A meditação no controle da vida

Perdi o controle da minha vida, e agora?

por Juliana Francisco

 

Antes de começar a minha busca consciente por autoconhecimento e meditação, comecei a sentir que não tinha o controle da minha vida, que tudo que eu achava que tinha não era real. Exemplo: perdi amigos que achava que eram meus verdadeiros amigos; perdi familiares, que supostamente deveriam me amar do jeito que sou; perdi a motivação para prosseguir trabalhando na minha área de atuação, que por sua vez era uma das coisas que me definiam, pois vivi para construir a carreira que tinha; perdi os interesses comuns como compras, viagens, comidas, bebidas e festas, enfim, a impressão que tinha era de que nada estava dando certo. Toda a vida que sonhei, que construí, que me definia, parecia nunca ter existido ou mesmo que não me pertencia.

Esse sentimento de perda de controle da vida comum, foi muito difícil para mim. Eu costumava ser o tipo de pessoa que sabe de tudo, que tem controle sobre tudo, que aconselha as pessoas, pois sabe viver sua vida, e, de repente, tudo muda. Não sabia quem eu era, o que eu queria, qual era o sentido da vida e porque as coisas que tinha não me satisfaziam mais. O mais difícil foi não ter com quem compartilhar esse sentimento, mesmo em casa. Eu não queria mais nada da vida e “queria algo a mais”, não queria as coisas triviais, que no geral buscamos, como dinheiro, poder, fama, bens materiais e prazeres comuns. Isso não me satisfazia. E uma das coisas mais incompreendidas por mim é o fato de “não querer nada”, “não desejar nada”; eu sempre fui o tipo de pessoa que tem objetivos claros, metas e ação para alcançá-los. Então foi super assustador perceber que não queria nada e ao mesmo tempo ter de viver a vida comum, que todos vivem. Afinal, temos de pagar nossas contas. Mas depois fui percebendo, ao longo da minha busca por “algo mais”, o que estava acontecendo comigo.

Tem uma história, que Sri Chinmoy conta no livro “O Herói Divino” que diz assim:

Um bom homem e um homem mal eram vizinhos. Um dia, o homem mal disse, “Você tem que desenvolver qualidades artísticas. Você tem que ir a bons clubes e aprender sobre cultura, filosofia, espiritualidade a muitas outras coisas.” O homem estava hesitante. Ele disse, “Não, não. Para mim, é melhor eu ficar em casa e ler livros religiosos e espirituais”. O homem mal disse, “Ao menos venha ao meu clube uma vez e veja o que você gosta. Você está fadado a aprender algumas coisas que são necessárias na vida humana.” O bom homem concordou, e juntos foram ao clube. Eles leram em voz alta livros espirituais e religiosos e discutiram todo tipo de coisa. Depois da discussão, eles começaram a beber. Eles tiveram uma maravilhosa discussão cultural, religiosa, espiritual e filosófica e então começaram a beber!

Quando o bom homem voltou para a casa, sua esposa não pode acreditar no que viu. O que você fez? Eu não consigo te reconhecer!
Ele disse, “ Eu bebi vinho”;

Sua esposa ficou furiosa. “Como pode fazer isso?”, ela gritou.

O marido disse. “Meu amigo me disse que isso era bom. O Senhor Indra costumava beber néctar. Seu néctar e meu vinho são as mesmas coisas”.

A esposa estava extremamente irritada. “Não, não. Você não pode beber. Você não deve beber”!

O homem disse, “ok, eu te prometo não beber nunca mais”.

Ora, uma vez que você bebe, você é pego. Quando seu vizinho o convidou a ir ao clube novamente, o homem disse, “Minha esposa ficará furiosa. O que vou fazer?”

O amigo perguntou, “Me diga francamente, você gostou?”

“Sim, eu gostei, mas agora terei uma briga em casa. Terei uma guerra!”.

O vizinho disse, “Não, não, não, desta vez nada irá acontecer. Você apenas tem que vir comigo. Eu te asseguro que nada irá acontecer”.

O bom homem foi ao clube novamente. Ele aproveitou a discussão filosófica, espiritual e outros tipos de coisas. Quando, com seu amigo, ele voltou para casa, muito bêbado, sua esposa estava esperando. Ela disse, “Você prometeu não fazer isso”! Então ela falou que queria deixá-lo.

