Correr é uma forma de meditação

por Thamara Paiva

Correr é uma forma de meditação. Quando você está correndo, é só você com seu piloto interior. É seu piloto interior com Deus. É uma profunda entrega a você mesmo, e quanto mais você corre mais forte você fica – tanto fisicamente como interiormente.

A corrida é algo que nos leva pra outro lugar. A gente sente uma felicidade tão genuína que muitas vezes é difícil tentar explicar para outras pessoas. Só quem corre sabe, é preciso correr pra entender. Depois que eu comecei a meditar eu passei a entender melhor o que acontece.

Corrida e meditação são duas ações que estão profundamente relacionadas. Quando comecei a fazer o curso de meditação no centro Sri Chinmoy em Dublin aprendi na prática o significado de que correr é uma forma de meditação.

Eu estava em fase de treinamento para minha primeira maratona. Era o sonho da minha vida de corredora, e eu ia realizá-lo naquele ano. Eu era extremamente dedicada aos treinos, seguia minha planilha sem faltar nenhum dia. Podia estar chovendo, podia estar um friiiio de congelar, naquela capital cinza e gelada que é Dublin, que eu ia, sem desculpa e muito feliz. Cada dia era um novo passo que estava me levando ao meu sonho.

Nos primeiros dias de curso eu achava curioso – quando os alunos de Sri Chinmoy perguntavam como estava nossa meditação diária ao chegar na minha vez uma das meninas já logo falava: “Ah! Você nem conta, você corre todos os dias!”. E eu corria mesmo, mas além de correr eu também meditava. No início eu não entendia muito bem porque ela falava aquilo… eu ainda não tinha feito a associação profunda da corrida com a meditação.

Talvez porque eu estivesse tentando pensar racionalmente. Não dá para pensar apenas: meditação, antes ou depois da corrida? Meditação não é alongamento. Você medita antes, durante e depois da corrida.

E foi só depois de alguns meses de prática diária de meditação e uma entrega profunda aos ensinamentos de Sri Chinmoy que eu pude realmente sentir o que ela quis dizer quando falou que correr é uma forma de meditação.

O efeitos dos exercícios de meditação durante a corrida

A primeira prova que fiz na Irlanda foi em Dingle. Uma meia maratona em uma paisagem simplesmente deslumbrante. Eu sonhava há meses com essa meia maratona. Ela acontece numa estrada que é um dos cartões postais da Irlanda. O único dia do ano em que ela é fechada pra carros é no dia dessa prova. Só atletas correndo por aquele cenário que é um quadro divino. Era mesmo um sonho.

Eu não conhecia ninguém que estava fazendo a prova. Foi uma das viagens que eu adoro fazer com minha única companhia: Deus, e o desafio de me conhecer ainda mais.

O percurso da prova tinha algumas boas subidas e eu fui fazê-la apenas com uma certeza: aproveitar cada instante daquela oportunidade. E nem nos meus mais lindos sonhos poderia ter tido a criatividade de imaginar tudo que Deus me proporcionou naquele dia.

Enquanto eu corria percebi que estava fazendo um dos exercícios de meditação que eu tinha aprendido em um livro de Sri Chinmoy.

Comecei a olhar para a vastidão do céu e imaginava que eu era o céu, que eu fazia parte dele. Depois eu olhava toda a natureza à minha volta e sentia que eu também era cada uma das árvores, das folhas, do verde. Depois o percurso me levou até aquele oceano lindo e azul que passava do meu lado esquerdo. E eu sentia que eu me tornava uma com o oceano. Quanto mais eu imaginava que eu era cada um desses elementos, eu me tornava um com eles, eu ficava mais forte.

Em alguns momentos eu não sentia que estava correndo, eu estava voando, leve como um pássaro. E comecei a imaginar então que não era eu quem estava correndo. Quem corria era a minha alma e alma não sente dor, alma não cansa… a alma simplesmente voa. Voa de uma forma sublime. Então, Deus começou a correr por mim. E cada vez que eu mergulhava nisso tudo eu sentia mesmo meu corpo desaparecer. Não tinha dor. Nem mesmo nas subidas. Era uma sensação de leveza e aquela felicidade que já tomava conta de mim sempre que eu corria ficava ainda maior, ela tomava conta de todo o meu ser.

