sentir Deus da maneira mais doce e íntima, temos de praticar Bhakti Yoga. Se queremos realizar Deus na humanidade através do nosso serviço altruísta, temos de praticar Karma Yoga. Se queremos realizar a sabedoria e glórias do Eu transcendental de Deus, temos de praticar Jnana Yoga.

Uma coisa é certa. Esses três caminhos nos levam à realização-do-Eu na realização-Deus, e à realização-Deus na realização-do-Eu.

Sri Chinmoy, Yoga And The Spiritual Life. The Journey of India’s Soul., Agni Press, 1971

 

Pergunta: Você inclui Yoga na prática da sua fé?

Sri Chinmoy: Sim. Na minha fé, Yoga é tudo. Amor, devoção e entrega são formas de Yoga.

Sri Chinmoy, Obedience: a supreme virtue, Agni Press, 1977

 

 

Kriyayoga (Kriya yoga)

Yoga de ação.

No Yoga de ação, o coração entregue do buscador é uma conquista inestimável.

Sri Chinmoy, The Core Of India’s Light, Part 4, Agni Press, 1992

 

Pergunta: A prática de Kriya Yoga acelera (esse/o) processo?

Sri Chinmoy: Sim, certamente. A prática de Kriya Yoga certamente acelera e adianta o processo. Assim como outros ramos do Yoga, Kriya Yoga acelerará a jornada espiritual. Realmente depende do buscador. Se você gosta de Kriya Yoga mais do que outros Yogas, você tem a perfeita liberdade para praticar Kriya Yoga. Se alguém gosta de outra forma de Yoga, naturalmente essa pessoa praticará essa Yoga. Não importa qual Yoga você seguir, se for sincero, genuíno e altruísta, estará fadado a alcançar a meta mais cedo.

Sri Chinmoy, My heart’s salutation to Australia, part 1, Agni Press, 1976

 

Pergunta: Mestre Chinmoy, você nos explicaria brevemente o que é Yoga?

Sri Chinmoy: Yoga quer dizer união. União com quem? União com Deus. Praticando Yoga, isto é, disciplina espiritual, nos unimos com Deus.

Sri Chinmoy, Earth’s cry meets heaven’s smile, part 3, Agni Press, 1978

 

 

 

Estou procurando algo, mas não sei o quê

por Patanga Cordeiro

 

“Dear friends, dear brothers and sisters, dear distinguished professors and deans, here we are all seekers. We are sailing in the same boat, the boat that is carrying us to the Golden Shore of the Beyond. Nothing gives me a greater sense of satisfaction than to be of dedicated service to seekers, for I am also a seeker, an eternal seeker, a seeker of the infinite Truth and Light. …” – Sri Chinmoy, The Meaning of Discipleship

 

 

Picture-5-400x240Se você se depara com a realidade de que está procurando algo, mas não sabe o quê, sinta-se um felizardo. Se você procura por algo que a maioria das pessoas não compreende ou nunca ouviu falar, isso quer dizer que está pronto para ir além do ordinário. Pronto para se descobrir como um ser extraordinário.

 

Você é um buscador. Um buscador da satisfação permanente, genuína. Salvação, Libertação, Nirvana, Realização – todos são termos similares que indicam um estado de beatitude que não se encontra simplesmente em ir ao trabalho, estudar, lidar com a família, descansar nos fins de semana…

 

Tentei compilar uma lista de coisas que indicam que você deve estar despertando e pronto para “algo mais”. Não é uma lista exaustiva – certamente existem muitos outros sinais. Mas esses são os que eu consegui agrupar aqui, baseados nas minhas experiências pessoais e também nas que me contam durante os cursos de meditação. Acho que você só compreenderá o que eu quis dizer em cada um dos temas se estiver passando pela situação descrita. Também não há questão de “superior ou inferior”. São momentos, experiências.