O bom homem disse, “Não, desta vez minha promessa será definitivamente sincera. E nunca, nunca mais irei lá novamente”!

A esposa disse, “Porque você está mentindo? Você disse da última vez que não iria lá novamente!” Ele replicou, “Mas mesmo o Senhor Indra disse muitas mentiras.” A sua esposa disse, “Você é outro Senhor Indra para dizer mentiras o quanto quiser?”

O marido disse, “Indra disse muitas, muitas mentiras e até mesmo roubou uma vaca. Eu nunca roubei nada, então Indra estava um passo à frente de mim. Indra era um ladrão, enquanto que eu sou apenas um mentiroso. Indra nos ensinou como dizer mentiras. Se Indra, o deus cósmico, pode dizer mentiras, o que há de errado em um ser humano dizer mentiras?”

No dia seguinte era feriado para o marido, então ele não foi trabalhar. Sua esposa era devotada a ele. Todo dia pela manhã, ela preparava o café da manhã, depois o almoço e a janta. Geralmente ela preparava o café da manhã por volta das 8h, mas era 11h e ainda a sua esposa não havia feito o café da manhã. O que ela está fazendo? Ela está costurando uma peça de roupa para ela? Finalmente ele pediu para seu filho dizer para sua mãe que estava ficando tarde e ele estava extremamente faminto.

A mãe disse ao seu filho, “Por favor, por favor, meu filho, meu querido, não se envolva na nossa briga – apenas observe e aproveite o que está acontecendo.”

Seu filho disse, “Eu não quero me envolver nesta briga Mãe. Por favor, cuide disso.”

Em breve era 13h, então 14h. Ainda a esposa não havia dado nenhuma comida ao marido. Ele estava ficando furioso e finalmente disse,

“Que tipo de esposa é você?”

Sua esposa disse, “Desde que você se tornou outro Indra, eu sou definitivamente Sachi, esposa de Indra. Quem pode dizer que Sachi já cozinhou? Ela tinha muitos, muitos empregados e cozinheiros para ela. Eu sou a Sachi agora, então eu não preciso cozinhar nunca mais. Deixe-os cozinharem e te servirem, porque de agora em diante, eu farei o que eu quiser fazer; sou uma rainha. Indra era um rei e reis possuem todo tipo de cozinheiros a empregados. Eu sou uma rainha, então farei o que eu gostar. Eu não vou cozinhar para você nunca mais.”

O homem estava tão triste e perturbado em ouvir as palavras da esposa. Ele disse, “Eu nunca, nunca mais irei com meu amigo ao clube.

Eu permanecerei devotado e fiel a você. Está é minha absoluta e solene promessa.”

O filho deles estava muito feliz que seus pais se reconciliaram. Daquele dia em diante, a esposa cozinhou e fez tudo para seu marido, como sempre, e seu marido manteve sua promessa. Ele não foi mais ao clube com seu amigo. Isso foi como a esposa ensinou uma lição ao marido.

Quando encontrei o curso de meditação aqui em SP, comecei a praticar a meditação diariamente, ao menos duas vezes ao dia, a ler livros espirituais e me autoconhecer. Então percebi que Deus, é maravilhoso, mas o problema é que ele as vezes se esconde, ele brinca conosco, faz como a “esposa” fez com o “marido”, até que a gente perceba que tem algo errado, sinta a “fome” por algo mais e cumpra a nossa promessa.

Eu sinto isso, eu acabei aproveitando as coisas da vida, foi bom até certo ponto, fazia por que todos fazem, como o “marido” fez, foi bom, mas depois, quando Deus se escondeu, eu percebi que queria o que era realmente importante para mim. E só percebi isso, quando Deus, “a esposa” se fez ausente. Quando a “fome” apareceu.