Eu corri praticamente sem olhar o tempo no relógio. Eu me entreguei ao melhor que eu poderia ser, à minha força interior, à Deus. E quando vi eu tinha feito meu melhor tempo em meia maratona da vida. Com vontade e pernas para correr ainda alguns outros quilômetros. Foi inesquecível. Foi maravilhoso. E para os meus treinos de maratona foi ainda mais inspirador. Lembro que no dia seguinte eu cheguei em Dublin e corri outros 21km pela cidade. Aquela felicidade ainda tomava conta de mim.

Meditação diária e treinos para maratona

Os treinos para a maratona estavam apenas começando. Estavam por vir aqueles dias mais cansativos. Assim como nem todo dia ganhamos ótimas meditações, na corrida também é igual: nem sempre a gente tem um ótimo dia de treino. Até para quem ama correr, alguns dias são difíceis de conciliar no trabalho, na família, ou até mesmo pela (falta de) motivação.

E foi num desses dias difíceis que eu recebi mais um presente da meditação na minha corrida.

Eu trabalhava em Dublin em uma lanchonete, geralmente minha escala era nos finais de semana, mas alguns dias me pediam para ir durante a semana também. Como eu precisava muito daquele dinheiro, eu aceitava. Mesmo sabendo que isso poderia comprometer minhas aulas na escola e meu treino para a maratona – já que meus treinos eram sempre de manhã.

Fui escalada pra abrir a lanchonete, entrei às 6h e (para a minha não sorte) acabei tendo que fechar também e ficar até 16h30. O trabalho era em pé, andando de um lado pro outro. Talvez eu tenha sentado uns 30 minutos para almoçar, e só. Era início da semana e meu corpo ainda estava sentindo o trabalho do fim de semana.

Por coincidência, era o mesmo dia do curso de meditação e eu ainda tinha um treino de tiro para fazer (10km). Comecei a fazer as contas: sempre que eu ia correr 10km eu separava 1h, mesmo que precisasse de menos. O curso ia terminar às 21h e depois disso eu ia treinar, ia chegar em casa umas 23h para acordar cedinho no dia seguinte. Não estava disposta a perder nem a meditação nem o treino. Para otimizar o tempo eu fui para o curso de meditação com a roupa de treino para começar a correr de lá mesmo.

Naquele dia a minha mente estava cansada. Além disso, aquele trabalho baixava muito as minhas energias. Mas meu corpo estava pedindo para correr.

Nesse dia eu recebi mais um presente porque a minha meditação foi tão boa que dela eu tirei uma força que eu nem sabia que tinha. O treino foi um dos melhores que eu tinha feito nas últimas semanas. Depois que eu vi a minha velocidade no relógio e a média da velocidade do treino eu fiquei assustada comigo mesma e no quão rápido eu podia correr. Eu só agradeci, agradeci e agradeci por toda aquela graça que eu estava recebendo.

Se eu tivesse deixado espaço para a minha mente ganhar voz das duas uma: ou eu não teria ido na meditação ou eu não teria feito o treino. Depois de fazer tudo que fiz, se fosse pensar muito naquilo que ainda tinha que fazer e no amanhã, minha mente teria desculpas suficientes para me fazer desistir de algum deles. Porque tudo isso pode ser demais pra uma mente que pensa apenas no mundo exterior.

Eu fui pra casa depois do treino explodindo de alegria e de gratidão no coração. Eu vi que realmente o nosso limite está apenas na nossa mente. Muitas vezes nós não sabemos a força que temos, mas ela está lá no fundo do nosso coração, às vezes escondida… só querendo um espacinho para vir à tona. E a meditação te ajuda a encontrá-la, te ajuda a tirar todas as camadas que estão encobrindo-a. Cada uma no seu tempo. Mas hoje vejo que apenas com a meditação e com os ensinamentos de Sri Chinmoy eu consegui abrir meu coração para tudo isso.

Com Sri Chinmoy eu aprendi que a corrida interna é a mais importante, mas a corrida
externa ajuda nesse caminho espiritual e que cada vez que corremos mais rápido na corrida interior mais resultados vemos em nossa vida exterior. É só termos coragem para nos entregarmos.

O que a meditação me ensinou

 

Meu professor-curiosidade me ensinou

Por muito tempo.

Do que agora preciso dentro de mim

É um aluno-necessidade

E um professor-sinceridade.

-Sri Chinmoy

Sensação de oportunidade

Que a vida é inestimável: todo dia pode ser uma fonte de experiências e intenso progresso interior, contanto que estejamos despertos para elas e dispostos a nos disciplinar. O tempo é uma dádiva. A meditação é a coisa absolutamente mais satisfatória do meu dia. Prefiro dez vezes ficar sem comer a não meditar ao acordar. Primeiro o mais importante.