 

 

“Quero mudar”

 

Vontade de mudar algo que é dogmático na sociedade. Bons exemplos: dieta vegetariana, largar de vícios como álcool e cigarro, etc. Todo mundo sabe que é certo, mas (quase) ninguém faz. Você simplesmente não aguenta mais e muda. Talvez não conheça ninguém que tenha mudado, mas você o faz sozinho, a despeito de todos. Ou pode ser até algo bem simples, bem pequeno. No meu caso, eu lembro que, quando tinha uns 16 anos, eu só bebia sucos doces e refrigerantes. Eu não tomava água de jeito nenhum. Aí eu simplesmente resolvi parar de tomar as outras coisas. Resultado: aprendi a gostar de água e me senti capaz de me transformar. A partir daí eu comecei a mudar mais coisas em mim mesmo, até que cheguei na meditação. E hoje em dia eu posso beber tanto água quanto refrigerantes, sem estar vinculado a nada. Outro exemplo comum é começar a praticar esportes, no caso de uma pessoa sedentária. Eu fiquei muito tempo sem me exercitar (digamos, da infância até os 16 anos). Com 16 anos, comecei a praticar esgrima japonesa. O primeiro treino foi MUITO cansativo. Mas eu cheguei em casa com uma alegria que ia além da euforia. Só podia ser algo da minha alma – ela devia estar feliz, pois eu estava fazendo algo que ela queria que eu fizesse.

 

 

“Buscas extremas”

 

Algumas pessoas, quando procuram por algo que não sabem o que é, mas não encontram, tendem a procurar experiências cada vez mais fortes, no intuito de encontrar algo genuíno. A exemplo, tenho colegas que eram de bandas de heavy metal quando encontraram a meditação. Alguns começaram a usar drogas, etc, mas, no caso particular deles, não era uma questão de autodestruição. Eles estavam procurando. Algumas pessoas largam um emprego que paga um ótimo salário para fazer algo braçal. Outro exemplo interessante é o Ayrton Senna. Se você puder ver as entrevistas e gravações das corridas (há alguns filmes sobre ele), você verá que ele ia muito além do que os outros pilotos consideravam um limite. E ele teve experiências espirituais e um despertar interior muito evidente.

 

 

“O santinho”

 

Essa é uma versão oposta do “buscas extremas”. Uma pessoa equilibrada, com tendências angelicais, compassivas, sincero, honesto, puro, mas ainda dinâmico, buscador, aspirante, é assim por um motivo. Ele já tem uma tendência espiritual, provavelmente por já tê-las desenvolvido em outras vidas. Ele precisa encontrar um caminho logo, antes que suas qualidades sejam “devoradas” pelas críticas exteriores.

 

 

“Felicidade em si mesmo”

 

Você tinha um namorado(a), esposo(a) e, depois do relacionamento acabar, você se sente feliz genuinamente, com vontade de se descobrir, com tremenda aspiração. Existe mais um conceito na sociedade, que alguém só é feliz se tiver uma companhia, o que é absurdo. Buddha costumava dizer que só é feliz com uma companhia aquele que consegue ser feliz sozinho (obviamente). Eu mesmo passei por essa experiência. Quando terminei um relacionamento que não era para o progresso mútuo, eu tive uma sensação de felicidade tão intensa que reconheci imediatamente que era um sorriso da minha alma. Eu tinha feito a coisa certa, e muitas e muitas novas possibilidades, mais reluzentes, surgiram diante de mim a partir de então.

 

 

“O desencaixado”

 

Você se sente sozinho, ninguém o compreende. Você sabe que não está maluco, mas que o mundo parece não pensar como você. Na verdade, você ainda não encontrou pessoas que possuem a mesma aspiração que você. Quando o fizer, se sentirá encaixado. E mais, sentirá que a aspiração e o questionamento positivo é um estado natural do ser. E inspirará outras pessoas a fazerem o que sentem ser correto.

 

“O encaixado”

 

Essa é uma experiência inversa de “o desencaixado”. Uma pessoa extremamente popular e bem querida por todos, agrada a todos, lida com todos, possui muitos contatos e muitas pessoas queriam ser como ela. Possivelmente, essa pessoa possui capacidades interiores extraordinárias, mas ainda não está direcionando elas para uma busca espiritual. Assim, ela desenvolve o aspecto exterior. Cedo ou tarde, a pessoa deixa de ter satisfação no mundano e dirige o seu anseio para o Altíssimo.

 

 

Como podemos silenciar a mente na meditação?

September 13 1976w

Pergunta: Como podemos silenciar a mente na meditação?

Sri Chinmoy: Tente inspirar tão silenciosamente e lentamente quanto o possível, de forma que, se você colocasse um fino fio diante do seu nariz, ele não se moveria. Então você verá que a sua meditação será profunda e a sua mente ficará calma e silenciosa.