Sri Chinmoy diz que cada alma faz uma promessa a Deus antes de vir a terra. Quando nos mantemos no caminho que prometemos, nos sentimos satisfeitos, felizes, com um sentimento de que “estamos no caminho”. É assim que me sinto agora. No caminho. Sei que a caminhada será longa, mas não estou só. A vida voltou a estar no meu controle, mas porque sei que não tenho o controle sobre ela. Nunca tive o controle, percebo que Deus, o Arquiteto, Alá, Vácuo quântico ou qualquer nome que você queira dar para esta força que rege tudo, sempre esteve no controle de tudo, mas eu estava seguindo um caminho diferente daquele que me comprometi. Para algumas pessoas é assim, e vejo hoje, conversando com meus colegas de meditação que é isso mesmo. Para algumas pessoas, há satisfação em viver o ciclo de vida comum, como fazer a faculdade, casar, ter filhos, bens materiais e morrer, mas para outras, como eu e meus amigos da meditação, não. Precisamos de algo a mais para nos sentirmos felizes e satisfeitos.

 

Deus está mantendo Sua Promessa.
Ele está segurando você
Cuidadosamente e firmemente
E te impedindo de balançar.
Talvez você, também,
Fez uma promessa solene a Deus.
Talvez!

-Sri Chinmoy

Meditação no trabalho – efeitos e experiências no ambiente de trabalho

Pergunta: Qual é a melhor forma de ficar numa consciência divina enquanto estamos trabalhando duro?

Sri Chinmoy: A melhor forma de permanecer numa consciência divina é parar o que está fazendo por três minutos a cada hora. A cada hora fique sozinho por três minutos. Ao final de cada hora, não importa o que esteja acontecendo, fique sozinho e medite por três minutos. Esses três minutos terão um poder tremendo. Se puder meditar por três minutos e obtiver paz, luz e confiança, manterá essas qualidades por uma hora facilmente. Você pode estar numa sala ou na rua, mas ninguém deve estar com você ou perto de você quando meditar. Essa é a melhor maneira de permanecer numa consciência divina enquanto trabalhar.

Nas últimas três semanas em particular, meu trabalho tem sido muito, muito, incrivelmente cansativo. Mas hoje tive uma experiência incomum.

Uma das minhas chefes chegou junto comigo no trabalho, e logo veio me dizer: “Hoje eu sonhei com você. Você estava indo para um lugar muito importante. Aí fiquei curiosa, queria saber se estava tudo bem?” Ela até disse que, depois do sonho, ficou inspirada a ler um pouco mais sobre o meu Mestre, Sri Chinmoy.

Eu contei para ela que estava indo no dia seguinte para Nova Iorque para visitar o meu Mestre espiritual. Isso é algo muito importante, e, além das experiências interiores e exteriores, inspiração e purificação que acontece nessas viagens, contei para ela que, ao sentar no avião na viagem de volta, sinto-me uma pessoa completamente diferente daquela que sentou-se no avião na viagem de ida. É como se uma vida inteira tivesse passado. Acho que é uma medida subjetiva do progresso que fiz durante a viagem. É uma viagem muito importante, exatamente como o sonho dela a descreveu.

Não preciso dizer que ela ficou impressionada com a “coincidência” de eu estar viajando para NY 36h depois do sonho.
Foi de fato muito interessante uma colega de trabalho, com quem não costumo conversar todos os dias, ter uma experiência dessas.
Eu nunca fiz nada extraordinário de forma consciente pelos meus colegas, exceto as coisas normais do dia a dia. Tentar ser educado, sincero, etc. Eu medito de manhã cedo todos os dias faz 16 anos e também medito por alguns minutos antes de começar o meu trabalho.
Mas acho que, sem eu ter qualquer intenção, sem eu ter qualquer capacidade de fazer algo por alguém, algo que recebo durante a minha meditação os meus colegas o recebem em algum grau. Num exemplo análogo, se você começa a trabalhar numa firma X, talvez desenvolva interesse em aprender sobre X. Se seus colegas de trabalho na firma Y gostam de fazer Y nas horas vagas, talvez você comece a sentir vontade de fazer Y. Igualmente, acho que um pouquinho do que eu recebo, (por uma graça incondicional, preciso dizer), é compartilhado com as pessoas ao meu redor.

A experiência de hoje é uma de muitas que tive nos meus 15 anos de trabalho. Em todo lugar que trabalhei, a cada ano que passa, a cada novo prédio para onde vou, a cada seção nova onde sou lotado, acontece alguma coisa assim, que me deixa inspirado e, ao mesmo tempo, traz um sentimento de humildade, de gratidão por poder presenciar essas coisas, já que eu mesmo não fiz nada.
Sinto que estou cumprindo o meu dever: ao mesmo tempo como buscador espiritual, como alma aspirante e como um funcionário simples, mas sincero.