 

A minha meditação me ensinou

Como escapar

Da prisão-mente-desejo.

-Sri Chinmoy

Despertar interior

Que o mundo é lindo: tudo é repleto de beleza, e toda essa beleza é, por vezes, ofuscante. Não é a toa que não entendemos tudo – tem coisas que brilham tanto que ainda precisamos desviar os olhos. Mas chega o dia em que você está pronto e pode olhar para essas coisas de frente. Vale a pena o esforço e a paciência.

pássaro inscricao meditacao

O meu Mestre me ensinou

A arte da vida.

-Sri Chinmoy

 

Sentimento de unicidade

Que quase tudo é maior do que nós: na verdade, só esquecemos que fazemos parte de um todo. Com a sua meditação, você lentamente começa a viver mais no coração, e então se identificar com o todo, e enxergar todas as coisas como um plano maior, e muito perfeito.

O céu me ensinou,

Gentilmente,

A sonhar com Deus.

-Sri Chinmoy

Sabedoria prática

Que as diferenças estão na superfície: melhor lutar por crescimento interior do que por igualdade ou padronização. Todo mundo tem algo precioso dentro de si, e não vale a pena esquecer disso para tentar mudar o mundo. Os casos onde você precisa lutar também ficarão claros para você, na hora certa para você saber que estava certo.

Meu Senhor,

Eu me ensinei

A orar.

Você não me ensinaria

A meditar?

-Sri Chinmoy

 

Jeito de criança

Não tentar entender tudo é um ótimo jeito de entender as coisas. Tudo é mais claro do que parece; somos nós que complicamos tudo. O coração é o céu,  os pensamentos são nuvens que a encobrem. As coisas importantes são as mais simples. Coisas complicadas complicam a nossa vida.

Menos & Mais

Menos computador, menos telefone celular, menos internet, menos correria. Mais livros, mais esportes, mais silêncio, mais música sublime, mais serviço voluntário. Menos coisas que não preciso, mais coisas que são tesouros.

O diário de uma buscadora: uma vida de busca

por Thamara Paiva

Alguma vez você já parou para fazer uma reflexão sobre sua vida espiritual?

Há algum tempo me peguei pensando sobre a minha e vi que religião e espiritualidade sempre estiveram presentes nela, em algumas épocas mais ativamente, outras menos.

Posso dizer que eu tive a sorte de nascer em um lar no qual a religiosidade nunca me foi imposta. Meus pais nunca foram muito religiosos, embora meu avô materno tenha sido pastor de igreja evangélica e meu pai seja devoto de Nossa Senhora Aparecida. Essas foram minhas referências de espiritualidade na família.

Me sinto abençoada por isso, porque fui livre para escolher meu caminho desde criança. Eles sempre me deixaram ir para os cultos e cerimônias das mais diversas religiões. Lembro que quando era bem pequena um dia eu ia na Igreja Metodista com a amiga da minha irmã, no outro ia para escolinha espírita com uma amiga minha e em um outro dia eu ainda ia à catequese na Igreja Católica. Tudo numa mesma semana. Uma confusão danada para a cabeça de uma criança? Talvez não para a minha.

Buscando um caminho

Hoje vejo que já naquela época eu estava em busca do meu caminho, mesmo sem saber. Antes eu achava que estava indo só porque minhas amigas iam, pra ficar mais junto delas. Talvez naquela época a explicação fosse essa e fosse suficiente para uma criança de, sei lá, 8 anos. Hoje, com 30, sei perfeitamente que estava mesmo era querendo ficar mais próxima de Deus, o maior tempo possível.

Meus pais nunca me levaram à missa, mas eu contribuía com o dízimo, de um salário que eu nem tinha, porque eu achava que era importante. Por isso, eu era chamada de “beata” pela minha irmã. Cheguei até a crismar na Igreja Católica.

Mas naquela época eu já entendia mais sobre espiritualidade e a igreja não respondia todas as perguntas que eu tinha. Terminei os estudos para fechar o ciclo. Depois disso nunca mais voltei a frequentar a Igreja Católica, eu já não me sentia católica.

Se podemos chamar de uma transição, foi nessa época que comecei a descobrir a energia, comecei a entender sobre os outros planos. Eu era muito curiosa e fiz vários testes “físicos” para sentir essa energia e tentar entender o que acontecia naquele plano que eu não conseguia ver. Comecei a ler bastante e a estudar um pouco sobre isso.