Então imagine algo muito vasto, e também calmo e silencioso. Quando começar a meditar, sinta que dentro de você há um vasto oceano, e que você mergulhou fundo adentro. Lá no fundo tudo é tranquilidade, uma enxurrada de tranquilidade.

A coisa mais importante é a prática.Hoje a sua mente age como um macaco. Essa mente inquieta bate o tempo todo na porta do seu coração, perturbando a sua serenidade. Neste mundo, todos possuem orgulho, vaidade e auto-estima. Portanto, se mantiver a porta do coração fechada cada vez que a mente vier, se não der atenção alguma à mente, depois de um tempo, a própria mente achará que seria indigno dela ficar importunando você. Eu percebi meus discípulos não abrindo a porta de seus corações quando a mente veio bater. Eles não reagiram com o coração, e o coração continuou imperturbado. O coração abriu amplamente as suas portas apenas para a Luz da alma e ouviu apenas os ditados da alma.

O pensamento vem do mundo mental. Mas você também tem o coração, o mundo-identificação. Quando permanece no coração, isso quer dizer que se identifica com a alma. A alma está além das idéias, além dos pensamentos. Ao invés de concentrar-se na mente central, se puder concentrar-se no coração, então a realidade que há dentro do coração automaticamente lhe dá um acesso à alma. Ao se concentrar e meditar na realidade que está dentro do coração, essa realidade vem à tona.

Ao se concentrar na mente, naturalmente os pensamentos virão incomodá-lo. Mas, ao se concentrar no coração, o problema é resolvido. Portanto, sempre tente meditar no coração e trazer a alma à tona. A alma, que é um representante direto de Deus, é a eterna realidade em nós.

Sri Chinmoy, Experiences Of The Higher Worlds, Agni Press, 1977

 

Por que meditamos? O que é meditação?

September 13 1976g _0Pergunta: Guru, você fala sobre a meditação. O que quer dizer meditação?

Sri Chinmoy: Meditação quer dizer muitas coisas para muitas pessoas. Cada indivíduo possui uma forma de aprender o segredo da arte da meditação. No nosso caso, quando meditamos, esvaziamos nossas mentes e, então, as preenchemos com algo divino. Isso quer dizer que jogamos fora todos os pensamentos infrutíferos, malignos e não-divinos, e preenchemos a mente com pensamentos gratificantes, iluminadores e divinos.

Pergunta: Por que meditamos?

Sri Chinmoy: A meditação é absolutamente necesária para aqueles que querem ter uma vida melhor e mais satisfatória. Se você sente que está satisfeito com o que tem e o que é, então não precisa entrar no campo da meditação. Mas, se você sente que há um deserto árido em seu coração, eu gostaria de dizer que a meditação é a resposta. A meditação lhe dará alegria interior e paz de espírito. A meditação nunca o tirará de seus pais, de seus filhos, de sua família. Longe disso. Ela apenas aumentará a conexão com os seus entes queridos, pois dentro deles você verá a existência de Deus.

Se você quer desenvolver seus talentos ou aumentar a sua capacidade em qualquer âmbito, eu gostaria de dizer que é obrigatório seguir uma certa disciplina interior. Se você é um cantor, mas deseja cantar infinitamente melhor, se aspirar, eu lhe digo, a sua voz ficará muito melhor. Não há nada na terra que não possa ser melhorado através da meditação.

Se você quer simplificar a sua vida, a meditação é a resposta. Se você quer ter satisfação na sua vida, a meditação é a resposta. Se você quer ter alegria e oferecer alegria ao mundo todo, a meditação é a única resposta.

Se você medita para esquecer do sofrimento ou das dificuldades, então não está meditando pelo motivo correto. Mas, se está meditando apenas para agradar a Deus e satisfazer a Deus da Maneira própria Dele, então a sua meditação é correta. Quando Deus é satisfeito, e Deus é satisfeito na sua meditação, então o papel de Deus é levar embora o seu sofrimento e dificuldades. Mas, se você medita para escapar do mundo ou desafiar o mundo e ficar contra ele, então está fazendo a coisa errada.

A meditação é a sua capacidade consciente, que você deve exercitar todos os dias e todos os segundos, para entrar em sua mais elevada divindade, onde o finito fica completamente perdido no Infinito. A existência finita que você tem e é pode ser facilmente dissolvida no infinito e se tornar completamente uma com o infinito, se você meditar. Isso é o que a meditação é, e o que a meditação pode fazer por você.

