Pergunta: Como posso aumentar a minha aspiração de forma a senti-la durante o dia todo?
Sri Chinmoy: Existem várias maneiras de se aumentar a aspiração. Uma maneira é meditar todos os dias por pelo menos dez minutos de manhã cedo. Quando se exercita, se estava fazendo 50 flexões, você então tenta fazer 60 ou 70. Essa é a maneira de aumentar os seus músculos exteriores. Se esteve meditando bem, tente meditar por mais tempo – quinze minutos ou mais. Se você lê 20 páginas dos meus livros diariamente, então por favor leia 25. Se escuta minhas canções por meia hora, procure aumentar para 40 minutos. Esta é uma maneira fácil: incrementar gradualmente a muscula-tura interior.
Os músculos interiores são a fé, o amor, a devoção, a unicidade e assim por diante. Esses você pode aumentar fazendo duas coisas: aumentando a sua pureza e aumentando a sua gratidão. Se quiser aumentar a sua aspiração, você deve aumentar a sua pureza e gratidão. Com pureza você pode aumentar tudo e com gratidão você pode aumentar tudo. Gratidão você deve oferecer todos os dias ao Supremo, pois Ele o trouxe ao caminho certo e lhe deu um Mestre que o ama sinceramente e de todo o coração. Se oferecer a sua gratidão ao Supremo por estas coisas, a sua aspiração crescerá.
Pode meditar em pureza diariamente. Basta repetir a palavra ‘pureza’ com devoção e alma. Muitos anos atrás, em um de nossos Centros, eu falei sobre como aumentar ou desenvolver pureza interior. Hoje repita ‘pureza’ 100 vezes, amanhã repita 200 vezes, depois 300 e assim por diante, até alcançar 700 repetições. Então pode reduzir 100 repetições a cada dia até retornar às 100 repetições originais. Pode repetir ‘pureza’, ou ‘Aum’, ou ‘Supreme’. Como em uma escada, você sobe para alcançar os frutos e depois desce, trazendo consigo os frutos. Para aumentar a aspiração, a pureza e a gratidão devem ser ampliadas. Quando a gratidão aumenta, num instante a aspiração aumenta. Quando a pureza aumenta, num instante a aspiração aumenta.
Pureza e gratidão são dois ótimos amigos seus, e portanto passe todo o seu tempo com elas. Quando tem um bom amigo, você procura passar o máximo de tempo possível com ele. No mundo interior, a pureza e a gratidão são suas duas amigas mais íntimas. Caso possa permanecer com elas o tempo todo, estará fadado a sentir a sua aspiração aumentar a cada momento. Se estiver lutando contra alguma coisa e essas amigas vierem ao seu auxílio, naturalmente a sua força aumentará e você será capaz de derrotar os seus inimigos interiores.
Aum, January 1978, p. 18-19
Pergunta: Como posso aumentar a minha aspiração?
Sri Chinmoy: Existem várias ma-neiras de se aumentar a aspiração. Uma maneira bastante simples é ficar junto de pessoas as quais você sente que possuem mais aspiração do que você. Na escola, quando fica junto de um aluno mais dedicado, você verá por que ele tira notas melhores. Ele estuda arduamente ou sabe alguns segredos; por isso ele tira notas melhores. Igualmente, ao ver o quanto alguém disciplinou a própria vida, você pode aumentar a sua própria aspiração. Portanto sempre fique junto de alguém que esteja um passo a frente de você. Isto não significa que deva pensar mal de alguém que, em sua estimativa, seja inferior a você. Longe disso! Mostre a ele a sua simpatia e amor, mas sinta que você aprende com alguém que esteja acima de você. E mesmo assim, aquela pessoa não será o seu ideal. O seu ideal deve ser somente Deus ou o seu Mestre espiritual. Contudo, tente ver que boa qualidade faz uma pessoa melhor do que você.
Isso não é imitação; você não precisa ser cópia de alguém. E nem passar todo o seu tempo pensando em como a outra pessoa está meditando, entretanto, ao ver que essa pessoa aumentou a sua aspiração ao meditar às quatro ou cinco da manha, você também ficará inspirado a meditar cedo pela manhã. Ao ver que a outra pessoa tem meditado melhor sem ter comido antes, você também fará assim da próxima vez que for meditar. Essas são algumas das maneiras exteriores de se observar a pessoa a qual você sente estar fazendo melhor meditação do que você.
O método interior de se aumentar a aspiração é sentir sempre o clamor interior. Você precisa desespe-radamente de realização-Deus. A realização-Deus não é teórica; ela pre-cisa ser prática.
Na vida espiritual, a melhor maneira de se aumentar a aspiração é pensar no próprio Mestre vinte e quatro horas por dia, se possível. Saiba que agora é impossível para você pensar vinte e quatro horas em seu Mestre. No entanto, pode ler os escritos de seu Mestre por uma ou duas horas, pode passar uma ou duas horas com os outros discípulos; e por uma ou duas horas você pode falar sobre o seu Mestre a amigos que nada saibam sobre ele.
Muitas vezes você será capaz de aumentar a própria aspiração ao falar sobre seu Mestre. Digamos que hoje você não esteja com aspiração alguma. Caso alguém que seja um iniciante lhe pergunte algo sobre o seu Mestre, você terá de falar. Não estará enganando a outra pessoa, mesmo que esteja sem aspiração naquele momento. Procure nas profundidades para ver se há alguma aspiração em sua vida. Instantaneamente descobrirá que por centenas de vezes o clamor-aspiração lhe pertenceu. Então, traga à tona aquela aspiração, e quando estiver conversando com aquela pessoa automaticamente a sua aspiração aumentará. Talvez hoje você não tenha aspiração, mas há dois dias atrás você tinha uma aspiração tremenda. Alguém leu algo sobre o seu Mestre no jornal e quer saber mais sobre ele. Se não falar com ele sobre o seu Mestre por estar sem aspiração e duvidando de seu Mestre, você estará arruinando as suas próprias possibilidades. Foi Deus dentro daquele buscador quem veio, e veio apenas para aumentar a sua aspiração. Nesse momento Deus tem mais cuidado por você. Você foi sincero por dois ou seis meses e justamente hoje a sua aspiração está baixa. Assim Deus, através de Sua infinita Compaixão, vem até você na forma de uma buscador ou de um curioso, de forma que Ele possa novamente atiçar a chama de aspiração em você. Existem muitas maneiras de se aumentar a aspiração quando ela está baixa. Mas o melhor método é pensar apenas no Mestre, falar sobre ele, ouvir falar sobre ele e ler todos os seus escritos.
Você não pode ler enquanto trabalha, senão seu chefe o despedirá. Todavia, se repetir o nome do Supremo ou o nome do seu Mestre espiritual, como irá o seu chefe saber o que você está fazendo? E você não estará enganando o seu chefe. Longe disso! Você sabe que há um chefe superior e que este é Deus. Você pode dizer: “Como posso agradar a dois chefes?” Gostaria de dizer que se você satisfizer o chefe que é absolutamente superior, Deus, a sua salvação estará garantida. Você deve executar as suas tarefas terrenas, naturalmente. Deus fez de um indivíduo o seu chefe temporário, o qual paga por seu trabalho. Com esse dinheiro você pode viver na Terra e ter uma vida espiritual, o que é absolutamente necessário. Satisfazer o seu mestre terreno não é vivacidade ou esperteza não divina; é sabedoria. Você tem de trabalhar seis ou sete horas diariamente para esse chefe. Mas durante o resto do tempo você pode meditar, passar tempo junto de outros discípulos e ler os escritos do seu Mestre. Assim você pode passar quatorze ou quinze horas por dia na consciência de seu Mestre. Não é isso aspiração? Um Mestre espiritual incorpora realização. Se você bate, bate, bate constantemente na porta do coração dele com o seu clamor interior, ele naturalmente abrirá, e lhe dará a chave. Quantas horas diárias você devota a ele? Se você passa cinco minutos por dia na consciência dele e o restante de seu dia se esvai, desperdiçado, naturalmente levará mais tempo para alcançar a sua meta. Porém, se for devotado e entregue, verá quantas horas e de quantas maneiras você pode permanecer na consciência de seu Mestre. Então a sua aspiração aumentará. Quando a aspiração frutifica, a realização alvorece.
Aforismos meditativos do livro 77.000 Service-Trees, vol 50, escrito por Sri Chinmoy
Como meditar com os poemas: você pode ler o aforismo umas três, quatro ou seis vezes. Depois medite em silêncio por uns minutos. Depois leia mais algumas vezes, e medite mais um pouco. Tente terminar sabendo o aforismo de cor. Você pode lembrar dele durante o seu dia várias vezes, e até recitar em voz alta ou em silêncio enquanto caminha.
Como superar o medo? É possível superar o medo com a meditação?
Pergunta: Como superar o medo através da meditação?
Sri Chinmoy: Meditação é a única forma de superar o medo. Não há outra forma. Não importa quantas injeções recebamos dos médicos, o medo não nos deixará. Por que a meditação nos auxilia a superar o medo? Na meditação, nos identificamos com a Vastidão, com o Absoluto. Quando tememos alguém ou algo, tememos porque não sentimos que aquela pessoa ou coisa é parte de nós. Mas, quando estabelecemos unicidade consciente com o Absoluto, com a Vastidão infinita, então todos e todas as coisas são partes de nós. Como poderíamos ter medo de nós mesmos?
A meditação nos relaxa e então nos expande. Se não meditamos, ficamos separados. Então surge a destruição ou extinção. O propósito da meditação é unir, expandir, iluminar e imortalizar a nossa consciência. Quando meditamos, entramos no nosso Divino. Quando conversamos com nossos amigos ou passeamos, não estamos conscientes da nossa Divindade. Mas, quando meditamos, tentamos conscientemente ficar cientes da nossa Divindade mais interior. O Divino não precisa temer o humano. Longe disso! O Divino possui poder infinito. A humanidade, em comparação com o Divino, não tem poder. Quando possuímos acesso livre à Divindade, quando nossa existência completa, interior e exterior, fica carregada do Poder infinito e ilimitado do Divino, como podemos ter medo da humanidade? É impossível!
Através da meditação, o medo interior e exterior devem nos deixar. O medo interior é infinitamente mais difícil de afastar. Mas, com o auxílio da meditação, o nosso medo interior nos deixará. Agora você teme o medo. Você é vítima do medo porque não sabe expandir a sua consciência. É por isso que a todo momento você está à mercê do medo. Mas, quando tomar refúgio no Divino, com o auxílio da meditação, o medo o deixará, pois sentirá que está batendo à porta errada. Agora você está indefeso, mas o medo ficará indefeso quando ver que através da meditação você está em contato com algo poderoso, muito poderoso.
Como superar o medo no emocional
Se quisermos superar o medo no vital, devemos nos concentrar no nosso próprio ser interior. Mas isso é difícil para iniciantes. Se quiserem conquistar o medo no vital, digo que devem tentar expandir o verdadeiro vital que há em si. Temos dois tipos de vital. Um é agressivo, e o outro é dinâmico. Todos os dias utilizamos o vital agressivo, com sua capacidade de luta. Mas o vital dinâmico deseja criar algo em breve e de forma divina, iluminiada. Portanto, se pudermos nos concentrar ou focar nossa atenção nesse vital, no vital dinâmico, expandiremos nossa consciência lá. Não poderá então haver medo no vital.