Nesse tempo não tinha internet e eu morava numa cidade bem pequena, então eu encontrava algumas novidades nas revistas na banca de jornal.

Tive várias descobertas e cada vez mais aquilo fazia sentido pra mim e eu me sentia parte de tudo e minhas perguntas começavam a ser respondidas. Encontrei muitas delas no espiritismo, religião que segui desde quando fechei o ciclo da Igreja Católica. Me envolvia em tudo que eu podia: viagens, encontros, estudos.
Sempre que mudava para uma cidade era o primeiro lugar que eu buscava, como se fosse um refúgio. E por anos e anos eu frequentei palestras por toda cidade onde eu ia. Tive a chance de conhecer várias casas espíritas.

Houve tempo em que eu saía da minha cidade, viajava por duas horas só pra assistir à palestra de uma médium excepcional e pra tomar o passe dela. Chegava na cidade por volta das 13h para entrar pra fila. A reunião só começava umas 17h30 e terminava às vezes às 22h, outras 23h, não tinha um horário certo para terminar. Dependia do seu lugar na fila e do quanto cada passe demorava… No final eu sentia que valia cada minuto.

Quando me mudei pra São Paulo o primeiro lugar que procurei, antes de ter um emprego, foi um centro espírita. E tinha um bem na frente da minha casa. Eu me senti tão agradecida, fiquei tão feliz por aquilo. Chegando do interior do interior de Minas Gerais para a selva de pedra pela primeira vez. Isso só podia ser um sinal de que estava no lugar certo.

Como eu estava ali pertinho, virei a papa-passe. Tinha semana que eu ia 3 vezes para a palestra e pra tomar o passe. Ia quando estava feliz, ia para agradecer, ia quando estava triste, ia porque estava sol ou porque estava chovendo. Eu ia porque me fazia bem.

Então descobri que lá eles davam cursos. Já há um tempo vinha sentindo que precisava me aprofundar. Quando entrava na salinha do passe minha vontade era de estar ali sendo o instrumento para a transfusão das energias dos bons espíritos. Muitas vezes eu não precisava do passe, mas queria estar ali, sendo parte daquilo.

Mas os cursos eram muito concorridos. Só consegui minha suada vaga depois de 4 anos frequentando aquele centro espírita. E então comecei a estudar. Ainda bem que comecei a estudar e o estudo começava a completar aquele vazio que eu sentia. Porém, para eu conseguir dar o tão sonhado passe demoraria alguns bons anos (3 anos ou mais). Eu estava disposta a estudar o quanto fosse preciso.

“Thamara, você precisa meditar”

Nessa época, a vida me brindou com mais um feliz encontro com um amigo. Após várias e longas conversas sobre espiritualidade, ótima troca de conhecimento ele me fez uma afirmação que mudaria minha vida completamente e para sempre: Thamara, você precisa meditar.

Meditar pra mim era silenciar a mente. Logo a minha que naquele momento estava um turbilhão de pensamentos. Eu não sabia nada do que era meditar. Mas eu disse: eu sei que tenho, mas não é esse o momento ainda, não me sinto preparada.

Sabe aquelas voltas que a gente faz a nossa vida dar? Essa foi uma delas. Talvez, para eu me confortar, tenha acontecido para eu me fortalecer interiormente.

Passaram-se alguns meses e eu estava conversando com uma amiga. Eu me sentia perdida, com várias perguntas na minha mente e sentindo um grande vazio dentro de mim. Conversando com ela falei que precisava encontrar algo que me completasse e que talvez deveria procurar uma aula de meditação ou algo do tipo. Eu não sabia explicar essa necessidade, era algo que vinha de dentro, como se meu coração pedisse por um alimento. Mas como eu poderia buscar por algo que eu não sabia exatamente o que era?

Foi então que ela me falou de um curso de meditação gratuito que tinha em São Paulo que ela fez e amou, só que não pode continuar. Lembro exatamente do brilho no olho dela ao me falar: “Nossa, amiga, você vai amar! É a sua cara!! E além de tudo o mestre de espiritual deles, Sri Chinmoy, corre, todo mundo lá corre! Você vai amar!” (Porque eu sempre pratiquei corrida.)

Ela me conhece muito bem para dizer isso. E me explicou como funcionava, que depois da primeira parte do curso tinha a continuação. Falou de tudo que era necessário para seguir naquele caminho, como dieta vegetariana, a não utilização de álcool e drogas. Eu quase não acreditei. Naquele momento era tudo perfeito para mim.