Sri Chinmoy, Experiences Of The Higher Worlds, Agni Press, 1977

A missão da alma

a-good-intention-can-change-a-great-many-conditionsCada alma possui uma missão especial?

 Sri Chinmoy: A sua alma tem uma missão especial. Sua alma está supremamente consciente dessa missão.

A maya, ilusão ou esquecimento, faz com que você sinta que é finito, fraco e indefeso. Isso não é verdade. Você não é o corpo. Você não é os sentidos. Você não é a mente. Eles são todos limitados. Você é a alma, que é ilimitada. A sua alma é infinitamente poderosa. A sua alma transcende tempo e espaço.

A sua alma possui uma missão especial? Sim. A sua missão está nos recessos mais profundos do seu coração, e você tem de encontrá-la e satisfazê-la lá mesmo. Não pode haver uma maneira exterior para que você satisfaça a sua missão. O almíscar cresce no corpo do cervo. Ele sente o cheiro do almíscar e, encantado, procura encontrar a sua fonte. Ele corre e corre, mas não consegue encontrar a fonte. Em sua busca interminável, ele perde toda a sua energia e, por fim, morre. Mas a fonte que ele procurava desesperadamente estava dentro de si mesmo. Como é que ele a encontraria em outro lugar?

Acontece o mesmo com você. A sua missão especial ­– que é a satisfação da sua divindade – não está fora de você, mas dentro. Procure no interior. Medite no interior. Você descobrirá a sua missão.

 

Como conhecemos qual é a nossa missão especial?

 Sri Chinmoy: Para saber qual é a sua missão especial, você precisa mergulhar fundo dentro de si. A esperança e a coragem devem acompanhá-lo em sua jornada incansável. A esperança despertará a sua divindade interior. A coragem fará a sua divindade interior florescer. A esperança o inspirará a sonhar com o Transcendental. A coragem o inspirará a manifestar o Transcendental aqui na terra.

Para sentir qual é a missão especial, é preciso sempre criar. Essa sua criação é algo em que você derradeiramente se tornará. Finalmente, você percebe que a sua criação é a sua auto-revelação.

É verdade, existem tantas missões quanto almas. Mas todas as missões se satisfazem apenas depois das almas terem alcançado um certo grau de perfeição. O mundo é um teatro divino. Cada participante tem uma parte em seu sucesso. O papel de um servo é tão importante quanto o do Senhor. Na perfeição de cada papel individual está a satisfação coletiva. Ao mesmo tempo, a satisfação individual é perfeita apenas quando o indivíduo estabelece sua conexão inseparável e realizado sua unicidade com todos os seres humanos do mundo.

Você é um, da cabeça aos pés. Ainda assim, um lugar seu é chamado de orelhas, e outro se chama olhos. Cada lugar tem o seu nome próprio. Estranhamente, apesar de serem todos partes do mesmo corpo, um não pode fazer o papel do outro. Os olhos vêem, mas não conseguem ouvir. As ouvidos ouvem, mas não conseguem enxergar. Portanto o corpo, sendo um, também é muitos. Similarmente, apesar de Deus ser um, Ele Se manifesta através de muitas formas.

Deus nos conta qual é a nossa missão. Mas nós não entendemos a linguagem de Deus, e, portanto, Ele tem de ser o seu próprio intérprete. Quando outros nos falam sobre Deus, eles nunca podem explicar completamente o que Deus é. Eles fazem uma representação imperfeita, e nós ouvimos eles também de forma imperfeita. Deus fala no silêncio. E Ele interpresa a Sua mensagem em silêncio. Devemos também ouvir e entender Deus em silêncio.

 

Sri Chinmoy, The Wisdom of Sri Chinmoy, p 331-332, Blue Dove Press, San Diego, 2000

Curso de Janeiro

O próximo curso de meditação acontecerá em Janeiro, durante a noite. Serão 4 dias de curso, aproximadamente. A temática é voltada para a auto-descoberta e satisfação pessoal, e não a fins terapêuticos.

Para participar, acesse a página de contato, ligue para nós e deixe seu nome e telefone.

Se tiver interesse, pode já adquirir e ir lendo o livro Meditação nas livrarias ou sites. Ele será o livro-texto, necessário para o bom andamento do curso.