Como superar o medo no coração
Para superar o medo no coração não-aspirante, precisamos tomar auxílio direto da alma. Quantos de nós vimos ou sentimos a alma? Quando meditamos no centro do coração, devemos saber se realmente estamos meditando no coração. A seguir, a cada momento, ou a cada respiração, cavamos fundo. Não é uma escavação violenta, não! É um sentimento divinamente intensificado que há dentro do seu coração de que você está indo fundo, muito fundo dentro de si. A cada vez que respira, sinta que está mergulhando fundo. Alguns meses depois, você sentirá um leve toque; ouvirá um som minúsculo. Quando ouvir o som, tente verificar se ele é causado por algo ou não. Quando ouvimos um som, normalmente é porque duas palmas se batem ou dois objetos se chocam. Mas esse som na alma não é resultado de nada, é espontâneo. Assim, quando sentir esse som em seu interior, como um gongo celestial, você superará o medo no coração não-aspirante.
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Textos de Sri Chinmoy traduzidos e compilados por Patanga Cordeiro, servidor público, ultramaratonista, voluntário. Instrutor de meditação voluntário no Centro Sri Chinmoy em São Paulo e outras cidades do Brasil desde 2004. Outros textos:
Nosso progresso espiritual é auxiliado pela compreensão intelectual das coisas?
Sri Chinmoy: Não é nada necessário compreender algo intelectualmente. Muitos gigantes espirituais não usaram a mente; usaram o coração ao invés. Através da unicidade do seu coração com Deus, eles sentiram e realizaram tudo. Compreensão é uma palavra muito enganosa. Quando hoje entendemos algo de uma forma particular, essa compreensão pode não nos satisfazer amanhã. Podemos desenvolver outro tipo de compreensão e ver que a compreensão de ontem foi completamente inútil. Portanto, utilizar o intelectio não é o caminho correto.
Mas o intelecto pode se entregar à unicidade do coração e dizer: “Eu não tenho satisfação duradoura ao compreender de forma intelectual. Tentarei obter alegria através da minha identificação com a Realidade altíssima.” As decisões da mente estão mudando constantemente, e portanto nunca conseguimos encontrar certeza verdadeira e satisfação no caminho da mente. Mas, se seguirmos o caminho do coração, veremos que o coração imediatamente se identifica com a Realidade – não importa o que seja a substância ou essência dessa Realidade.
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Textos de Sri Chinmoy traduzidos e compilados por Patanga Cordeiro, servidor público, ultramaratonista, voluntário. Instrutor de meditação voluntário no Centro Sri Chinmoy em São Paulo e outras cidades do Brasil desde 2004.
Tem horas que minha mente não para, e me pergunto “como parar a mente”? A resposta de Sri Chinmoy tem sido a solução constante. Ela exige prática e determinação, mas funciona perfeitamente.
No dia 18 de março de 1977, Sri Chinmoy respondeu a uma série de perguntas do United Nations Meditation Group em Genebra, Suíça.
Pergunta: Como paramos a mente?
Sri Chinmoy: Há diversas formas para parar a mente. Uma maneira é repetindo o Nome de Deus e perder-se dentro da repetição do Nome. Ou pode-se repetir um mantra, que é uma palavra sagrada ou cântico. Quando se repete um mantra ou o Nome de Deus, há um fluxo contínuo. Se for “Deus, Deus, Deus,” dentro da repetição devemos nos perder. Então a mente pára.
Há outra forma ainda. Deve-se encarar a mente como um objeto material. Podemos pegar um objeto material e colocá-lo em qualquer lugar que quisermos, ou lançá-lo muitíssimo longe, de acordo com a nossa força. Ou seja, podemos pegar a mente como um objeto material e jogá-la longe, ou podemos colocar a mente onde quer que desejemos. Se uma criança levada nos indomoda, levamos essa criança levada para um canto e a ameaçamos, deixando-a lá. Pode-se fazer isso com a mente também.
Uma terceira maneira é esquecer completamente da existência da mente. Ignore a mente e sinta-se apenas o coração. Não basta dizer “eu tenho um coração.” Deve-se dizer “eu sou o coração, eu sou o coração.” Então as qualidades do coração permearão o ser por completo, e a mente pára automaticamente. Há muitas outras formas, mas essas três são suficientes para qualquer indivíduo, e pode-se escolher qualquer uma das três para parar a mente.
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A mente possui uma vontade própria; ao mesmo tempo, ela pode ser vítima de forças hostis ou se render às forças mais elevadas. Vontade limitada todos nós temos. Quando não usamos nossa vontade limitada, permitimos que Deus nos conquiste ou que a força-ignorância nos conquiste. Mas, se utilizarmos a mente corretamente, não nos entregaremos às forças não divinas que nos atacam. …
Pergunta: Como podemos silenciar a mente na meditação?
Sri Chinmoy: Tente inspirar tão silenciosamente e lentamente quanto o possível, de forma que, se você colocasse um fino fio diante do seu nariz, ele não se moveria. Então você verá que a sua meditação será profunda e a sua mente ficará calma e silenciosa.
Então imagine algo muito vasto, e também calmo e silencioso. Quando começar a meditar, sinta que dentro de você há um vasto oceano, e que você mergulhou fundo adentro. Lá no fundo tudo é tranquilidade, uma enxurrada de tranquilidade.
Textos de Sri Chinmoy traduzidos e compilados por Patanga Cordeiro, servidor público, ultramaratonista, gosta de brincar como criança. Instrutor de meditação voluntário no Centro Sri Chinmoy em São Paulo e outras cidades do Brasil desde 2004.
Lentamente, como muita coisa que depende de disciplina, minha mente foi criando desculpas, e a meditação foi diminuindo, ficando mais informal, até um minuto apenas nos últimos anos.
Nesses dias, me lembrei como era bom e proveitoso fazer uma meditação um pouco mais longa, mais dedicada. Voltei a me propor os sete minutos que eram o hábito de anos anteriores.
Ontem tive uma experiência muito interessante. Os sete minutos de meditação passaram, e a meditação não foi nada fora do comum, talvez até um pouco mais superficial que o de costume. Mas, enquanto trabalhava, sentia claramente que a meditação estava comigo – como se estivesse guiando a minha mão que segurava o mouse do computador. Era uma sensação de ter a companhia muito preciosa de alguém que faz com que tudo mude. E eu estava trabalhando feliz, com segurança, sentindo-me útil não tanto pelo serviço em si, mas pela postura com que eu o fazia. (A ideia por trás das palavras de Madre Teresa pode servir para explicar um pouco: “Não precisamos fazer grandes coisas, mas sim pequenas coisas com grande amor.”)
Isso mudou inclusive os dias seguintes. A partir desse dia, fui ao trabalho mais motivado, mais feliz, mais espontâneo. Não é que os problemas lá mudaram – eu mudei (um pouquinho).
As pessoas começam sua jornada espiritual com uma boa postura. Elas querem Deus, Verdade, Luz. Mas, depois de trilhar por dois, três ou seis meses, sentem que o caminho é árido. Percebem que não estão ficando famosos ou conhecidos ou que não estão operando milagres. Então desistem e seguem outro caminho, como o da kundalini. Esse caminho é bem fácil porque logo que obtém algo, você pode mostrar todos os seus poderes milagrosos ao mundo e sentir que é alguém importante. Mas esse poder nunca lhe trará sequer uma gota de paz de espírito. Primeiro de tudo, você será mal compreendido por muitos, porque o uso de poderes ocultos não eleva de forma alguma a consciência de ninguém. Como um mágico, você mostra algo que cria excitação que dura alguns minutos ou uma hora. Então você e aqueles que ficaram animados sentem-se miseráveis, porque sabem que isso não durará para sempre, que há realidades mais elevadas e verdades mais elevadas. Vocês dizem então: “Viemos ao mundo buscando paz, amor, alegria, felicidade, satisfação. Onde está a satisfação que desejamos?” E então entram para a vida espiritual de verdade, onde kundalini não é necessário. O que é necessário é apenas um anseio interior pela Verdade, Luz e Deleite. Uma vez que obtiver Verdade, Luz e Deleite, não se interessará pelo poder kundalini. É como uma criança que tem cinco centavos. Ela sabe que poderá distribuir os cinco centavos entre cinco crianças da sua idade. Mas, quando descobre que seu pai tem milhares de dólares, ela não se interessará mais pelos cinco centavos. Os milhares de dólares aqui representam o poder espiritual verdadeiro.
Se quiser se satisfazer com um pouco de poder kundalini, medite por algumas horas por dia, por seis ou sete anos, o que não é nada. Já realizar Deus leva diversas encarnações, a não ser que tenha um bom Mestre espiritual. …
O que é a emoção, como transformá-la, como saber se é algo elevado ou algo superficial, o choro interior e o choro exterior.
Sri Chinmoy ofereceu a seguinte palestra da série Dag Hammarskjold nas Nações Unidas, aqui resumida.
A emoção é nossa amiga e inimiga. Há muitos planos de consciência, mas costumamos lidar com dois planos: o físico e o espiritual. No plano físico, a emoção começa doce, mais doce, dulcíssima. Então chega a hora em que essa emoção é seguida pela frustração, e a frustração é seguida pela destruição. Por que é assim? Isso acontece precisamente porque a emoção em jogo no físico é ainda obscura, não iluminada e impura. No plano físico, a emoção nada é além de autoexposição, consciente ou inconsciente, sob compulsão ou espontânea.
Há um tipo de emoção no plano espiritual, no coração, ou existência psíquica. Essa emoção é sempre Auto-iluminadora e Deus-preenchedora. No mundo espiritual, no mundo interior, a emoção é verdade-expansão, divindade-expansão e perfeição-manifestação. Naturalmente, podemos incluir também “Deus-satisfação”, pois a Deus-satisfação só cresce na verdade-expansão, divindade-expansão e perfeição-manifestação.
No plano humano há diversas forças não divinas que nos atacam e forçam a nos render ou utilizar a raiva, ansiedade, preocupações, apego, pena de si e auto-imolação.
O que é a raiva? Ela é uma força que não nos permite estarmos conscientes da nossa realidade-unicidade com os demais, que são nossa realidade estendida, expandida. …
Como superamos a raiva? Um Mestre espiritual pode lhe sugerir manter a mente calma e silenciosa, e orar a Deus e meditar em Deus. Seremos capazes de nos libertar da selvagem raiva que há em nós. O conselho do Mestre espiritual está absolutamente certo. Mas, se quiser superar a raiva na hora, a forma mais fácil e efetiva é repetir o Nome de Deus tão rápido quanto o possível a cada inspiração de ar que tomamos…
Como conquistamos serenidade? Como alcançamos equanimidade? Conseguimos equanimidade mental quando não vivemos na mente, mas em outro lugar. Que lugar é esse? É o coração. … E o que é serenidade? É um tipo de emoção divina. Não é excitação. Obtemos essa serenidade quando nos identificamos com o Infinito, o Eterno, o Imortal.