Na mesma hora ela me passou o número de telefone e tinha uma ressalva: você tem que ligar para saber sobre o horário e o dia, não pode mandar mensagem de texto ou WhatsApp. E foi o que fiz. Naquele mesmo dia na hora do almoço liguei para o número de um homem com nome diferente.

Sabe quando você fica tentando descobrir como é a pessoa do outro lado? Eu fiquei imaginando pelo nome em como ele deveria ser, era um nome diferente, me passava um certo tom de autoridade, não autoridade no sentido que conhecemos, de poder, mas no sentido de evolução espiritual mesmo.

Quando liguei falei com todo cuidado pra não incomodá-lo. Atendeu uma voz calma, muito simpática que transmitia alegria, lembro até hoje desse dia, uma pessoa que você poderia ouvir por horas e horas falando.

Para minha sorte o curso daquele mês começava na sexta-feira. Na mesma hora pensei: nossa, é um bom sinal. E lá fui eu para a primeira aula do curso. O salão estava lotado, quanta gente buscando meditação, pensei.

Durante o curso ouvi algumas histórias que me marcaram, as quais lembro até hoje. Eu senti que estava mesmo em busca de algo maior e ao mesmo tempo tentava me imaginar naquelas histórias e se algum dia conseguiria estar naquele lugar que até então me parecia muito distante.

A próxima aula seria na segunda-feira. Mesmo dia do meu curso no centro espírita – que suei tanto pra conseguir a vaga. Fui conversar com o moço da voz suave, aura de paz e nome diferente.

Eu não podia faltar no curso espírita e também não queria perder a meditação. Ele foi simples e categórico: “faça o que for mais importante para você”. Meu olho encheu de lágrimas. Virei e saí refletindo. Tive que fazer a difícil escolha e optei por terminar o curso espírita.

Mais uma daquelas voltas que gente faz a vida dar.

Fiz as contas: era novembro, meu curso terminaria em dezembro, então em dezembro começaria de novo o curso de meditação. Seria como se mais um ciclo estivesse fechando em minha vida para começar outro.

Só que em dezembro não teve curso. O próximo seria em janeiro.

No início de janeiro, junto com o início do curso eu comecei a namorar. Convidei ele para começar a meditar e a ir ao curso, mas era muito pra ele. Ele dizia que tinha muita coisa na cabeça para conseguir meditar. Ele tentava me apoiar, me buscou algumas vezes no curso, mas não meditava.

Era tão mágico ir para o curso que não consigo explicar. Um dia eu não estava muito bem e quase desisti de ir. Mas eu fui e lembro que depois que coloquei o pé naquela casinha tão abençoada e com uma energia tão maravilhosa eu mudei completamente o que estava sentindo. E me senti agradecida por ter ido.

No último dia do curso a gente pede ao mestre Sri Chinmoy para continuar no caminho, se aprofundar na meditação e no caminho espiritual.

Antigamente, quem quisesse entrar para o caminho espiritual de Sri Chinmoy deveria mandar uma foto. Ele meditava sobre ela e sabia se era o caminho daquela pessoa. Depois que ele deixou o corpo físico deveríamos escrever uma carta com todo nosso coração pedindo permissão a ele para seguirmos no caminho.

Mesmo sabendo de tudo que eu deveria fazer para continuar no caminho espiritual, eu escrevi minha cartinha. Com todo o amor do meu coração, eu queria muito estar ali. Pedi com meu coração que Sri Chinmoy me aceitasse. Fiquei imaginando a minha carta sendo entregue a ele e que queria que ele sentisse toda minha sinceridade em fazer parte daquilo.

Mas eu fiz minha vida dar outra volta. Saí de lá com o coração apertado por não poder continuar naquele momento, saí quase fugida, porque eu não ia conseguir falar com palavras que não ia continuar.

Hoje vejo que eu estava preparada naquele momento para seguir esse lindo caminho, mas não fui forte o suficiente. Naquela época eu ainda não sabia ouvir meu coração, então preferi “fugir”. Mas eu continuei meditando regularmente.

“A partir daquele dia, eu já sabia… e me entreguei”

rosa sonhosEu estava passando por uma transformação na minha vida. O emprego que eu tinha já não fazia mais sentido. Eu tinha acabado de ser promovida, mas não me sentia feliz lá, nada me completava. Minha vida estava sem propósito. A única coisa que me deixava feliz era correr, só correndo eu conseguia ser eu mesma. Por isso, há alguns meses estava me programando para “me dar um tempo”, ir para a Irlanda estudar inglês.