Acho que é uma das coisas bonitas do caminho de Sri Chinmoy. Ele pede que seus alunos tenham trabalhos normais. Ou seja, para nós, não há aquela opção tradicional de deixar a família, meditar na caverna ou num mosteiro ou na floresta. Sinto que, como discípulos desse Mestre, parte do nosso dever é interagir com sabedoria prática e uma normalidade espontânea, sincera, de um buscador espiritual vivendo num mundo moderno e repleto de oportunidades e novas possibilidades florescendo a cada dia.

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Contando suas experiências interiores de meditação para os outros

Você pode explicar o valor de tentar contar aos outros suas experiências interiores?

Sri Chinmoy: Alguns Mestres aconselham seus discípulos a compartilharem suas experiências apenas com eles. Na maioria das vezes não é aconselhável compartilhar as experiências interiores de alguém com outros. Suponha que você tenha tido uma muito elevada esublime experiência.Mesmo se você contá-la a seu amigo mais íntimo, o ciúme dele poderá tentar devorar a riqueza, a realidade viva da sua experiência. Ocorre algumas vezes que ao dividir suas experiências com um iniciante, este irá tentar ter a mesma experiência de qualquer jeito.Na vida espiritual isso nunca acontece. O progresso espiritual é um processo lento, constante e gradual. Por você ter provado uma manga e me contado, eu poderei talvez subir na mangueira.Mas se não souber como subir, ao tentar eu cairei e irei me machucar. Outra coisa: se você contar suas experiências interiores para outros, o orgulho humano deles poderá entrar em você.

Experiências interiores somente devem ser compartilhadas com a permissão do Mestre.

Se a pessoa não tem um Mestre,deve então mergulhar dentro de si profundamente e ouvir os ditames da sua alma. Se a alma ou o Mestre pedir a um ao buscador que compartilhe suas experiências com o resto do mundo, não haverá problema então. Pode ocorrer nesse caso que se a pessoa contar suas experiências, seus amigos fiquem inspirados a entrar no mundo de aspiração. Porém é sempre aconselhável perguntar ao Mestre ou ir fundo dentro de si, para saber quando se deve compartilhar suas experiências. De outra forma isso poderá criar resultados imprevistos e deploráveis para o próprio buscador ou para os outros com quem ele tenta compartilhar suas próprias experiências.

Quando estamos no mundo exterior, estamos livre e desimpedidos para falar de nossa vida espiritual ou devemos reservar isso só para os que aspiram?

Sri Chinmoy: Se você falar sobre suas experiências, poderá ficar em apuros.O solo tem que estar fértil. Se as pessoas são genuínas e sinceras, então sua conversa será frutífera. Do contrário, eles terão todo o direito de não compreendê-lo e ridicularizá-lo.Você pode não se importar se alguém zomba de você, porém a pessoa que não se beneficiou ou não se inspirou com o que você disse, infelizmente poderá tentar bloquear sua própria inspiração e aspiração. Nós devemos então usar nossa sabedoria que ele também é uma criança de Deus; deixe o momento do seu despertar chegar na Hora escolhida por Deus.Não é da sua conta acordá-lo. Quando alguém está pronto, clamando por uma vida mais elevada, aí então é a hora de você acordá-lo do sono que é a ignorância.

Se você der uma nota de mil dólares para uma criança, ela a rasgará. Para ela a nota não tem valor. Porém um adulto saberá o valor dos mil dólares. Similarmente quando você compartilha suas experiências interiores com um aspirante ou buscador, ele irá se beneficiar com isso. Ele sabe quão difícil é ter uma experiência interior. Aqueles que clamam pela vida interior, são as pessoas certas para compartilhar suas experiências.

Sou um novato na vida espiritual e sinto uma urgência incontrolável de compartilhar as minhas experiências espirituais com todo mundo que eu encontro. É verdade que isso não é algo desejável?