O medo é outro tipo de emoção que cumpre seu papel ao nos separar da nossa vasta realidade-unicidade. A dúvida é quase igual. …
O apego é uma forma de emoção. Assim como o apego é uma forma de emoção, também o desapego é uma forma de emoção. Quando há apego, vemos um cabo-de-guerra entre dois exércitos. Ele nos prende para nos gratificar. O apego nos faz sentir que nenhum indivíduo é completo…
O desapego também é uma forma de emoção… O desapego não é indiferença. Ele é a nossa verdadeira existência, que vive em nossa realidade verdadeira – seja a realidade-Céu ou a realidade-Terra. Desapego é emoção, mas ele não é afetado pelos acontecimentos, incidentes e experiências da realidade que enxerga; está sempre um centímetro acima em consciência. …
Sinceridade e insinceridade também são emoções. Com sinceridade voamos, voamos no vasto e ilimitado céu. Com a insinceridade entramos numa pequena caverna para escapar. Com a sinceridade tentamos espalhar nossas asas e dar ao mundo o que temos e o que somos. Com a insinceridade escondemos nosso mundo-realidade, que consideramos apenas nosso.
Puereza e impureza. Pureza é a nossa Auto-expansão, e impureza é a nossa Auto-imolação. Com cada alento-pureza que respiramos, aumentamos a nossa realidade-Deus. E, com cada alento-impureza que respiramos, rendemos nossa existência às mandíbulas da morte.
Pureza e sinceridade são dois atributos divinos que devem ser aplicados por todos os buscadores no dia a dia. A emoção deve ser disciplinada sinceramente na mente central. Quando a mente se torna sincera ela se abre conscientemente, devotadamente e com toda alma à Vastidão. …
A pureza é do coração e está no coração, mas ela vive para a alma. A alma é a representante consciente de Deus dentro de nós. O coração de pureza é o coração que descobre Deus conscientemente. O coração de pureza é consciente Deus-revelação e Deus-manifestação.
Por fim, todas as nossas emoções dão lugar a lágrimas, sejam lágrimas terrenas ou lágrimas divinas. As lágrimas terrenas são o resultado do fracasso, frustração e falta de satisfação. As lágrimas divinas são as lágrimas de gratidão oferecidas à Fonte, ao Amado Supremo, o Piloto Interior, o Amigo Eterno….
Você pode nos falar sobre por que há uma atração crescente pela meditação na América?
Sri Chinmoy: As pessoas têm demonstrado interesse considerável pela meditação justamente porque não estão satisfeitas com o que têm e o que são. Elas querem algo mais significativo e frutífero em suas vidas. Elas tentaram de todas as maneiras possíveis obter essa coisa, mas infelizmente não a obtiveram ou alcançaram. E portanto sentem agora que a meditação é a resposta. As pessoas estão tentando explorar a meditação para terem alguma satisfação na vida.
Agora tentaremos esvaziar a mente. Certamente, é a tarefa mais difícil, mas o faremos. Nossa mente fez amizade com pensamentos abundantes. Esses pensamentos são insalubres, inadequados, não aspirantes e não divinos. No momento que o nosso coração-aspiração elimina um pensamento, para sua surpresa, um novo pensamento surge imediatamente. Parece que somos forçados a jogar um jogo sem fim.
Mas há um outro jogo, o jogo da força de vontade. Herdamos esse jogo do nosso Pai, o Senhor Supremo. Quando jogamos esse jogo, transformamos nosso mundo-pensamento no mundo-força-de-vontade.
De onde obtemos essa força de vontade? Obtemos do nosso mar-tranquilidade. Onde adquirimos esse mar-traquilidade? Obtemos ele do sol-liberdade e céu-unicidade da nossa vida.
Um homem de força de vontade encara todas as tempestades e intempéries da vida. Ele sabe que não é o corpo terra-limitado, mas sim a alma Céu-liberta. Ele também sabe que não é um escravo da sua natureza, mas também um instrumento supremamente escolhido do seu Piloto Interior, seu Amado Supremo. O que ele realmente tem e verdadeiramente é é a chama-aspiração, e essa chama-aspiração o faz sentir sempre Céu-liberto. Ele está no mundo, é verdade; mas ele não é do mundo. Ao mesmo tempo, ele sabe que existe para o mundo, para a transformação do mundo e para a manifestação de Deus em e através do mundo. Ele é sempre por este mundo.
Esvaziemos a mente. No vazio da nossa mente estará a Paz da Infinitada, a Luz da Eternidade e o Deleite da Imortalidade. Esvaziemos a mente.
Concentração
por Sri Chinmoy
Na vida espiritual, temos de usar a nossa concentração todo o tempo, a cada segundo. Se não sabemos nos concentrar, ficamos perdidos; é o nosso fim. Podemos meditar por dez horas, mas não teremos qualquer resultado satisfatório.
Concentração é a nossa atenção completa ou integral em algo em particular. Focamos nossa atenção num objeto ou tema e esquecemos completamente do resto do mundo. Não permitimos que o resto do mundo adentre a nossa mente. Apenas nós e o objeto da nossa concentração existem. Quando não há uma terceira pessoa diante de nós ou ao nosso redor, isso é concentração.
Trechos do discurso de Sri Chinmoy no Auditório Dag Hammarskjold em 12 de Setembro de 1974, na sede da ONU.
A meditação pode aumentar a liderança? A resposta é afirmativa. A meditação consegue e melhora a liderança. Mas devemos saber o que queremos dizer com meditação. Se meditação quer dizer uma vida de reclusão, se a meditação é apenas um triunfo individual sobre si, essa meditação nunca aumentará a capacidade de liderança. … Apenas quando há duas pessoas é que a liderança é importante ou necessária. Eu tomo a frente, ou outra pessoa toma a frente.
Mas, se meditação é uma expansão da nossa consciência, se na meditação somos para todos e de todos – que somos da nossa divindade interior e existimos pela humanidade aspirante – nossas qualidades de liderança estão destinadas a aumentar. Se encararmos a liderança como algo qualitativo, devemos sentir que a luz da meditação fará com que a qualidade vá do luminoso ao mais luminoso e ao luminosíssimo. Se encaramos a liderança como algo quantitativo, podemos dizer que a luz da meditação nos permitirá transformar o muito em muito mais, e o muito mais no máximo.
Quando encontramos liderança, o físico em nós se rende, porque está ciente das suas limitações… O vital em nós enxerga a liderança como uma espécie de desafio do mundo interior ou exterior. Após aceitar o desafio, o vital quer conquistar e dominar o mundo a seu redor… Na liderança mental, percebemos que o mundo ao nosso redor é todo imperfeição e que apenas o nosso mundo mental é perfeito…. Mas há um outro tipo de liderança, a liderança psíquica, a liderança do coração. Ela é totalmente diferente da liderança mental e vital. A liderança psíquica é fundada na percepção e unicidade interior com a realidade como um todo. Aquele que lidera no coração é o verdadeiro líder. Não se trata de uma liderança autoinventada. Essa liderança é o reconhecimento da unicidade inseparável com o resto da humanidade. Um é por todos, e todos são por um. …
No mundo exterior, o líder é aquele que tem mais capacidade do que um ou muitos outros indivíduos. Se a sua capacidade é muito maior, ele se torna o líder. Mas na vida espiritual é diferente. Na vida espiritual, a verdadeira liderança depende da consciência que se tem da realidade e a aceitação constante dessa realidade como parte integrante de si. Se alguém consegue aceitar a realidade ao seu redor como parte de si a despeito das imperfeições, limitações e amarras, ele é o verdadeiro líder – e não aquele que possui um pouco mais de capacidade do que outro ou do que o resto do grupo. Aquele que considera seus irmãos e irmãs parte de si, aquele que aceita o desafio da ignorância e se coloca diante da noite-ignorância determinado a conquistá-la e transformá-la numa enchente de Luz – esse é o verdadeiro líder. Na vida espiritual, liderança é o nosso desejo consciente de ser um instrumento escolhido do Supremo.
Aforismos meditativos do livro 77.000 Service-Trees, vol 50, escrito por Sri Chinmoy
Como meditar com os poemas: você pode ler o aforismo umas três, quatro ou seis vezes. Depois medite em silêncio por uns minutos. Depois leia mais algumas vezes, e medite mais um pouco. Tente terminar sabendo o aforismo de cor. Você pode lembrar dele durante o seu dia várias vezes, e até recitar em voz alta ou em silêncio enquanto caminha.
Pergunta: Quando fico ciente de que a minha consciência baixou bastante eu costumo sentir que, ao tentar erguê-la, eu não estou sendo sincero ou que seja um esforço apenas mental, e até mesmo que o esteja fazendo de maneira forçada ou inadequada. Qual a melhor maneira de, quando percebemos que nossa consciência caiu, reerguê-la?
Sri Chinmoy: A melhor coisa é render a sua vida não divina à sua vida divina. Ao cair de uma árvore, certamente sabe o que o fez cair. Você não pode realizar Deus da noite para o dia; também não pode cair até o ponto mais baixo da noite para o dia. Você está conosco há quatro ou cinco anos, e sabe o quão sinceramente tentou fazer progresso. Foram necessários vários anos para que fizesse tal progresso. Tudo isso irá embora de imediato? Não, não funciona assim. Irá lentamente, lentamente, lentamente. Porém, se fizer algumas coisas extremamente não divinas, naturalmente a sua queda será mais rápida, mas isto ainda não quer dizer que da noite para o dia você cairá ao pé da árvore. Descerá, digamos, um passo ou alguns centímetros.
Caso sinta que está caindo, há um método de evitar a queda. Quando cair, lembre-se da sua melhor expe-riência interior, de maneira devotada e de alma plena. Não há um único discípulo que não teve uma ou duas experiências maiores, de acordo com a sua própria capacidade ou receptividade. Pense imediatamente naquele acon-tecimento. Se um dia eu demonstrei um tremendo amor, gratidão ou compaixão e você sentiu que se não tivesse mais nada a receber já estaria de posse de algo importante, traga esse acon-tecimento à frente de sua visão. Caso o tenha por escrito, veja, entre nele e se torne um com ele, e eu lhe digo, imediatamente a sua queda cessará. De imediato retornará à sua estatura. Alguns Mestres espirituais fizeram isso quando tiveram de superar períodos de aridez; por seis meses eles teriam boas meditações e por um ou dois meses não seriam capazes de meditar de forma alguma. Vivekananda costumava ter esse problema. Tinha realizações muito sublimes e elevadas, e ele as escrevia em um grande caderno. Então ele as lia, e imediatamente se tornava um com aquelas experiências e novamente estava em sua estatura antiga. Suas meditações seriam mais uma vez bastante poderosas.
Quando sua meditação não for profunda e você sentir que está caindo, busque lembrar de alguma experiência significativa. Você pode estar se afogando, mas há alguém na margem para salvá-lo e você estende a mão em direção àquela pessoa. A pessoa é a sua própria experiência. Você a toca, ela segura a sua mão, e você está a salvo. Ela representa a sua própria experiência mais elevada, sublime, a qual você teve há talvez dois ou três anos.