Até lá!

a-good-intention-can-change-a-great-many-conditions

A primeira palestra em universidade de Sri Chinmoy

Espiritualidade: O que ela é e o que ela não é

Universidade das Índias Ocidentais, Kingston, Jamaica

10 de Janeiro de 1968

 

Epilogue-sri-chinmoy-doveEspiritualidade é a liberdade ilimitada do homem em seu barco-vida: a liberdade da sua jornada-vida, estar liberto das suas dores-vida e a liberdade além das suas conquistas-vida.

 

Na espiritualidade está a mais longínqua Visão do homem. Na espiritualidade está a mais próxima realidade do homem. Deus tem Compaixão. O homem tem aspiração. Espiritualidade é a luz-consciência que une a aspiração do homem e a Compaixão de Deus. A espiritualidade diz ao homem que ele é Deus velado e que Deus é o homem revelado.

 

A espiritualidade não é uma fuga do mundo de realidade. A espiritualidade nos diz o que a verdadeira realidade é e como podemos descobri-la aqui na terra. A espiritualidade não é a negação da vida, mas sim a pura aceitação da vida. A vida deve ser aceita sem reservas. A vida deve ser realizada devotadamente. A vida deve ser transformada completamente. A vida deve ser vivida eternamente.

 

A espiritualidade não é a canção da ignorância. É a mãe da concentração, meditação e realização. A concentração me leva de forma dinâmica a Deus. A meditação silenciosamente traz Deus até mim. A realização não me leva a Deus e nem traz Deus até mim. A realização me revela que Deus é o Pássaro Azul da Realidade da Infinidade e que eu sou as Asas Douradas da Verdade da Divindade.

 

A espiritualidade me ensinou a diferença entre a minha fala e o meu silêncio, entre a minha mente e o meu coração. Na fala, procuro me tornar. No silêncio, eu sou. Quando abro a minha boca, Deus fecha o meu coração. Quando fecho a minha boca, Deus abre o meu coração. Minha mente diz: “Deus precisa de mim.” Meu coração diz: “Eu preciso de Deus.” Minha mente quer possuir a Criação de Deus enquanto a nega. Meu coração quer possuir a Criação de Deus enquanto a serve. Minha mente diz que não sabe se pensa em Deus ou nela mesma. Por vezes, a minha mente sente que, já que não pensa em Deus, também Deus não pensa nela. Meu coração vê e sente que Deus pensa nele, mesmo se ele não se dá ao trabalho de pensar em Deus.

 

A espiritualidade disse-me secretamente qual é a minha necessidade suprema e como posso alcançá-la. Qual é a minha necessidade suprema? A Bênção de Deus. Como posso tê-la? Simplesmente emprestando-a do Banco de Deus.

 

Como poderei pagar a minha dívida? É fácil! Basta emprestar novamente do Banco de Deus. Mas devo emprestar sabedoria, e nada mais. Com a sabedoria, o débito é anulado. Essa sabedoria é justamente o alento da espiritualidade.

 

Eu sou o experimento de Deus. Ele me deu o nome de Ciência. Eu sou a experiência de Deus. Ele me deu o nome de Espiritualidade. Eu sou a Realização de Deus. Ele me deu o nome Unicidade – Unicidade interior e Unicidade exterior.

 

Deus é a minha Realidade.

O Céu é a minha Imortalidade.

A Terra é a minha Divindade.

 

Na Terra, eu cresço.

Com o Céu, eu me torno.

Em Deus, eu sou.

 

Sri Chinmoy, Eastern Light for the Western Mind, Agni Press, 1793

Como e onde aprender meditação?

mounttop.jpg

Temos duas partes para este artigo. A primeira é “Como aprender técnicas de meditação”. A segunda é “Como fazer a meditação se tornar uma força e uma vantagem na minha vida”.

Onde aprender técnicas de meditação

Existem diversos livros escritos sobre o assunto, desde exercícios para o psicológico até exercícios para a meditação profunda. Depende do seu objetivo. No entanto, recomendo a você mirar alto. Um professor do jardim de infância pode ensinar o alfabeto. Já um professor universitário pode ensinar tanto o alfabeto quanto pode lhe dar um diploma profissional.

Assim, se você tentar meditar de verdade, vai receber tanto os benefícios mais espirituais (transformação do ego, uma nova perspectiva, uma visão do mundo mais esclarecida e mais bela, serenidade e satisfação genuína), quanto os mais superficiais (controle da ansiedade, medos, saúde, calma, etc).