Pedi demissão, o namoro acabou e eu fui pra Irlanda. Tudo isso em quatro meses.
Chegando em Dublin, a primeira coisa que fiz foi buscar um centro espírita. Encontrei, tinha um dia de palestra, outro de estudo. Fui primeiro no estudo. Não encontrei exatamente o que eu buscava. Era bem diferente, aliás, do que eu estava acostumada ou do que eu esperava. Saí de lá pensando: terei muito trabalho pela frente, vou precisar estudar dobrado para conseguir o que quero.

Continuei indo ainda que não fosse o que eu procurava, achava que não tinha outra opção, porque era o único centro espírita Kardecista de Dublin, e eu precisava fazer parte de algo espiritual.

Como Deus faz tudo certo e a gente não precisa pedir nada, só agradecer pelo que tem e aceitar tudo que vem, um dia eu estava andando pelas ruas de Dublin e me deparei com um cartaz: Festival de Meditação Gratuito. Eu quase não acreditei no que estava vendo. Logo, pensei: aqui também tem meditação de graça.

No cartaz tinha um número de telefone e um site. Entrei no site para ver a programação e com quem me deparo? Sri Chinmoy. Aquele mesmo mestre espiritual que meu coração tinha pedido tanto para ser sua discípula. Foi mágico, foi inesquecível.

Lá o procedimento para ir no curso era mandar uma mensagem de texto com suas informações. Enviei, mas a mensagem não chegou. Fui mesmo assim, se me perguntassem porque meu nome não estava na lista, mostraria que tinha tentado enviá-la. Meu coração estava em festa.

Cheguei na loja de instrumentos musicais, onde foi o curso, falando toda orgulhosa que já conhecia eles, que eu já tinha feito o curso. Nem pediram para confirmar se meu nome estava na lista. Estava tudo certo, eu estava onde deveria estar.

O salão estava lotado de gente de tudo quanto é lugar. Foi tanta gente que no primeiro dia eles deram duas aulas ao mesmo tempo. Foi lindo, eu me senti como se tivesse encontrado o que eu procurava.

A partir daquele dia eu já sabia que dessa vez nada me tiraria daquele caminho, e eu me entreguei.

Ao mesmo tempo que achava que já sabia de tudo, era tudo novo. Cada dia uma nova descoberta. Novas experiências. E um novo mundo se abriu pra mim. Um mundo de mais luz e mais sinceridade. A cada passo que eu dava eu agradecia mais a Deus por ter me dado a chance de encontrar o caminho de Sri Chinmoy.

Quanto mais eu me abria, mais coisas aconteciam. Quanto mais eu me permitia, mais feliz eu me sentia. Agora sim, tinha encontrado minha família, meu propósito, eu estava completa.

O caminho de Sri Chinmoy é um caminho de muita luz. Nele, eu encontrei o que eu buscava desde quando era criança, porque no caminho espiritual você não vai a um lugar apenas para meditar e ponto, acabou. A meditação está em tudo, ela se torna sua vida.

Se você segue o caminho da devoção, se você se entrega com todo o coração, você não se sente vazio e você vê que não está sozinho. Existem muitos outros buscadores, assim como você, que levam a vida espiritual plenamente e isso te ajuda a ficar ainda mais forte. Tudo que você passa a fazer na vida faz mais sentido e tem um propósito.

Acredito que tudo acontece no tempo que deve acontecer, no tempo de Deus. Meu coração encontrou esse caminho com 29 anos e hoje sou eternamente grata por ter sido aceita por Sri Chinmoy e por não ter demorado tanto tempo a aprender a ouvir meu coração e a entender que esse era o caminho certo.

Paz interior e autodescoberta

o que e a vida espiritual

por Juliana

Lembro de um dia em que estava deitada no sofá e sentia que não conseguia ficar em paz interior, eu costumava não parar de pensar a todo o momento, era como se estivesse sendo bombardeada por pensamentos, pensava especialmente no trabalho, durante o trabalho, fora do trabalho, aos finais de semana, pensava em como conseguiria finalizar tal projeto, na minha carreira, planejava os próximos anos…Não havia espaço para amigos, família ou mesmo para mim. Quando tinha tempo para descansar, não conseguia, era como se estivesse num inferno, pois não conseguia desligar e isso me angustiava. Então dormia, tentava dormir ao máximo, o quanto podia. Lembro que aos sábados dormia praticamente o dia inteiro e quando não estava dormindo, estava comendo “besteiras” e bebendo bebida alcoólica, porque as vezes não conseguia dormir direito ou não descansava o bastante, e a bebida era o que me “ajudava” a esquecer um pouco de tudo o que estava acontecendo dentro de mim. Lembro que às vezes estava com o meu marido no carro ou em casa e ele estava falando várias coisas, como foi o dia, o que aconteceu, etc…E eu não estava lá, várias vezes ele ficou chateado por isso e parou de falar, com isso fomos nos afastando.