Se quiser ter sonhos doces, sonhos inspiradores, você deverá meditar com toda alma de manhã cedo – às três, quatro ou mesmo cinco horas. Se você costuma acordar as cinco, levante-se às quatro horas. Tome uma ducha adequada e medite por pelo menos meia hora. Após a meditação, sente-se ou deite-se e se concentre no seu umbigo. Não pense em sonhos. Tente sentir que o seu chakra umbilical está se abrindo. Imagine que uma roda está girando bem rápido lá. Porque você meditou por meia hora, não precisará se preocupar com o fato de estar entrando nesse chakra, mesmo se tratando do chakra vital. Volte a dormir por meia hora ou quarenta minutos. Se a sua meditação foi boa e genuína, se veio das profundezas do seu coração, quaisquer sonhos que tenha depois dela serão divinos, dinâmicos, belos, coloridos e repletos de alma. Serão sonhos sobre anjos e deuses, ou sobre a sua vida espiritual. Ou então você verá algumas coisas inspiradoras, encorajadoras. …
Se você quer ter sonhos dos mundos superiores e não dos mundos inferiores, antes de dormir medite por pelo menos cinco minutos no centro umbilical e nos centros abaixo do umbigo. Você fará isso para trancar as portas que levam a esses centros. E medite por cinco minutos no seu centro cardíaco e nos centros acima do coração. Você fará isso para destrancar as portas que levam a esses centros. Enquanto tranca as portas do centro umbilical e dos centros inferiores, tente sentir a energia dinâmica e vulcânica de um herói-guerreiro. Enquanto destranca o centro do coração e os centros superiores, tente sentir a alegria e o deleite de uma criança. Se puder fazer isso, sem falha você terá sonhos dos mundos superiores.
Eu deveria orar para não ter sonhos ruins, ou seria melhor simplesmente deixar que os sonhos que vierem venham?
Primeiro medite no coração e sinta a verdadeira presença da luz. Então pegue essa luz e lance-a no escuro abismo do umbigo para sua purificação. Você não terá sonhos ruins porque o seu vital estará purificado.
Por que é que eu tenho uma meditação maravilhosa e durante a noite tenho sonhos vitais impuros?
Quando você tem sonhos vitais, isso quer dizer que o seu vital deve ser purificado. Se deixar o seu quarto bagunçado, você não pode esperar entrar no quarto e de repente encontrar tudo espontaneamente limpo. Você tem de entrar no quarto e tentar limpar a bagunça, colocando algo de lado e jogando fora outras coisas.
Durante a sua meditação, você está recebendo luz. Quando essa luz entra no seu ser, ela pode mostrar que o seu vital necessita de purificação.
Se você entrar num quarto escuro sem uma luz, não enxergará nada e talvez ache que está tudo certo. Mas uma vez que ligar a luz, verá que nada está certo, que todos os tipos de forças destrutivas estão no quarto. Isso é bom, porque então você estará em posição para transformar essas forças. Quando obtém paz, luz e deleite da sua meditação, você tem a possibilidade de entrar no seu vital e purificá-lo. Quando tiver uma meditação poderosa, tente trazer a luz da sua meditação para o vital. Os sonhos serão purificados pelo poder da sua meditação.
Como podemos obter mais controle sobre a pureza no estado de sonho?
… Se você puder meditar em pureza com toda a alma e se puder ser perfeito na sua vida interior durante o dia, eu lhe asseguro que também será perfeito mesmo enquanto dorme profundamente. Uma vez que tenha pureza nos sonhos, ficará muito satisfeito, pois sonho representa realidade, e realidade representa sonho. O que você sonha é realidade em algum outro mundo, num mundo superior ou num mundo inferior. Se puder ter certa mestria sobre a impureza no mundo físico, eu lhe asseguro que no mundo dos sonhos também você terá mestria sobre a sua impureza.
Pergunta: Como posso continuar a minha aspiração durante o sono?
Sri Chinmoy: Antes de dormir, medite com toda alma e sinta que essa meditação é como seu guia consciente, que o levará até a sua meta. Você segue o guia. Ele o carregará durante o sono e o colocará no seio do acordar.
Qual é a diferença entre sonhos humanos e o Sonho de Deus?
Há uma grande diferença entre os sonhos humanos e o Sonho divino de Deus. Os sonhos humanos são apenas fantasias mentais. Na maior parte do tempo, são apenas pensamentos fortes, ideias ou invenções. Por vezes nos tornamos vítimas de forças hostis que nos fazem sonhar todo tipo de coisas horríveis. Ou criamos as nossas próprias fantasias, que podem aparecer como sonhos durante a noite. O Sonho de Deus é o Sonho divino que é precursor da Realidade. …
Qual é a melhor forma de sabermos o significado dos nossos sonhos?
É muito difícil dar o valor certo aos sonhos. Assim como há sete mundos superiores e sete mundos inferiores, também há muitos mundos dos sonhos. Se alguém tem um sonho num mundo particular, o seu significado será um e, se o tiver num mundo de sonhos mais elevado, o significado será totalmente diferente. Cada plano deve ser conhecido e compreendido corretamente. Cada plano oferece a verdade de uma maneira particular.
Muitos livros foram escritos sobre sonhos. Cada um tem a sua maneira própria de explicar os sonhos. Se você ler livros sobre a interpretação dos sonhos, cada livro mostrará um significado diferente para um mesmo evento similar. Não é possível existir uma explicação padrão dos sonhos porque se deve conhecer de que plano o sonho está vindo. …
Eu senti que estava subindo uma colina muito íngreme com uma grama verde e bela. Estava ficando muito íngreme, e eu fiquei com medo, mas continuei subindo com a ajuda de uma pessoa não identificada. Quando eu estava prestes a chegar ao topo, fui distraído por algumas monjas oferecendo flores.
Eu gostaria de dizer que o caminho espiritual é muito árduo e muito íngreme. Quando você tem de subir, é muito difícil. Os seres que você viu não eram monjas; eram anjos. Mas você sentiu no sonho que eram monjas porque a sua mente física estava operando. A sua mente física não queria que você visse anjos, porque não queria que você sentisse tanta alegria. A mente é assim. Ela destrói tudo. Com o seu coração, você foi muito alto, mas a sua mente quis diminuir a sua alegria e fez com que você os visse como monjas. Se a mente não tivesse interferido, você teria ficado muito feliz em ver anjos com flores.
Durante várias manhãs eu ouvi um pássaro cantando uma bela música durante o meu sono, como uma flauta. Mas, quando eu acordo, não consigo me lembrar da música.
Esse pássaro é a sua alma, e a música está vindo da sua alma. Quando você está dormindo, a sua consciência possui um livre acesso à sua alma. Mas quando acorda e volta à vida comum, não consegue manter esse livro acesso, pois a sua consciência física não está em contato com a sua alma. Se tiver uma meditação bem poderosa antes de ir para a cama, será capaz de manter a consciência da alma na manhã seguinte. Durante a sua meditação, tente sentir que você não é o corpo, mas sim a alma, e, ao mesmo tempo, que você existe para a alma. Então facilmente conseguirá se lembrar da música do seu pássaro-alma.
Se você meditar no coração, meditará onde está a alma. É verdade que a luz e a consciência dela permeiam o corpo todo, mas existe um lugar onde a alma mora a maior parte do tempo: o coração. Se você quiser iluminação, precisa consegui-la por meio da alma, que está dentro do coração. Quando sabe o que quer e onde conseguir, o mais sensato é ir até o lugar certo. Senão, será como ir até a loja de ferragens para comprar legumes.
Há uma grande diferença entre o que pode ser obtido com a mente e o que pode ser obtido através do coração. A mente é limitada. O coração é ilimitado. Nas suas profundezas, você é paz, luz e bem-aventurança infinitas. Conseguir uma quantidade pequena é uma tarefa fácil. Meditar na mente pode lhe proporcionar isso. No entanto, você poderá conseguir infinitamente mais se meditar no coração. Digamos que você tem a oportunidade de trabalhar em dois lugares. Num deles, o salário é de duzentos dólares. No outro, quinhentos. Se for sábio, não desperdiçará o seu tempo no primeiro lugar.
Enquanto tiver uma tremenda fé na mente, que complica e confunde tudo, é certo que ficará decepcionado com a sua meditação. As pessoas comuns pensam que complicação é sabedoria. Mas as pessoas espirituais sabem que Deus é muito simples. É na simplicidade, e não na complexidade, que habita a verdadeira realidade.
Não estou dizendo que a mente é sempre má. Nem sempre é isso. Mas ela é limitada. No máximo, o que você pode conseguir dela é inspiração, que também é limitada. Para uma aspiração verdadeira, você precisa ir até o coração. A aspiração vem do coração porque a iluminação da alma está sempre lá presente. Ao meditar nele, você não só consegue a aspiração, mas também alcança o a satisfação dessa aspiração: a paz, a luz e a bem-aventurança infinitas da alma.
A meditação no coração
É melhor meditar no coração do que na mente. A mente é como a Times Square, em Nova Iorque, na véspera do Ano Novo. O coração é como uma caverna solitária no Himalaia. Se você meditar na mente, talvez seja capaz de meditar por cinco minutos. Desses cinco minutos, talvez durante um só medite poderosamente. Depois, você vai sentir que a sua cabeça inteira está ficando tensa. Primeiro, você obtém alegria e satisfação. Em seguida, poderá sentir um deserto árido. Entretanto, se você meditar no coração, vai adquirir a capacidade de se identificar com a alegria e a satisfação que está recebendo. Assim ela será permanentemente sua.
Se você meditar na mente, não vai se identificar. Você procurará entrar em alguma coisa. Se quiser entrar na casa de alguém para pegar o que ele tem, você precisará quebrar a porta ou implorar para que o dono da casa a abra. Implorando, você se sentirá como um estranho, e o proprietário também achará a mesma coisa. Então, ele pensará: “Por que eu deveria deixar que um estranho entre na minha casa?” No entanto, se você usar o coração, imediatamente as qualidades de suavidade, doçura, amor e pureza virão à tona. Quando o dono da casa perceber que você é todo coração, imediatamente o próprio coração dele se tornará um com o seu, e ele o deixará entrar. Ele vai sentir a sua unicidade e dirá: “O que você quer da minha casa? Se precisa de paz, pode pegá-la. Se precisa de luz, pode pegá-la também”.
Mais uma coisa: se entrar na casa com a sua mente, verá alguns frutos deliciosos e no mesmo instante tentará pegá-los. Você ficará satisfeito ao consegui-los, mesmo que não seja capaz de comer tudo. Mas, se usar o coração, verá que o seu grau de receptividade é ilimitado. Usando a mente, você tentará selecionar. Você dirá: “Este fruto é melhor. Este outro é pior”. Todavia, se entrar na casa com o seu coração, sentirá que tudo ali é seu e aproveitará tudo. O centro do coração é o centro de unicidade. Primeiro, você se identifica com a verdade. Depois, através da sua identificação, transforma-se na verdade.