Outra coisa interessante é que se você puder ir além dos livros e encontrar pessoas que estão ensinando ou aprendendo meditação, isso lhe ajudará muito. É como uma brasa fria, que volta a queimar ardentemente após ser colocada dentro da fogueira. A gente funciona assim, não? Realmente vale a pena procurar um lugar legal para aprender.

Mas agora, por que motivo você quis se dedicar ao melhoramento interior? Por que você está fazendo diferente dos seus amigos ou familiares? Parece não haver motivo. Mas há. Isso se chama aspiração. Essa aspiração é uma chama ascendente, que começa a queimar nossas amarras, nossos bloqueios e limitações e nos remete a anseios mais sublimes do que os nos rodeiam diariamente. Cedo ou tarde, todo mundo passa por isso. Os motivos podem ser muitos e normalmente não conseguimos identificá-los.

A aspiração nos leva à segunda parte deste artigo:

Meditação “não sei por quê”

ckg-jk-pink.jpgMuitas vezes chegamos a essa conclusão. Eu apenas quero meditar. Nem sempre temos um motivo exterior. Mas a aspiração nos leva até ela. Para você que está desperto, apenas as técnicas de meditação que lemos nos livros não serão suficientes. Você tem capacidade para mais.

Para aprender meditação mais a fundo, são três os passos principais. Eles são universais, mas, para ilustrar, usarei um mantra do budismo:

“buddham saranam gachhami,
dhammam saranam gachhami,
sangham saranam gachhami”

“Eu tomo refúgio no mestre,
eu tomo refúgio no ensinamento e na disciplina
e eu tomo refúgio na comunidade espiritual.”

Comunidade espiritual (isto é, amigos)

Esse quesito não precisa ser seguido à risca do seu significado no dicionário. É importante ter contato com pessoas que compreendam a sua busca, que tenham fins próximos e que usem métodos similares. Não é necessário se mudar para uma vila na floresta e praticar meditação. É claro que essa é uma possibilidade, mas mestres modernos como Sri Chinmoy e Sri Aurobindo também defendiam a possibilidade, as vantagens e a plenitude de viver uma vida normal e natural dentro da sociedade, mas sem deixar de lado a dimensão espiritual.

Por exemplo, entre os métodos cristãos, budistas, etc, e também entre as pessoas que não praticam a meditação de forma religiosa (pois, obviamente, a meditação não é vinculada a religião), é bem comum que uma ou duas vezes por semana essas pessoas se encontrem para praticar juntas. Depois de praticar, provavelmente irão conversar sobre as suas boas experiências, sobre as dificuldades atuais, trocarão conselhos e até mesmo farão um lanche juntas! A maior parte das pessoas vai à academia, natação, corre ou faz aulas de inglês, etc, mais do que uma ou duas vezes por semana, então fica fácil ver que não é difícil se encontrar semanalmente para acalentar a sua aspiração e a de seus colegas.

Ensinamento e disciplina

Estou partindo do princípio que todos os que estão lendo este artigo comem todos os dias, tomam banho todos os dias, escovam os dentes todos os dias, trabalham quase todos os dias (domingo em casa tem que cuidar do jardim e da bagunça no quarto, né?), e muitas outras coisas. Assim, o que você perdeu em ser disciplinado? Nada. Você ganhou muito.

A questão da disciplina é que tudo o que é bom a gente tenta praticar e incorporar no nosso dia-a-dia. Isso em si nos dará mais força para levar o dia em um fluxo mais perfeito e harmonioso. Se eu não almoço, provavelmente vou ficar fraco durante a tarde. Se eu não medito, provavelmente me sentirei vazio interiormente durante o dia. Não é razoável?

Outra parte da palavra dhammam (ou dharma) é o ensinamento e postura espiritual. Assim como um bebê aprende a usar o banheiro, como uma criança aprende o alfabeto, como um jovem aprende um ofício, o buscador espiritual aprende instrumentos para o seu desenvolvimento. Isso não é nada menos do que o ensinamento espiritual.

A figura do Mestre

Se você, assim como eu, veio de uma cultura bem racional, que busca explicações para tudo, talvez sinta que a figura do mestre é dispensável. Isso é bem natural de se pensar, porque a gente está acostumado a usar nosso ego individual para observar e julgar as coisas. Assim, achamos que sabemos de tudo.