Sri Chinmoy: Se você estiver interiormente inspirado para compartilhar suas experiências com uma determinada pessoa, isso será maravilhoso. Se seu Piloto Interior disser: ”Faça isto!” então faça, mesmo que o mundo inteiro rejeite a sua verdade. Contudo, se Deus não o inspirar, se o Piloto Interior não aprovar, então o que acontecerá? Você apenas se vangloriará com todos, das experiências que teve. Alguns irão zombar de você, arruinando toda a sua alegria e inspiração, alguns irão duvidar de você, fazendo você duvidar de si mesmo e alguns irão ter inveja de você e irão esfaqueá-lo internamente com todo o poder-pensamento não divino deles. Assim, suas experiências desaparecerão, sua aspiração decairá e você perderá toda a sua alegria e inspiração.

Quando você obtém inspiração para ajudar ou inspirara pessoas de algum modo, tem que saber se a mensagem que você quer oferecer para o mundo, foi aprovada por Deus ou ordenada por Deus. Se sentir que Deus pediu para você dividir suas experiências com alguém em particular, então o faça. Se a pessoa aceitá-las ou não, isso não terá importância.

Mesmo que sua experiência for absolutamente real, há algo chamado tempo que é um fator muito importante.Se o que você quiser oferecer for inoportuno, isso irá criar mais desarmonia do que harmonia no mundo. Se você der umaaula de universidade para uma criança que esteja no jardim-de-infância, somente irá confundí-la e massacrá-la. Similarmente, se oferecer sua realização interior para alguém que não estiver pronto, irá apenas destruir a pequena possibilidade que ele tiver. E se você mesmo não for espiritualmente forte, a outra pessoa poderá destruir a pequena capacidade que você tiver. Porém se deus pedir a você para ajudar outros, isso significa que ele já deu a você a capacidade deu aos outros a receptividade necessária.

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Como interpretar as suas experiências durante a meditação

O campo das experiências interiores é vasto e, para a mente, inconcebível, pois elas acontecem num plano muito mais profundo e real do que a mente – o coração, ou mesmo na alma.

Um buscador pode ter experiências mentais ou emocionais e considerar que são espirituais; ou pode ter experiências espirituais e considerar elas apenas coisas superficiais. Há um perigo em errar no seu julgamento em ambos os casos. Apenas um Mestre espiritual verdadeiro pode dizer a um buscador se as suas experiências são reais e espirituais ou se são fruto da sua imaginação ou emoção.
Traduzimos aqui algumas interpretações de experiências de meditação feitas por Sri Chinmoy, em geral verdadeiras. Esperamos que sirvam de inspiração ou esclarecimento.

Uma regra geral é que as experiências interiores são sublimes, sutis, energizantes e delicadas – no entanto, você sente uma paz sólida e repara que a sua vida muda rapidamente. As experiências “inventadas” ou “emocionais” costumam ser manifestações de desejos conscientes ou subconscientes, e instigam-nos a buscar reconhecimento, repetição da experiência, etc.

Em geral, há uma outra recomendação, de Sri Chinmoy, que pode sempre servir-nos. Quando tiver uma experiência, apenas procure ficar em silêncio, sem julgar, sem reagir. Deixe os dias passarem. O que importa é o que está mais dentro de nós. Se a experiência ocorreu lá, isso basta; você não precisa saber o significado. Se foi superficial, não dar atenção desnecessária também o protegerá de iludir-se.

Você pode ler sobre mais algumas experiências e como lidar com elas no livro impresso Meditação.

 

Perguntas, respostas e interpretações das experiências que temos durante a meditação

A experiência divina é alcançada através da meditação?

Sri Chinmoy: Através da meditação certamente teremos experiências divinas. A meditação é o meio. Meditando, certamente haverá experiências divinas. Sem meditar, haverá apenas experiências humanas, comuns. A meditação é a única resposta. A meditação é a chave para adentrar o mundo divino.

 

Na meditação profunda, às vezes sinto o meu corpo inteiro ficando dormente, como se fosse anestesiado. Só consigo mexer os olhos.

Sri Chinmoy: Essa é uma experiência muito boa, a experiência do silêncio. A mente se rendeu completamente ao coração durante a sua meditação. O coração leva a mente consigo, e ambas se entregam à alma. Então você tem o sentimento de silêncio estático. Tente permanecer nesse silêncio; não o tema. Você pode ficar nele por alguns dias ou mesmo um mês sem medo. Esse silêncio se tornará silêncio dinâmico. Você sentirá que no silêncio há uma criatividade espontânea, um movimento espontâneo, uma vida espontânea – a vida do despertar espiritual, experiência espiritual e revelação espiritual.