Neste dia em que estava deitada no sofá percebendo que não estava em paz, comecei a sentir a paz, acredito que tenha sido por segundos, como um presente e consegui adormecer como uma criança que está protegida e se sente acolhida pelos pais. Foi muito bom! Lembro que foi por pouco tempo. Demorei bastante a perceber que talvez viver dessa forma não fosse normal, aparentemente estavam todos pensando como eu, posso dizer que foi um processo. Mas o que me ajudou mesmo foi o meu marido, pois percebo hoje que, quando as coisas não vão bem na nossa vida, isso é apenas um reflexo do que devemos mudar. Como estava absorta no mundo em que criei, ele foi se afastando, começamos a brigar, até que percebi que eu deveria mudar a forma como estava agindo. Eu não queria me separar, pois o amava de uma forma que não sei explicar. Ele me ajudou muito no processo de autodescoberta, aprendi muito com ele, com esses conflitos cheguei ao fundo do posso, era como se estivesse totalmente despedaçada e agora tivesse de juntar as peças novamente. Foi então que comecei a realmente a buscar por algo, percebi que com esse processo a pessoa que existia estava morrendo.

Foi um longo processo até chegar a meditação, mas posso dizer que foi bom, aprendi muito com tudo que me aconteceu e hoje valorizo cada momento de paz que sinto e desejo me expandir cada vez mais. A meditação é um processo de autoconhecimento, sempre me questionei sobre quem eu era realmente, sobre o que estamos fazendo aqui na terra, qual o propósito das nossas vidas aqui, não fazia muito sentido dormir, acordar, trabalhar, fazer as atividades sociais e depois repetir isso por toda a vida. Havia alguns momentos felizes, mas me questionava se era apenas isso. Buscava incessantemente por algo, mas não sabia o que. Lembro que li um poema de Khalil Gibran que dizia assim:

“Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim:
Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas – as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas – e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando: “Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”
Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.
E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou: “É um louco!” Olhei para cima, para vê-lo. O sol beijou pela primeira vez minha face nua.
Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais minhas máscaras. E, como num transe, gritei: “Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!”
Assim me tornei louco.
E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.”

Me identifiquei, pois já estava começando a me desconectar das crenças que haviam em mim. E me deparava com momentos de liberdade e leveza ao observar as coisas ao meu redor e me sentir presente. “Algumas máscaras já haviam sido roubadas”, mas ainda restavam algumas. Acredito que as mais difíceis de retirar. Até que encontrei a meditação. O Centro de meditação Sri Chinmoy, fornece cursos que são realmente gratuitos para quem deseja aprender a meditar. Foi interessante a coincidência, pois estava lendo o livro comer, rezar e amar, onde a protagonista encontrava algumas pessoas que tinham um mestre espiritual. Fiquei com aquilo em mente, encontrei um documentário do mestre espiritual Yogananda no Netflix e comecei a buscar por meditação na internet. Havia pedido para Deus mostrar meu caminho e propósito de vida.

Comecei o curso e tudo fazia sentido. Desde o primeiro dia comecei a meditar como era pedido e percebi as mudanças ao longo do tempo. Os primeiros meses foram bem difíceis, mas não desisti. Hoje, me sinto outra pessoa. Toda a inquietação e a compulsão por pensar foram embora e no lugar ficou a paz. A paz de estar no momento presente. A paz se saber quem sou. Todas as máscaras se foram, todas as que me faziam viver daquela forma. Agora, me sinto feliz e em paz.

A meditação é uma dádiva divina. Ela simplifica nossa vida exterior e energiza nossa vida interior. A meditação nos traz uma vida natural e espontânea, uma vida que se torna tão natural e espontânea que não podemos respirar sem estarmos conscientes de nossa própria divindade.” – Sri Chinmoy


CORAGEM, CORAGEM, CORAGEM

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Against one’s inner courage, death itself contends in vain.
Contra a nossa coragem interior, a própria morte luta em vão.
– Sri Chinmoy

 

Trilha sonora: por favor leia este texto enquanto escuta a gravação gratuita de Sri Chinmoy tocando órgão de igreja pela primeira vez na sua vida! Mais sobre ela no fim do texto.