Mas na vida interior, somos todos principiantes. Veja uma criança. A sua mãe lhe diz para não colocar a mão no fogo. A criança ouve a mãe. Ela sabe que sua mãe está sempre certa e que ela a ama muito. Se a criança quisesse descobrir por conta própria por que motivo não deve colocar a mão no fogo (e outras coisas que sua mãe lhe ensina), ela iria ter muitas experiências desagradáveis. Ela iria se queimar um dia, no outro iria se cortar, no outro cair, no outro se furar, no outro se esquecer, no outro ficar triste, no outro solitária, até que um dia iria se conformar com o fato de que o mundo é só sofrimento. Mas não é. É uma questão de sabedoria. Aproveitamos os ensinamentos do passado para seguir em frente. Um pesquisador aproveita a pesquisa do ano passado e segue em frente a partir daí. Ele não tenta pesquisar a mesma coisa que já foi pesquisada. Ele a usa como base para conquistas maiores. “É assim que a humanidade segue em frente.”

Cultivando a Árvore-Paciência

ironman.jpgpor Patanga Cordeiro

Estive em viagem de fim de ano em San Diego, na Califórnia, para passar duas semanas com meus amigos do Centro Sri Chinmoy. Entre diversas coisas, durante a inauguração da exposição de arte de Sri Chinmoy no saguão da prefeitura da cidade, Ranjana Ghose, curadora da arte Jharna-Kala de Sri Chinmoy, recitou um poema de Sri Chinmoy. Eu não anotei na hora, mas poema diz algo no seguinte sentido: O que cresce entre a árvore-fracasso e a árvore sucesso de nossas vidas é a árvore-paciência.

Muitas vezes consideramos a paciência como algo fraco, débil – a nossa última opção após não alcançarmos algo da forma esperada. Ou então a manipulamos como uma desculpa para deixar de fazer algo em vista.

Sri Chinmoy fala sobra a paciência:

“O que é a paciência? É uma certeza interior do Amor sem reservas e Orientação incondicional de Deus. A paciência é o Poder de Deus oculto em nós, para superarmos as abundantes tempestades da vida.”
Songs Of The Soul, Agni Press, 1971.

“A paciência é uma árvore que cresce dentro de nós e não produz apenas um fruto, mas quatro: sabedoria, alegria, paz e vitória. Paciência requer energia, assim como a cooperação do corpo, vital e mente. Sem paciência, a mente funciona de forma automática, como uma máquina. Ela se move por compulsão, não por escolha. Ela é inquieta – corre para lá e para cá. O corpo pode ser inerte, mas a mente está sempre vagando. Por isso, não pode existir paz sem paciência. …”

Meditação e concentração são formas de ensinar à mente como focar sua energia para um objetivo, ao inves de ficar “sempre vagando”. Ele continua:

“Paciência não é inércia. Inércia é uma forma negativa e destrutiva de abordar a Verdade. É estagnada, e aquilo que é estagnado por fim leva à destruição. Mas a paciência é dinâmica – ela sempre segue em frente, em direção à meta. A paciência possui o movimento contínuo de crescimento e está sempre acompanhada pela paz. Essa paz nunca pode ser confundida com inércia, que é sempre acompanhada por inquietação.”
Illumination-Fruits, Agni Press, 1974.

Vejam como é interessante! Inércia é acompanhada por inquietação (imaginemo-nos deitados na cama, sem fazer nada, sacudindo os pés ou pensando em coisas fúteis.) Paciência é dinâmica e leva à paz. Imaginemo-nos realizando um projeto certeiro, superando dificuldades no tempo certo e colhendo os frutos da ação: não o sucesso, mas a paz.

Comentários sobre os Vedas, Upanishads e Bhagavad Gita

800px-Mahabharata04ramauoft_0370por Patanga Cordeiro

Estive lendo um livro chamado Comentários sobre os Vedas, Upanishads e Bhagavad Gita. São escritos dos mais elevados que já foram derramados pelas penas dos sábios dos tempos remotos. Alguns deles detinham iluminação completa, acredita-se. Sri Chinmoy escolheu alguns dos mais importantes trechos e fez comentários.

Eu mesmo pensava que esse tipo de tema era meio “esotérico”, “coisa antiga”, etc. Mas alguns anos de meditação me fizeram deixar de lado preconceitos e parte da minha ignorância, e passei a enxergar de outra forma esses escritos tão especiais.