O significado de Namastê, Gruss Gott, Graças a Deus
por Patanga Cordeiro
Graças a Deus
Recentemente, tive umas boas meditações e, como sempre, o resultado no dia a dia é claro. Falando com as pessoas, de repente alguém fala um “Graças a Deus”, e o significado literal me salta aos olhos. Sim, é graças a Deus mesmo que essas coisas acontecem. Não é só uma figura de linguagem. É uma realidade sólida, muito mais sólida e muito mais realidade que qualquer outro fato do nosso cotidiano.
… A graça divina está constantemente descendo sobre nós. Aqueles que estão aspirando sinceramente são conscientes desta Graça divina, mas aqueles que não estão aspirando estão mantendo a sua porta do coração permanentemente fechadas. Se nós sentimos que o Supremo é a Graça, então nós devemos ver Suas infinitas qualidades, Paz, Luz e Bem-Aventurança, estão prontas no processo de entrar em nós, continuamente seguindo em e através de nós e tornando-se parte e parcela de nossa vida interior e exterior. Nós temos somente que permitir o fluxo da Graça nos carregue para dentro da Fonte, que é o Supremo.
A Graça de Deus é como os raios de sol. O sol está sempre lá, mas o que nós fazemos? Nós acordamos tarde. Ao invés de acordar as cinco e meia ou às seis horas, nós acordamos às oito ou às nove horas. Então nós não temos a benção do sol da manhã. E quando nós levantamos, nós mantemos as portas e janelas todas fechadas e não permitimos que a luz do sol entre na nossa sala….” -Sri Chinmoy, Deus É
Namastê
Namastê literalmente significa “curvo-me diante de Ti”; a palavra provém do sânscrito namas, “curvar-se”, “fazer uma saudação reverencial”, e (te), Ti. A intenção é que você revência a Deus que habita dentro da outra pessoa. O hóspede é sagrado no oriente, e mesmo se você estiver fazendo um “favor” à outra pessoa, você está ciente de que Deus na outra pessoa está lhe dando a oportunidade de servi-Lo diretamente.
“…do ponto de vista espiritual, é muito importante tentar ver Deus dentro dos seus filhos. Quando falarem com eles, vocês têm que sentir que estão oferecendo o seu amor ao Piloto Interior nelesdentro deles. Quando estiverem lhes dando sabedoria, têm que sentir que entre vocês há alguém que é uma ponte, e esse é Deus. Vocês estão amando aos seus entes queridos, precisamente porque Deus, o Amor eterno, está dentro de vocês e dentro deles. Vocês mostram compaixão a eles porque a Fonte eternamente compassiva está dentro de vocês.” – Sri Chinmoy, O Coração e os Sonhos de uma Criança
Gruss Gott
Por coincidência conversei recentemente no telefone com colegas que falam alemão, e eles me atendem costumeiramente com “Gruss Gott!”, “Que Deus (dentro de si) seja bem-vindo!”
Grüß Gott é a forma abreviada das expressões Grüße dich Gott (“Saudações a Deus”) …em gaélico a saudação popular é Dia dhuit (‘Deus com você’), semelhante ao ‘adeus’ em português, uma contração de ‘Deus fique com você’;… Situação semelhante pode ser verificada na expressão formal catalã Adéu-siau (“Fique com Deus” em catalão arcaico). Por outro lado, a origem religiosa ainda é evidente no adieu francês, no adiós espanhol, no addio italiano, no ‘adeus’ português, e no adeu catalão (“A Deus”, provavelmente uma contração de “Confio-vos a Deus”). Fonte
por Patanga Cordeiro, numa interpretação pessoal baseada nos ensinamentos de Sri Chinmoy
Mitos da meditação – o que fazer ou não fazer
Meditar de olhos fechados é mais fácil
Meditar de olhos fechados induz você a relaxar, a dormir, a divagar. Isso não é meditação, é relaxamento.
O jeito mais fácil de meditar é com os olhos abertos (ou entreabertos, um pouco relaxados), de forma a conseguir se concentrar bem no objeto que usa para se focar e ficar bem desperto e atento. Sim, exige um esforço extra, mas, se não quisesse se esforçar, poderia relaxar apenas. Meditação é uma guerra de auto-descobrimento, e exige força de vontade, perseverança, determinação, entrega e paciência, entre outras coisas.
Usar vídeos do Youtube para meditar é bom?
Usando o computador, telefone celular ou equivalente, a sua mente vai ficar mais ativa, mais informada, mais inquieta. Para meditar, o que você precisa é de uma mente vazia, um coração aberto e um anseio interior genuíno. Nenhuma dessas coisas você vai encontrar na internet, seja no site que for ou no formato de mídia que for.
Meditação para acalmar ansiedade, depressão, déficit de atenção, melhorar concentração, etc
Por milênios o ser humano praticou a oração e meditação com o propósito de auto-descobrimento e satisfação do divino em nós. Nas últimas décadas, parece que, nos meios suscetíveis de comércio (mídia, instituições de ensino e saúde), surgiu a informação de que a meditação é um tratamento (por vezes com resultados “mágicos”) de saúde para ansiedade, depressão ou outras condições de saúde como déficit de atenção. A atenção é necessária para a meditação – a concentração é um passo preliminar para a meditação. Ou seja, primeiro você precisa aprender a se concentrar, e depois a meditar.
A comercialização das coisas é um tópico recorrente nos tempos de capitalismo acirrado, mas não necessariamente fará bem para o buscador que existe dentro de nós.
Pode ser que a meditação ajude no tratamento da ansiedade e depressão, e eu mesmo não tenho argumentos e nem conhecimento técnico para dizer se sim ou se não, mas sinto pessoalmente que não é por esse motivo que alguém deva começar a meditar como uma prática espiritual. O necessário para ter uma boa meditação é um anseio interior sincero ou a Graça de Deus.
Oração e meditação é algo para o fim da vida, para a velhice
Você pode comparar a prática espiritual como uma poupança ou investimento financeiro. De nada adianta começar no fim da vida. Você precisa começar cedo, para que ela renda e lhe propicie resultados que você possa desfrutar durante a sua vida toda.
Como tudo na vida, a prática espiritual da oração e meditação deve ser começada o mais cedo possível, de acordo com as circunstâncias da vida do buscador individual. A vida de desejos e prazeres consome nossa energia vital, e, ao fim da vida, podemos estar desprovidos de energia suficiente para fazer progresso espiritual rápido e certeiro. Teremos também uma carga emocional, mental, física maior, que pode dificultar o progresso da nossa transformação. Quanto menos bagagem, quanto menos coisas da nossa vida pregressa trouxermos para a vida espiritual, menos teremos de preparar o terreno para podermos decolar e voar alto!
O físico não tem nada a ver com o espiritual
‘Anima sana in corpore sano’ é um ditado famoso e universal do latim, que diz, literalmente “alma sadia num corpo sadio”. (Por sinal, a marca japonesa de tênis de corrida ASICS é um acrônimo desse ditado em latim.)
Mas não é só a alma que fica mais sadia num corpo sadio. Suas emoções inferiores também são transformadas mais rapidamente num corpo dinâmico. O seu coração espiritual e suas qualidades divinas têm mais oportunidades de vir à tona se o corpo estiver em boa forma, forte e dinâmico. Mas lembre-se: isso não quer dizer agressivo, orgulhoso ou inquieto.
Alguns Mestres espirituais modernos e também de tempos ancestrais, de milhares de anos antes do Cristo, recomendam aos seus alunos a prática diária de esportes e exercício físico, para manter o corpo e vital em condição adequada para ser um instrumento para experiências mais elevadas.
Aforismos meditativos do livro 77.000 Service-Trees, vol 50, escrito por Sri Chinmoy
Como meditar com os poemas:
Para meditar neles, você pode ler o aforimo umas três, quatro ou seis vezes. Depois medite em silêncio por uns minutos. Depois leia mais algumas vezes, e medite mais um pouco. Tente terminar sabendo o aforismo de cor. Você pode lembrar dele durante o seu dia várias vezes, e até recitar em voz alta ou em silêncio enquanto caminha.
por Patanga Cordeiro, numa interpretação pessoal baseada nos ensinamentos de Sri Chinmoy
Usando o computador, telefone celular ou equivalente, a sua mente vai ficar mais ativa, mais informada, mais inquieta. Para meditar, o que você precisa é de uma mente vazia, um coração aberto e um anseio interior genuíno. Nenhuma dessas coisas você vai encontrar na internet, seja no site que for ou no formato de mídia que for.
A simplicidade é uma das qualidades importantes para aprendermos a meditar bem.
Quanto mais informação você tiver, mais difícil ficará meditar, principalmente se for informação de diversas fontes – e a internet/Youtube/Google é feito com o propósito explícito de dar toda essa informação (da qual o seu Eu verdadeiro não precisa) continuamente a você, sendo programada para fazer isso da forma mais eficiente e viciante possível.
Isso sem falar na possibilidade de exploração comercial do conteúdo que você usar. Por exemplo, alguém que não sabe meditar de verdade e nem ensinar meditação de verdade pode usar a sua ingenuidade para ganhar dinheiro com a monetização das propagandas dos sites através de conteúdo com palavras chamativas.
E mais: imagine-se fazendo a sua meditação por algumas semanas ou meses e pela primeira vez começa realmente a ter uma meditação de verdade, profunda. Você fica surpreso ao perceber o mundo que há dentro de você. Então o vídeo/áudio/aparelho pausa sozinho e começa uma propaganda de automóvel (ou qualquer outra coisa) com uma música muito mais alta do que o do vídeo que estava assistindo (as propagandas costumam ser assim, não é verdade?), arruinando semanas de prática e a oportunidade única que culminaram naquele momento.
Os seres humanos meditaram bem por dezenas de milhares de anos, aprendendo uns com os outros ou com os livros dos Mestres realizados e sua orientação direta – será que algo que surgiu de repente poucos anos atrás vai mudar esse processo que foi bem-sucedido por mais de dez milênios? O ser humano que acessa a internet diariamente buscando informação ou entretenimento é tão diferente ao ser humano de entre trinta anos atrás e dez mil anos atrás, que lia livros e conversava com as pessoas e praticava com simplicidade?
Sri Chinmoy tem alguns dos seus videos disponíveis para assistir, mas a ideia nunca é substituir a presença, mas sim apenas como uma forma das pessoas encontrarem algo e então se dedicarem presencialmente.
Aforismos meditativos do livro 77.000 Service-Trees, vol 50, escrito por Sri Chinmoy
Como meditar com os poemas:
Para meditar neles, você pode ler o aforismos umas três, quatro ou seis vezes. Depois medite em silêncio por uns minutos. Depois leia mais algumas vezes, e medite mais um pouco. Tente terminar sabendo o aforismo de cor. Você pode lembrar dele durante o seu dia várias vezes, e até recitar em voz alta ou em silêncio enquanto caminha.
Sri Chinmoy: Meditação é a percepção consciente de Deus. Somos todos buscadores. Quando somos buscadores, nosso dever é sermos conscientes de Deus vinte e quatro horas por dia. Se acreditamos em Deus, naturalmente sentiremos que ele existe. Mas esse sentimento não é espontâneo; ele não dura vinte e quatro horas por dia. Quando meditamos, chega a hora em que sentimos e percebemos vinte e quatro horas por dia que somos de Deus e existimos por Deus. A percepção constante e consciente de Deus – Sua Verdade, Luz e Deleite – é chamada de meditação.