 

CORAGEM, CORAGEM, CORAGEM!

 

Para quem ela falta, parece algo enorme, uma conquista gigantesca!
Mas não é! A CORAGEM é o nosso direito de nascimento! Veja bem, há um força espiritual que nos faz existir – sem ela, somos um monte de matéria estática, uma marionete sem um artista. Essa força é TUDO. Sem o TODO o indivíduo não existe. É como falar que somos todos parte de Deus. É claro que somos! Existe algum lugar onde Deus não está? Se você encontrasse algo sem Deus, aquilo imediatamente passaria a fazer parte de você, dos seus pensamentos e, portanto, de Deus.
E, se o nosso Criador é todo Coragem, assim como ele é Beleza, Perfeição, etc, a Coragem é nosso direito de nascimento… os filhos herdam as posses dos pais!

Courage is the most devoted servant of one’s own faith in oneself and God.
Coragem é o mais devotado servo de nossa fé em nós mesmos e em Deus.
– Sri Chinmoy

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CORAGEM e CAPACIDADE

Coragem e capacidade são coisas distintas! Uma coisa é conseguir fazer, outra coisa é saber o que fazer, e a terceira coisa é ter a coragem.
Honestamente, já não sabemos o que fazer em qualquer situação (pensemos bem)? Ou já não temos capacidade para agir (pensemos de novo)? Ou, na verdade, só não temos a CORAGEM para fazer o que é certo? (seja honesto(a))
A coragem é exatamente aquilo que usamos quando vamos entrar na piscina. Tudo está certo, falta só entrar na água geladinha!
Uma vez que tomamos a coragem e mergulhamos, saímos nadando, e a água nem parece fria – na verdade, é uma delícia!
A CORAGEM não é algo que temos que POSSUIR! A CORAGEM temos apenas que EXERCITAR! É igualzinho pular na piscina! Ninguém está pronto para pular na piscina! Só respiramos fundo, 1, 2, 3… e pulamos! A satisfação é nossa!

 

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CORAGEM E CAPACIDADE SÃO COISAS DISTINTAS

A música que sugeri ouvirmos enquanto lemos esta página é Sri Chinmoy, já com 55 anos de idade, tocando pela primeira vez um instrumento musical – e, na verdade, em uma performance pública. Foi a primeira vez que se sentou diante de um órgão. Entendeu a mensagem!?

There is no other way to please your inner self than to be, yourself, a perfect emblem of courage.
Não há outra maneira de agradar o seu Eu interior senão ser, você mesmo, um perfeito emblema da coragem.

– Sri Chinmoy

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CALL HAS COME, CALL HAS COME, LORD SUPREME’S CALL

(a faixa gratuita 27 é a gravação da música com essas palavras)
(partitura)

Sri Chinmoy reconta uma história onde Sri Ramakrishna subia ao telhado da sua moradia e chorava e chamava por seus discípulos que ainda não tinham conhecido o Mestre. Esses discípulos estavam destinados a vir até o Mestre, mas a ignorância os estava impedindo. Certamente, algumas dessas almas destinadas a encontrarem um Grande Mestre como Sri Ramakrishna não o encontraram e ficaram chafurdando no lodo do mundo exterior de prazer, conforto, apego, vazio interior e insatisfação.
Sri Ramakrishna teve a coragem de subir ao telhado e ser chamado de louco por quem não o compreendia em sua sabedoria divina. Ele teve os frutos da sua ação.
Os discípulos dele que o encontraram e tiveram a coragem de fazer aquilo que era certo para eles se tornaram imortais na história da humanidade, sendo conhecidos como santos, ou mais ainda (como Swami Vivekananda). Eles também tiveram frutos.
E os discípulos que não tiveram a coragem para encarar os desafios e transcender a “vidinha” ficaram no lodo das emoções, dúvida e satisfação superficial e vazia das tentações. Também eles se depararam com os frutos da sua falta de coragem.
Nota pessoal: enquanto escrevo, rezo humildemente pela Graça do Divino, para que a minha vida nunca passe em vão por falta de coragem! Afinal, a Perfeição também é um direito de nascimento – esforcemo-nos por ela!!!

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Gift of sight:
Universal beauty.
Gift of night:
Universal peace.
Gift of humanity:
Universal sorrow.
Gift of divinity:
Universal smile.

-Sri Chinmoy, Three Hundred Sixty-Five Father’s Day Prayers, Agni Press, 1974