 

As pequenas experiências esporádicas que temos durante a meditação são partes da realização, ou são pequenos passos para a realização?

Sri Chinmoy: De uma certa forma, cada experiência o leva para a realização; cada experiência é um passo em direção à realização. Mas se, ao invés de andar devagar, pudermos correr muito rápido, não precisaremos de milhares ou milhões de experiências antes de realizar Deus. Cada experiência certamente nos auxilia; elas nos trazem confiança, alegria. Alguém pode dizer que quer comer uma manga hoje, uma laranja amanhã e outra fruta depois de amanhã. Antes de ele obter a fruta que considera a sua meta, terá várias pequenas sensações da fruta. Mas apenas quando comer a fruta que é a sua meta é que ele terá a satisfação plena. Se alguém é absolutamente sincero em dizer que não quer nada senão realização, essa pessoa dirá: “Não quero outra fruta. Quero apenas a fruta que é para mim, a fruta que é a minha meta, a fruta que me oferecerá a completa satisfação.

 

Quando medito, às vezes tenho a sensação de que estou olhando para todo lado. O que isso significa?

Sri Chinmoy: Quando medita, você está mesmo olhando para todo lado. A sua consciência está expandida. Você não é uma só pessoa dentre muitas na Terra; você sente que o mundo inteiro pertence a você e que você pertence ao mundo. O mundo pode considerar você como parte dele. Neste exato momento você não consegue reivindicar o mundo como parte de si. O seu irmão, irmã, o resto da sua família – eles são seus, mas é só. No entanto, quando sente que está enxergando tudo a seu redor durante a meditação, tudo é seu, todos são seus. Interiormente, tudo faz parte de si, e tudo que está ao redor você pode considerar parte de si. É uma ótima experiência.

 

Como posso ter uma experiência transcendental na minha meditação?

Sri Chinmoy: Se quer ter experiências transcendentais, precisará de uma meditação especial além de disciplina interior. Simplesmente fazendo algo intensamente não necessariamente alcançará o que procura. Digamos que cave num lugar onde não tem água. Você pode cavar e cavar, mas, se não houver água, de que adiantará? No entanto, ao cavar num lugar adequado onde há água, você a encontrará. Se tiver a meditação correta, a orientação correta e a auto-disciplina correta, certamente terá a experiência transcendental.

 

Durante a meditação, certa vez tive a experiência de que não estava dentro nem fora. Não havia solidez, nada concreto, objetivo ou real. Eu não sabia onde estava ou o que estava acontecendo.

Sri Chinmoy: Essa é uma boa experiência. Você não estava dentro nem fora. Onde estava então? Quando não está dentro, quer dizer que não está na sua realidade mais elevada. Quando não está fora, quer dizer que não está na sua energia que flui para o exterior. O interior leva a mensagem da pureza, e o exterior traz a mensagem da beleza. Você não entrou nas profundezas maiores, onde a pureza está grandemente presente, e também não entrou nas profundezas externas, onde a beleza se manifesta. Quando o interior se torna pureza, o exterior se torna beleza. É uma forma de vivenciar a verdade. Outra forma de vivenciar essa verdade é sentir que está num lugar segurando o mundo exterior de imperfeição e o mundo interior de perfeição. Você é a ponte entre a sua vida entre o mundo interior e exterior, onde não é nem o mundo interior e nem o mundo exterior. Você está trazendo o mundo interior para o mundo exterior para que possa se manifestar e está levando o mundo exterior para o mundo interior para que possa se realizar.

 

Ocasionalmente, vejo um pequeno lampejo, uma luzinha que vai até os seus olhos e viaja a todo o redor. Às vezes, ela viaja num padrão definido e eu a vejo enquanto estou meditando na sua foto. O que isso significa?

Sri Chinmoy: O significado espiritual eu posso dar, e se não o satisfizer, então você pode ir ao médico e ver se a sua vista está em ordem. Mas eu gostaria de lhe dizer que a luz que você vê é uma luz interior, e você a está vendo com a sua visão interior. Está vendo uma luz sutil ao redor das minhas sobrancelhas ou dos meus olhos, que pertencem ao físico em mim. Isso indica que a sua visão interior aceitou o físico e também está encorajando o físico. Ao ver a luz circulando em volta do meu olho, você precisa saber que a minha parte física se tornou uma com a sua aspiração. Eu incorporo a aspiração do físico em você e em todos os discípulos. Enquanto aspira, você vê o físico em mim assim como o espiritual em mim. Os dois não podem ser separados. A luz é o espiritual em mim e os olhos são o físico. Portanto, a sua aspiração, o seu clamor interior agora mesmo está clamando para ser apoiado ou encorajado ou satisfeito pelo espiritual.