Como podem as diferentes religiões melhor respeitar e valorizar umas às outras?
Sri Chinmoy: Cada religião deve sentir que não é nada mais senão um ramo. Se há um ramo, deve haver uma árvore. Essa árvore é o amor pela verdade. A verdade encontra a sua satisfação apenas quando abraça a Vastidão como parte de si. Cada religião deve sentir a necessidade, para a sua própria satisfação, para a sua própria perfeição, de abraçar as outras religiões. Ela nunca ficará satisfeita sozinha, nunca ficará perfeita sozinha. Duas mãos são necessárias para gerar um som. Igualmente, duas ou mais coisas serão necessárias para criar algo belo, repleto de alma e frutífero. Mas, quando mergulhar fundo, verá que não são duas ou três coisas: verá uma única coisa operando através de muitas formas, muitas ideias, muitos ideais e realizações.
É possível alguém alcançar o estado de realização-Deus praticando a própria religião devotadamente?
Sri Chinmoy: Sim, praticando a religião, pode-se realizar Deus. Mas é precisa saber que há algo mais elevado e mais profundo do que a religião, que é o anseio interior constante. A religião nos dirá que Deus existe. Ela nos dirá que temos de ser bons, gentis, simples, sinceros e puros. Isso a religião será capaz de nos oferecer. Essa é a religião geral. Mas há também a religião espiritual, que é mais elevada e profunda. Ela nos dirá que não basta apenas saber que Deus existe. Temos de ver Ele, senti-Lo e devemos nos tornar Deus. Isso fazemos através da oração e meditação.
Porque a referência a Deus ou religião deixa tantas pessoas desconfortáveis?
Sri Chinmoy: As pessoas se tornaram muito sofisticadas; o que têm agora é uma consciência como a de uma máquina. Tudo aquilo que não lhes traz satisfação no plano físico, vital ou mental, ou qualquer coisa que não exista diante dos seus narizes, eles sentem ser irreal, vergonhoso. E qualquer coisa que não conheçam ou não consigam conhecer imediatamente, ou qualquer coisa de que não precisem imediatamente em suas vidas, a essas coisas não dão valor.
(…)
Você poderia explicar a diferença entre “fervor religioso” e “Deleite”? Eles se complementam?
Sri Chinmoy: Não. O fervor religioso pode ser no vital, na mente ou em outra parte da nossa existência. Ele pode nos satisfazer apenas no nível vital ou mental. O fervor, a alegria religiosa obtemos principalmente no nível vital. Mas quando vivenciamos Deleite, ele permeia nosso ser por completo. O Deleite é algo infinitamente mais elevado do que o fervor religioso. É através da nossa unicidade com o Supremo Absoluto, ou através da nossa dedicação completa à Sua Vontade, que obtemos Deleite. O Deleite age na nossa própria existência interior imorredoura e inata, para a manifestação plena do divino dentro de nós. Portanto, são coisas diferentes.
A religião é indispensável para a realização-do-Eu?
Sri Chinmoy: Tudo dentro de nós que é bom é responsável pela realização-do-Eu. Mas se você perguntar o que é indispensável, eu direi que apenas uma coisa é indispensável, que é o nosso clamor interior, o nosso clamor constante e mais profundo.
Fui criada na tradição católica romana, mas quando cresci parei de ir à igreja. Agora que estou novamente interessada na vida espiritual, minha mãe não consegue compreender por que eu não quero voltar a frequentar a igreja. Como eu poderia explicar isso para ela?
Sri Chinmoy: Você pode dizer à sua mãe que você estudou naquela escola e não se interessou muito. Agora você está estudando em outra escola, gosta do professor, gosta dos alunos e gosta do que está sendo ensinada. A igreja católica ensina Verdade, Luz, Paz e Deleite. Você também está buscando trazer à tona a Verdade, Luz, Paz e Deleite, de uma maneira diferente. Se enxergar a igreja católica romana como uma escola e a nossa organização espiritual como outra escola, terá todo o direito de dizer que gosta mais de uma escola do que da outra, e que é por isso que frequenta essa escola.
Como a disciplina religiosa difere da disciplina espiritual?
Sri Chinmoy: A disciplina religiosa não espera que você ore e medite a cada segundo da sua vida. A disciplina religiosa pode lhe sugerir ir à igreja uma vez na semana e orar para Deus. Isso basta para a disciplina religiosa. Mas se for uma disciplina espiritual, ilha de dirá que deve estar consciente de Deus vinte e quatro horas por dia e orar e meditar pelo menos duas vezes por dia – de manhã e à noite. A disciplina espiritual é um processo constante, consciente. Ela é infinitamente mais importante do que a disciplina religiosa, pois, quando se pratica disciplina espiritual, tenta-se ser um instrumento vivo consciente e constante de Deus, para que Deus possa Se manifestar em a através de nós da Sua própria Maneira. Quando seguimos uma disciplina espiritual, ao fim da estrada descobrimos que estamos nos tornando a Imagem de Deus. Seguindo uma disciplina religiosa, ao fim da estrada diremos que viemos e vimos a meta. A disciplina religiosa irá, no máximo, levá-lo até a meta, ao passo que a disciplina espiritual ou iogue não apenas o levará até a meta, mas também fará com que sinta que você é a própria meta.
Pergunta: Existe algo que podemos fazer para manter a inspiração que tínhamos no começo do ano? Geralmente em março já desisti da minha promessa de ano novo.
Sri Chinmoy: Ao invés de uma promessa, você pode ter doze projetos. Agora é janeiro. Neste mês, sinta que vai cumprir um projeto, não a ferro e fogo, mas com sua maior aplicação, sua maior aspiração. No fim do mês, se não tiver sucesso, esqueça-o totalmente. Sinta que aquele mês não existiu na sua vida. Se pensar: “Já que eu falhei em janeiro, não há esperança de sucesso em fevereiro”, ficará totalmente perdido. Se falhar em janeiro, sinta que esse mês não existiu no seu calendário. Isso não é auto-engano; isso é sabedoria. Qualquer coisa que não o deixe correr o mais rápido possível em direção à meta é inimiga sua. Todavia, se você tiver sucesso, pode ser sábio e falar: “Cumpri a promessa em janeiro. Agora, também preciso cumpri-la em fevereiro”.
Perfection and Transcendence, p. 42-43
Sri Chinmoy: Vocês podem retomar a intensa aspiração, que todos vocês possuíam quando aceitaram a vida espiritual, através de dois sentimentos. Primeiro devem sentir que o que conquistaram ou receberam até o presente momento não é nada se comparado com o que de fato necessitam de seus interiores ou das alturas. Sim, você alcançou ou recebeu algo; tem feito uma ótima, excelente meditação. E é tudo verdade. Mas em termos do que você ainda receberá ou se tornará, não é nada, nada, nada. Você lembra do que possuía e o que era há dez anos atrás. Agora você possui algo, e se tornou alguma coisa. Mas seja sincero! O objetivo está bem em frente ao seu nariz ou ainda é uma meta distante? Ainda é uma meta distante. É suficiente o que você recebeu? Se for sincero, dirá que é quase nada se comparado com a infinita Luz que você busca. É um mínimo, absolutamente nada. Se tiver este tipo de sentimento, a sua sede cresce.
No entanto, ao sentir que o que tem é mais do que o suficiente, uma postura complacente se cria. Talvez pense que meditou muito bem muitas vezes nesta encarnação e que já fez isto ou aquilo pelo Centro, e mesmo se não fizer nada mais, Deus se agradará com você. Quando os discípulos têm esta postura, sentindo que fizeram o suficiente por esta encarnação, não há movimento de avanço. Somente ao dizer que não fizeram nada se comparado com o que podem fazer, é que surge um clamor interior. O que possuem até o momento está entre vocês e seu Guru, entre vocês e Deus. Mas devem saber que o que ainda não receberam é infini-tamente mais importante do que o que já possuem. Dessa maneira, ao sentirem que ainda há algo infinitamente mais valioso, naturalmente buscarão read-quirir a sua aspiração e almejar por tal coisa.
Antes de aceitar a vida espiritual, quando estava na vida-desejo, quando primeiro pensou em entrar para a vida de aspiração, você sentiu que esta vida de aspiração era algo que realmente traria satisfação. Por fim, você deixou a vida de desejo e entrou para a vida de aspiração. No entanto, deve sentir que esta vida-aspiração não é o suficiente. Somente a vida de realização lhe dará iluminação e satisfação. Quando estava na vida-desejo, você pensava que a vida-aspiração era tudo. E estava certo, absolutamente certo. Porém, agora você deve sentir que aspiração não é tudo. De outra forma, estará aspirando por um dia e por outros dez dias não estará. Agora a vida de realização é a sua única meta. Se tiver a vida de realização, apenas então poderá alcançar satisfação constante. Quando estava na vida de desejo, você pensava: “Aqui não há satisfação adequada.” Então, quando tinha uma gota de aspiração, obteve uma gota de satisfação. Contudo, se deseja satisfação duradoura, a realização deve se fazer conhecida.
Sinta que havia um clamor que o compeliu a saltar das margens do desejo para as margens da aspiração. Para retomar a intensa aspiração com a qual iniciou a sua jornada, pense que deve desenvolver o mesmo tipo de clamor e saltar da margem-aspiração para a margem-realização. Senão, não lhe será possível alcançar a margem-realização. Uma vez você clamou e saltou. Agora, para ser capaz de saltar você deve clamar novamente. No entanto, caso sinta que o primeiro salto foi suficiente, naturalmente não sentirá a necessidade de seguir em frente. E, se não seguir em frente, nunca ficará satisfeito. O que há de real e verdadeiro em você não ficará satisfeito.
Você desenvolve esse intenso clamor apenas ao sentir um vazio sincero. Sinta que o que possui não é nada e que você não é nada em comparação com o que possuirá ou se tornará. A sua mente física lhe dirá que você fez muito progresso pois aceitou a vida espiritual. Porém, se você recebe tanto, meditando apenas de vez em quando, então receberá muito mais ao meditar constantemente e conscientemente. Até mesmo a ganância humana lhe dirá que você possui bastante, ainda que sem ter meditado de maneira irrestrita, consciente e devotada, e portanto, se o fizer devotadamente, receberá muito mais paz, luz e alegria.
Diga a si mesmo: “Apesar de ser letárgico, apesar de ser um instrumento imperfeito, recebi tanto meditando e orando de forma desorganizada. Caso aspirasse consciente, regular e devota-damente, eu receberia muito mais.” Há muita verdade nessa abordagem humana. No entanto, a maneira divina é: “Sou muito rico, mas e daí? Deus lida com Sua infinita, imortal, eterna riqueza. O que me tornei não é nada, nada, nada em comparação com o que eu posso me tornar ou com o que me tornarei.”
Trabalhando duro, você ganha cem dólares. Tendo estes cem dólares, pode novamente trabalhar bastante e receber um milhão de dólares. Essa é a gananciosa abordagem humana. A outra abordagem é sentir que não importa o quanto recebeu, mesmo que seja um milhão de dólares, Deus possui muito mais. A mais vasta quantidade não é nada ao Olho de Deus, porque Deus possui infinita Paz e Luz. Deus sempre lida com a Infinidade. Um milhão pode ser contado, já a Infinidade não pode. Precisamos da Infinidade, mas o que temos agora não é nada quando comparada com ela.