Abaixo seguem alguns dos meus trechos favoritos, com as traduções e comentários de Sri Chinmoy traduzidos ao português por mim.

* * *

Prehi, abhihi, dhrishnuhi.

Go forward, fear not, fight.

Siga em frente, não tema, lute.

*

Tad ejati tan naijati tad dure tad vad antike …..

That moves, and That moves not. That is far, and the same is near. That is within all this; That is also without all this.

Aquilo Se move e não Se move. Aquilo é longínquo e Aquilo é próximo. Aquilo está dentro disto tudo e Aquilo está fora disto tudo.

*

Tat twam asi.

That thou art.

Aquilo tu és.

Nayam atma bala-hinena labhya.

This soul cannot be won by the weakling.

A alma não pode ser conquistada pelo fraco.

*

Satyam eva jayate.

Truth alone triumphs.

Somente a Verdade triunfa.

Commentário

A Verdade é a Coroa de Deus oferecida a Deus por Ele mesmo. Verdade realizada, Deus para sempre conquistado.

*

Hiranmayena patrena satyasyapihitam mukham;
Tat tvam, pusan, apavrnu, satya-dharmaya drstaye.

The Face of Truth is covered with a brilliant golden orb. Remove it, O Sun, so that I who am devoted to the Truth may behold the Truth.

A Face da Verdade está coberta um uma esfera dourada brilhante. Remova-a, ó Sol, para que eu, que sou devoto à Verdade, possa enxergar a Verdade.

Comentário

A Face da Verdade nos desperta. O Olho da Verdade nos alimenta. O Coração da Verdade nos constrói.

*

Nalpe sukham asti bhumaiva sukham.

In the finite there is no happiness. The Infinite alone is happiness.

No finito não há felicidade. Apenas o Infinito é felicidade.

*

Ekamevadvitiyam.

Only the One, without a second.

O Uno sem igual.

*

Uru nastanve tan
Uru ksayaya naskrdhi
Uru no yandhi jivase

Give freedom for our bodies.
Give freedom for our dwelling.
Give freedom for our life.

Liberdade para nossos corpos.
Liberdade para nossa morada.
Liberdade para nossa vida.

*

Tejo joh si tejo mayi dhehi. . .

Thy fiery spirit I invoke.
Thy manly vigour I invoke.
Thy power and energy I invoke.
Thy battle fury I invoke.
Thy conquering mind I invoke.

Vosso espírito ardente eu invoco.
Vosso vigor viril eu invoco.
Vosso poder e energia eu invoco.
Vossa fúria da batalha eu invoco.
Vossa mente conquistadora eu invoco.

*

Pranavo dhanuh saro atma …

AUM is the bow and Atma, the Self, is the arrow; Brahman is the target.

AUM é o arco, e Atma, o Eu, é a flecha. Brahman é o alvo.

*

Charai veti, charai veti.

Move on, move on.

Siga em frente, siga em frente.

*

Aum bhur bhuvah svah
Tat savitur varenyam
Bhargo devasya dhimahi
Dhiyo yo nah pracodayat.

Meditamos na glória transcendental da Divindade Suprema, que está dentro do coração da terra, dentro da vida do céu e dentro da alma do paraíso. Que Ela estimule e ilumine nossas mentes.

Comentário

Iluminação é necessária. Aqui está a resposta. A iluminação transcendental transforma o animal em nós, liberta o humano em nós e manifesta o Divino em nós.

*

Anandadd hy eva khalv imani bhutani jayante,
Anandena jatani jivanti
Anandam prayantyabhisam visanti.

From Delight we came into existence.
In Delight we grow.
At the end of our journey’s close, into Delight we retire.

Do Deleite viemos,
No Deleite crescemos e,
Ao fim de nossa jornada, ao Deleite retornaremos.

Comentário

Deus escreveu uma carta aberta aos Seus filhos humanos. Sua carta diz: “Minhas mais doces crianças, vocês são o único deleite de Minha Existência universal.”

*

Yenaham namrta syam,
Kim aham tena kuryam

What shall I do with the things that cannot make me immortal?

O que farei com as coisas que não podem me fazer imortal?

Comentário

Deus é eternamente orgulhoso do homem porque ele incorpora a Imortalidade de Deus.