Ao pensar em si mesma, pense que no físico está o seu clamor interior, a sua aspiração e a sua dedicação. Essa aspiração e essa dedicação não serão à toa. Serão coroadas com o sucesso. Serão premiadas pelo físico e pelo espiritual. O físico dentro de você está aspirando e a realidade de cima, do profundo interior, virá e premiará a aspiração do físico.

Portanto, a luz que você vê é a luz do Além. Quando você a vê circulando em volta do olho, significa que o espiritual está encorajando o físico para elevá-lo, transformá-lo e satisfazer a mensagem da realidade mais elevada O físico está aspirando e uma resposta está vindo da realidade e da divindade além do físico. Experiência muito boa, maravilhosa!

 

Se nós, discípulos seus, temos dúvidas quanto ao decorrer de uma ação e não sabemos qual é a vontade do senhor, como podemos decidir o que fazer? Meditar na foto do senhor vai solucionar a questão?

Sri Chinmoy: Vocês podem meditar na minha foto. Durante a meditação, conseguirão a resposta ou não. Não há uma regra predeterminada. Mas se conseguirem um tipo de alegria interior com uma resposta, então será a resposta correta. Se não há alegria, então a resposta não está vindo da foto. Está vindo da mente.

Há outra coisa importante que gostaria de dizer. Sempre que tiverem sonhos ou visões, por favor, não tentem interpretá-los ou pedir a outras pessoas que os interpretem, pois vocês vão cometer um erro terrível. Se vocês tiverem uma visão ou uma experiência interior, mergulhem profundamente em seus interiores e descubram o significado ou me perguntem sobre o significado. Se tiverem uma experiência maravilhosa, escrevam para mim. Posso não responder exteriormente ou dar uma mensagem interior específica, mas vou abençoá-los e apreciarei suas experiências. Se tiverem uma experiência realmente divina, meu ser interior saberá imediatamente.

 

Venho tendo experiências telepáticas com pessoas que se chamam de mágicos. Converso com eles enquanto estão em outros lugares. Posso entrar nesse reino quando quiser. Estou curioso em saber como você responderia a essas experiências.  

Sri Chinmoy: Do mais elevado ponto de vista espiritual eu gostaria de responder à sua questão. Essas experiências o ajudarão a ir mais rápido em direção à sua meta? Não, não ajudarão. Essas experiências são fascinantes, indubitavelmente, mas nunca o levarão à realidade. Pelo contrário: elas são tentações noseu caminho para a realização em Deus, a elevadíssima Verdade. Em nossa vida espiritual, muitas vezes temos experiências fascinantes e não queremos mais aspirar. É verdade que essas experiências podem nos incentivar, mas muitas vezes, quando temos experiências demais, entramos no mundo vital. Vemos um caleidoscópio: vemos todos os tipos de coisas belas, mas elas são só tentações. Suponha que você esteja andando por uma rua em direção a um lugar específico. Se vê árvores, flores e lagos bonitos pela rua, o que acontece? O cenário é tão bonito que você acaba descansando. Você diz: “Deixe-me ficar aqui e apreciar isso,” e então para e aprecia a paisagem. Mas o seu destino permanece uma meta distante.

Um buscador sincero sabe que a meta dele é a Verdade mais elevada. Ele não adiará a jornada. Mas, no seu caso, posso ver que você aprecia essas experiências; você dá a elas a sua atenção consciente. Isso é muito errado. Na vida espiritual, aspiramos pela mais alta Verdade, por Deus, e por nada mais. Essas experiências são verdadeiras tentações para você. Você deveria sentir: “Tendo realizado Deus, terei experiências infinitamente mais belas, significantes e frutíferas”. Com essa idéia, você deveria deixar de lado essas experiências telepáticas. Se sente que entrando nessas experiências ou permitindo que elas entrem em você, acalentando-as, conseguirá experiências mais elevadas, está enganado. Você não irá nem um pouco mais adiante. Se insistir nelas a toda hora, se estiver constantemente fascinado por elas e sentir que é parte delas, será pego por essas experiências. Muitas pessoas cometeram esse engano, e para elas a realização em Deus permaneceu uma meta distante.