Este modo divino de abordar a Infinidade de Deus é o modo indiano. Na Índia, as pessoas clamam Deus como sendo delas. Aqui no ocidente, infelizmente vocês têm medo de clamar a Deus. Sentem que, já que cometeram um pecado, como podem clamar a Deus como sendo de vocês? Na filosofia indiana não existe pecado. E mesmo se existisse, nós temos fé em nosso Pai e Mãe divinos. Toda a nossa poeira e sujeira irá embora no momento que formos até Eles. Eles nos lavarão. Uma criança clama a sua mãe e seu pai como seus. Onde está a capacidade de sentir de culpa? Não há culpa.
Retornando à sua pergunta, você pode começar com a gananciosa abordagem humana de forma a aumentar a sua aspiração. Se quiser se tornar o Shylock* do século vinte, tudo bem. Junte tanta riqueza espiritual quanto puder. Verá então a sabedoria despertando em você. Mesmo se tentar separar a Infinidade do finito, verá que é impossível. O finito e o Infinito sempre caminham juntos.
(*Usurário judeu e antagonista de Antonio em “O Mercador de Veneza”, de Shakespeare.)
A meditação é para todos, independentemente se uma pessoa está buscando Deus conscientemente?
Sri Chinmoy: Sim, a meditação é para todos, quer a pessoa esteja buscando Deus conscientemente ou não. O que se deve saber é o quão longe deseja ir. Alguém pode estudar no jardim de infância. Alguém pode ir para o ensino médio, universidade, mestrado ou doutorado. Mas esse é o conhecimento exterior. A meditação nos dá sabedoria interior.
Você pode estar satisfeito com uma gota de sabedoria interior. Mas você pode perceber que só ficará satisfeito com Paz, Luz e Deleite ilimitados. Depende de onde o buscador quer chegar. Assim como vamos para a escola para obter conhecimento exterior, devemos meditar para termos sabedoria interior. Se o buscador quer ficar satisfeito com apenas uma fração de Paz, Luz e Deleite, ele a terá. Se ele quiser ilimitadas Paz, Luz e Deleite, ele também as terá, contanto que continue a meditar regularmente, devotadamente, com alma, sem reservas e incondicionalmente.
Aforismos meditativos do livro 77.000 Service-Trees, vol 50, escrito por Sri Chinmoy
Como meditar com os poemas:
Para meditar neles, você pode ler o aforimos umas três, quatro ou seis vezes. Depois medite em silêncio por uns minutos. Depois leia mais algumas vezes, e medite mais um pouco. Tente terminar sabendo o aforismo de cor. Você pode lembrar dele durante o seu dia várias vezes, e até recitar em voz alta ou em silêncio enquanto caminha.
Sri Chinmoy: Meditação é a percepção consciente de Deus. Somos todos buscadores. Quando somos buscadores, nosso dever é sermos conscientes de Deus vinte e quatro horas por dia. Se acreditamos em Deus, naturalmente sentiremos que ele existe. Mas esse sentimento não é espontâneo; ele não dura vinte e quatro horas por dia. Quando meditamos, chega a hora em que sentimos e percebemos vinte e quatro horas por dia que somos de Deus e existimos por Deus. A percepção constante e consciente de Deus – Sua Verdade, Luz e Deleite – é chamada de meditação.
O que é Deus? Onde Ele está?
Sri Chinmoy: Deus está em todo lugar. Mas se não O vermos ou sentimos dentro dos nossos corações, não seremos capazes de vê-Lo em qualquer lugar. Primeiro devemos vê-Lo dentro de nós e falar com Ele dentro dos nossos corações. É quando fizermos isso que seremos capazes de ver Deus em todo lugar também. Se não temos Deus em nosso coração, não seremos capazes de falar com Deus ou nos relacionar com Ele.
Quem é Deus? Deus é sem forma e com forma. Ele é energia pura e, ao mesmo tempo, Ele é a mais luminosa forma. Ele é energia sem começo e energia sem fim. Ele é também a forma mais luminosa. Deus é água e gelo. Algumas pessoas gostam de água, e outras, de gelo. Às vezes as pessoas querem beber água, e às vezes querem gelo.
Depende do buscador e do que ele procura. Ele pode querer ver Deus de forma humano – mas absolutamente divino, supremo, perfeito. Ele sente que se houver uma forma será mais fácil reconhecer Deus ou realizar Deus. E então prefere ver o Deus personificado. Mas se alguém quer ir além do Deus pessoal, além da forma, além da dualidade e ficar sempre na Paz, Luz e Deleite infinitos, isso também pode acontecer. Além disso, o mesmo buscador pode de manhã buscar pelo Deus com formas e atributos e, de noite, ansiar pelo Deus como uma energia sem forma, ilimitada.
A meditação é para todos, independentemente se uma pessoa está buscando Deus conscientemente?
Sri Chinmoy: Sim, a meditação é para todos, quer a pessoa esteja buscando Deus conscientemente ou não. O que se deve saber é o quão longe deseja ir. Alguém pode estudar no jardim de infância. Alguém pode ir para o ensino médio, universidade, mestrado ou doutorado. Mas esse é o conhecimento exterior. A meditação nos dá sabedoria interior.
Você pode estar satisfeito com uma gota de sabedoria interior. Mas você pode perceber que só ficará satisfeito com Paz, Luz e Deleite ilimitados. Depende de onde o buscador quer chegar. Assim como vamos para a escola para obter conhecimento exterior, devemos meditar para termos sabedoria interior. Se o buscador quer ficar satisfeito com apenas uma fração de Paz, Luz e Deleite, ele a terá. Se ele quiser ilimitadas Paz, Luz e Deleite, ele também as terá, contanto que continue a meditar regularmente, devotadamente, com alma, sem reservas e incondicionalmente.
Pergunta: Como reanimar nossa força espiritual quando sentimos que ela está vacilando?
Sri Chinmoy: Quando a aspiração está vacilando, há várias maneiras de reforçá-la. Quando está oscilando, achamos difícil mergu-lharmos profundamente em nós. Odiamos meditar e, mesmo que medi-temos, a meditação não é boa. Mas o que deveríamos fazer nessa hora? Deveríamos ler livros inspiradores, escritos por almas realizadas em Deus ou por outros buscadores que estão procurando por Ele. Deveríamos sentir que o buscador sobre quem estamos lendo não é ninguém mais do que nós mesmos. Deveríamos sentir cada idéia, cada pensamento ou cada clamor de aspiração como muito nosso. O autor usou o nome dele, mas sentimos que ele escreveu sobre nossa própria aspiração. Vamos perceber, ao lermos seus escritos devotados, que o clamor dele é nosso próprio clamor. Assim como ele está indo em direção à luz, deveríamos sentir que também queremos ir em direção à luz. Ou se lermos livros de Mestres que são realizados e se tornaram unos com a consciência de Deus, tentaremos sentir, a toda hora, que a Compaixão está sendo derramada sobre nossa alma, coração, mente e vital, a partir dos escritos deles. Sentiremos que a luz-Compaixão está vindo para nós quando lemos os livros deles.
Temos de saber que a vida espiritual não é um mar de espinhos, nem um mar de rosas. Há sempre desertos na jornada da vida. Todo mundo precisa passar pelo deserto na sua aspiração. No entanto, chega uma hora em que não há deserto. É luminoso agora. O dia é seguido pela noite e a noite é novamente seguida pelo dia. Mas chega uma hora na nossa aspiração interior em que entramos numa consciência mais profunda, numa existência mais profunda. Nos tornamos um com nossa alma. Quando somos capazes de ouvir os ditames da nossa essência, quando estamos em comunhão com Deus, nossa consciência está cheia de luz. Cada pensamento, cada idéia está repleta de luz. Então, não há noite. Tudo é luz. Esse é o estado mais elevado.
Quando estamos num patamar comum, ao buscarmos, clamarmos e chorarmos, a melhor coisa é ler os livros de aspirantes ou Mestres espirituais. Ou podemos nos envolver com nossos irmãos ou irmãs espirituais que não estão tendo as mesmas dificuldades. Suponha que hoje achamos difícil meditar. Podemos ir até nosso irmão ou irmã e eles vão nos levantar. Dirão alguma coisa muito boa sobre a aspiração que viram em nós alguns meses atrás. Ou vão dizer alguma coisa sobre Deus ou sobre nosso Guru que vai nos animar. A mesma coisa pode acontecer com eles mais tarde, e virão até nós. Ter irmãos e irmãs discípulos é a maior benção para aspirantes espirituais. Existem buscadores cujos Gurus deixam o corpo e que não têm irmãos ou irmãs discípulos. Quando a aspiração deles cambaleia, eles ficam em casa rogando e chorando, até que finalmente são consolados. Entretanto, a maneira mais fácil de obter aspiração é ir até outro discípulo, e ele ou ela vai elevar sua consciência. Eles entrarão em nós e trarão à tona nossa própria luz, que agora foi encoberta com depressão, problemas, miséria e ansiedade.
Flame-Waves 12, p. 47-48
…
O erro que você e outros cometem é que estabelecem uma meta fixa. Se chega a um certo nível durante sua meditação, sente que atingiu sua meta. Ou se obtém um pouquinho de alegria na sua vida interior, imedia-tamente acalenta um sentimento com-placente. Mas eu gostaria de dizer que nossa meta é sempre transcendente. Você quer sempre repousar nos louros do passado. Ontem conseguiu uma gotinha de alegria, e hoje está clamando pela mesma gotinha. No entanto, como você sabe e o Supremo quer que obtenha essa gotinha de alegria ou se Ele quer que vá mais longe, mais alto e mais profundamente?
Quando comecei a perder peso, tinha 76 quilos. A meta, primeiro, era 74, então ela se tornou 72, 69, 68, 67 e daí em diante. Contudo, a quantidade de progresso que alguém pode fazer no plano físico é muito limitada. Posso chegar a 58 quilos, e então não vou conseguir nem um pouco a mais. No físico, a meta é sempre limitada. Você pode ir até o seu máximo e então estará acabado. Entretanto, na vida espiritual, a meta não é fixa. Não há fim no mundo interior. Aqui lidamos com o Infinito, a Eternidade e a Imortalidade. Onde está o Infinito e a Imortalidade no plano físico? A Imortalidade está na consciência. Se você desenvolveu uma consciência imortal, só assim vai servir ao Supremo pelo mundo inteiro.
Textos curtos de Sri Chinmoy sobre espiritualidade e meditação
Silêncio
Quando você medita e mergulha fundo, entra no reino de silêncio, silêncio verdadeiro. Nesse silêncio a Realidade nasce. Mas quanto está em silêncio profundo, silêncio real, silêncio espiritual, você também vê que a verdade nasce, o amor nasce, a beleza nasce. Tudo nasce e cresce e floresce. No silêncio verdadeiro, a Realidade se torna constantemente diversas formas e modos.