Buscadores sinceros tomam essas experiências como obstruções no caminho. Por favor, não dê atenção a esses tipos de experiências. Elas são fascinantes, mas não estão satisfazendo a sua vida de dedicação, realização e manifestação. De manhã cedo, tente silenciar a sua mente. Se conseguir silenciar a sua mente, não terá essas experiências. Elas estão vindo do mundo vital até você. Você está acalentando essas criações do mundo vital e tentando colocá-las à sua disposição, como se fossem muito suas. Mas elas não podem levá-lo à Meta mais elevada. Se a sua intenção é o Altíssimo, então essas coisas têm de ser descartadas. Quero que você vá até alguém que o inspire a entrar no reino da pura aspiração. Você será capaz de trazer à tona a luz da sua alma e correr o mais rápido possível em direção à Meta mais elevada.

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Meditação e o esforço pessoal (ou “A Disciplina e a Graça”)

Nesta semana voltei de viagem de Nova Iorque, onde meu Mestre viveu fisicamente até 2007. Foi um encontro internacional com meus amigos e colegas, e com o Mestre, interiormente. Pude compartilhar um certo tempo com meus amigos que correram as 3100 milhas, meditar, cantar diversas canções espirituais várias horas por dia, correr uma maratona e uma ultramaratona, e meditar (e mais).

Ao ir para o aeroporto para voltar para o Brasil depois de doze dias lá, eu estava no táxi e não me sentia particularmente sublime. Normalmente (acontece todos os anos) eu sentiria algo incrível, uma mudança drástica de perspectiva se comparado com antes da viagem a NY, por conta do progresso e das meditações que temos durante o período do encontro. Tudo sempre parece mais belo, e luminoso, e tranquilo, e perfeito, e preenchedor. Mas desta vez conseguia perceber claramente que eu parecia muito pouco diferente da pessoa que tinha saído de casa para vir para NY. Eu havia feito algumas meditações extras, ainda que curtas, enquanto havia poucas pessoas no nosso jardim de meditação (eu até prefiro assim, vazio, durante o por do sol, etc.). Mas parecia que não tive a disciplina, profundidade, dedicação ou alguma coisa que fizesse com que a “mágica” acontecesse.

No entanto, cheguei em casa no Brasil, descansei uma hora e fui para o trabalho. Estava bem cansado pelas atividades (nunca tirei férias para descansar) e ainda teve o voo noturno. Mas estava feliz. Tudo parecia mais belo, e luminoso, e tranquilo, e perfeito, e preenchedor. (É a mesma frase que usei mais acima no texto, que faltava). Hoje já faz três dias que voltei, e estou sentindo ainda mais isso.

Cheguei a uma conclusão. Mesmo que eu não consiga meditar direito, mesmo que não consiga tomar as melhores decisões ou manter minha mente ou coração na vibração certa, o meu Mestre não é limitado por isso. Ele faz o que ele tem de fazer e ponto final. Ele não é limitado pela minha falta de intensidade ou receptividade – se ele faz algo, aquilo está feito.

No final das contas, percebi que todo o progresso que sempre fiz veio sempre pela Graça incondicional dele. Que é algo natural, pois eu realmente sinto que não tenho elevadas capacidades. Acho que o melhor papel que eu poderia cumprir seria de simples e completa gratidão.

“Graças a Deus”

Tem algo interessante para completar essa história, mas que aconteceu antes de tudo. Umas semanas atrás tive de ir ao dentista porque estava com muita dor. Quando cheguei no consultório, perguntei à secretária casualmente: “Olá, tudo bem?” Ela respondeu: “Tudo bem, Graças a Deus.”

Bem, parece algo corriqueiro, cotidiano – mas me fisgou profundamente: sim, realmente tudo é “Graças a Deus.” Saí do âmbito cotidiano da frase e realmente senti um fragmento da realidade absoluta dessa afirmação.

E agora, com mais essa experiência, tudo fica ainda mais belo, e luminoso, e tranquilo, e perfeito, e preenchedor.