Sinceridade
Deus nos concede sinceridade apenas quando sentimos que seremos para sempre Seus filhos divinos. Todos são sinceros de acordo com sua percepção da sinceridade, mas um buscador deve ser sincero a todo momento no que ele diz e faz para se tornar a imagem de Deus. Sua sinceridade deve ser constante e contínua. Sua vida não deve se separar da sinceridade mesmo por um segundo.
Adoração da Alma
A adoração da alma é sempre para o Supremo. Essa adoração divina a alma recebeu do Supremo, e a alma sente a satisfação altíssima quando retorna ao Supremo as suas próprias conquistas.
A adoração da alma é a coisa mais doce na criação de Deus. No dia em que Deus criou a adoração da alma, Deus sentiu que criou algo do qual Ele pode realmente se orgulhar.
Supremo
Pense no Supremo. Você sentirá que a sua vida possui algum significado.
Medite no Supremo. Você sentirá que Deus precisa de você.
Ofereça-se ao Supremo. Você sentirá que o Supremo já lhe ofereceu o Seu alento-vida e a Sua própria existência a você, ao aspirante dentro de si, ao buscador que há em você, por toda a Eternidade.
Entrega
Na vida espiritual, quando nos entregamos, rendemos a nossa vida inferior conscientemente à nossa vida superior. Entregamos a nossa vida inferior porque sentimos que a nossa parte superior é realmente nossa. A verdadeira entrega é a aceitação consciente da vontade e sabedoria do Infinito pelo finito.
Temos de nos entregar apenas Àquele em quem temos uma fé perfeita. Não nos renderemos aos pensamentos, vontades, ordens ou exigências dos outros, mesmo se forem superiores em termos de idade ou posto. Nada disso. Nos entregaremos apenas a Ele em quem temos uma fé perfeita, à Realidade, ao Piloto interior, onde teremos nossa verdadeira satisfação.
Vontade
A vontade física dura um fugaz segundo. A vontade do vital muitas vezes cumpre o papel da destruição. A vontade mental cedo ou tarde descobre satisfação ao se contradizer. A vontade psíquica, a vontade da alma, não apenas encontra satisfação, mas também um sentimento de completude ao se identificar com a Vontade de Deus. A vontade psíquica obtém sua iluminação e sua mensagem de perfeição através da entrega incondicional à Vontade universal.
Sabedoria
O que queremos dizer com a palavra ‘sabedoria’? Normalmente quer dizer algo superior ao conhecimento, algo mais profundo. No mundo espiritual, a palavra ‘sabedoria’ não é utilizada com essa conotação. Aqui a sabedoria significa Luz, Luz iluminadora, Luz transformadora. Aquilo que ilumina a nossa consciência obscura é sabedoria. Aquilo que transforma a consciência fininha na Consciência infinita é chamado de sabedoria.
Realidade
A realidade física é quase um sonho. A realidade espiritual é Eternidade, Infinidade e Imortalidade. Se você concentrar-se diariamente na verdade, sentirá unicidade com a sua própria realidade. Esta é a sua vida real. E o que é a sua própria Realidade, a Realidade última? A Realidade última é o divino satisfeito e manifestado que um dia a humanidade se tornará.
Paciência
Paciência é uma força divina. Muitas vezes as pessoas comuns não conhecem o significado da paciência. Elas sentem que é algo feminino, uma forma de covardia ou uma maneira relutante de aceitar a verdade. Sentem que, porque não há outra forma, devemos ser pacientes. Mas se pudermos ser conscientes de forma consciente, fortaleceremos a nossa vontade interior e ampliaremos o escopo da nossa manifestação divina.
Unicidade
Unicidade com pessoas não aspirantes é jantar com a morte. Unicidade com pessoas aspirantes é dançar com Deus.
Aspiração
A aspiração incipiente de hoje não apenas é a realização satisfatória, mas também a realização satisfeita do amanhã.
Despertar
Na vida espiritual, o despertar da alma não é o suficiente. Muitas pessoas são despertas para a verdade, para a vida interior. Mas, depois de ser desperto, deve-se mergulhar, correr, voar. Deve-se mergulhar no mais íntimo, correr ao mais longínquo, voar para o altíssimo. Apenas então o despertar do buscador pode desabrochar numa flor de realização.
Aforismos meditativos do livro 77.000 Service-Trees, vol 50, escrito por Sri Chinmoy
Como meditar com os poemas:
Para meditar neles, você pode ler o aforimos umas três, quatro ou seis vezes. Depois medite em silêncio por uns minutos. Depois leia mais algumas vezes, e medite mais um pouco. Tente terminar sabendo o aforismo de cor. Você pode lembrar dele durante o seu dia várias vezes, e até recitar em voz alta ou em silêncio
É importante que cada ser humano tenha uma filosofia pela qual viva?
Sri Chinmoy: Sim, mas não a filosofia da mente. Se encarar a filosofia como uma forma de viver, essa maneira de viver deve vir da sua aspiração interior e orientação interior. Quando o seu guia interior lhe disser algo, encare aquilo como algo muito importante em sua vida. O seu guia interior lhe dirá como viver na Terra e servir a Deus e à humanidade.
Se tomar a palavra filosofia e colocá-la dentro do seu coração, você verá que a filosofia do coração, a filosofia interior, é absolutamente necessária e extremamente importante.
Você concorda que algumas pessoas são levadas à espiritualidade primeiramente através da filosofia?
Sri Chinmoy: Certamente. Não somente algumas pessoas receberam uma promoção para a espiritualidade vindas da filosofia, mas eles finalmente se tornaram gigantes espirituais. O próprio Sri Aurobindo disse que ele começou como um poeta, então se tornou um filósofo, um aspirante espiritual e, por fim, um grande Mestre espiritual. Vivekananda também estava profundamente imerso em filosofia. Em seus dias de aluno ele estudou filósofos ocidentais em profundidade. Ele costuma discutir longamente com as pessoas baseado em seu conhecimento e sabedoria filosóficos. Então ele se voltou para a espiritualidade. De forma similar, muitos que tinham uma base filosófica no início adentraram a espiritualidade e se tornaram grande personalidades espirituais.
No meu caso, a poesia, filosofia, espiritualidade e yoga* – tudo – caminharam juntos, e me tornei um faz-tudo, mas mestre de nada! Quando eu era jovem, a poesia adentrou a minha vida. Aos vinte e dois ou vinte e três anos, eu já havia estudado quase todos os filósofos ocidentais. Aos vinte e cinco eu conhecia bem a filosofia ocidental. Mas hoje eu oro a Deus para que remova da minha mente mesmo o pouco de filosofia ocidental que ainda lembro. Agora eu oro a Deus: “Tire a filosofia da minha cabeça. Mantenha apenas a espiritualidade.”
*N.d.T.: quando Sri Chinmoy se refere a yoga, ele quer dizer a busca ou realização da unicidade com Deus, e não os exercícios físicos dos diferentes tipos de hatha yoga
Quais as melhores qualidades da filosofia ocidental, quando comparado com a filosofia oriental?
Sri Chinmoy: A filosofia oriental, principalmente a filosofia indiana, nos diz: “Mergulhe fundo. Você descobrirá um trampolim. Se pular no trampolim, será capaz e ir muito alto. Mergulhe fundo para descobrir como subir alto, mas alto, altíssimo.” Esse é o modo da filosofia oriental.
A filosofia ocidental não nos instiga nesse caminho. Ela é como uma tropa de soldados marchando. Ela nos diz: “Siga em frente, em frente.” A filosofia ocidental começa com a forcá física, vital e mental. Mas a filosofia oriental, a filosofia indiana, começa com algo mais profundo. Você pode chamar isso de coração ou de alma.
Portanto, a filosofia oriental mergulha fundo para subir algo, mais alto, altíssimo. A filosofia ocidental nos instiga seguir em frente ou, em raros casos, subir. Mas ela não mergulha fundo como a filosofia oriental. Essa é a grande diferença.
Há uma única resposta filosófica que responde todas as perguntas?
Sri Chinmoy: Se usarmos a abordagem de Ramana Maharshi, podemos dizer “Quem sou eu?” Essa é a pergunta mais importante e, ao mesmo tempo, a resposta mais importante. Para mim, “Quem sou eu?” não é apenas a pergunta das perguntas, mas também a resposta das respostas. Quando você pergunta aos grandes Mestres espirituais “Quem sou eu?”, a pergunta já está respondida. A filosofia de Ramana Maharshi era sempre perguntar, “Quem sou eu? Quem sou eu? Quem sou eu?”
“Quem sou eu?” é uma pergunta. E “Quem sou eu?” também é a resposta, porque imediatamente a resposta vem: “Quem eu não sou?” O positivo e negativo sempre andam juntos. A pergunta vem com um desafio, mas dentro da pergunta está a resposta: há algo que eu não seja? Há alguém que eu não sou?
Por fim, todas as perguntas que a filosofia faz podem ser reduzidas a “Quem sou eu?” A resposta vem espontaneamente: “Quem eu não sou?” A pergunta e a resposta podem ser encontradas no mesmo lugar.
Qual é a filosofia para a humanidade no próximo milênio?*
*N.d.T.: o terceiro milênio
Sri Chinmoy: A filosofia para novo milênio será: não veja os defeitos na vida de ninguém, não veja os defeitos na sua própria vida. Apenas se force a ver todas as coisas boas que você fez, todas as coisas boas que você está planejando fazer e todas as boas coisas que os outros fizeram. No próximo milênio, a meta da filosofia será apenas enxergar a luz em si mesmo e a luz nos outros. Apenas então você será capaz de acelerar a chegada da paz mundial e unicidade mundial.
Qual é a diferença entre a filosofia da mente e a filosofia do coração?
Sri Chinmoy: A filosofia da mente é: estamos aqui, mas Deus está em outro lugar.
A filosofia do coração é: Deus está lá, no alto, nos céus. Mas Deus também está aqui, dentro do coração da Sua criação.
A Filosofia de Deus é apoiar tudo e todos que estão na Sua criação. A Filosofia de Deus é apoiar todas as filosofias que o homem puder imaginar.
Existe um perigo de se perder na filosofia?
Sri Chinmoy: Sim, há um grande perigo de se perder na filosofia. Muitas, muitas pessoas perderam sua espiritualidade por se envolver demais nos malabarismos mentais da filosofia.
… A minha filosofia é a aceitação absoluta da vida. A vida deve ser aceita. Nesta vida está o Alento vivo de Deus. Deus não está apenas no Céu, mas também dentro de nós. Deus e a Sua criação nunca pode ser separados. …
Cerca de cinquenta anos atrás, viveu na América um Mestre espiritual que tinha cerca de quarenta ou cinquenta discípulos. Esse Mestre estava sempre disposto a conceder entrevistas a seus discípulos e outros buscadores sinceros que vinham até ele buscando orientação espiritual.
Certo dia ele foi visitado por um jovem escritor que havia escrito ao Mestre em uma ocasião anterior sobre seus problemas. Naquele dia, ele tinha um problema em particular que gostaria de discutir com o Mestre.
“Mestre, por favor, me ajude,” disse o jovem rapaz. “Pelas últimas duas semanas, mal consegui dormir. Nunca meditei muito. Eu sempre achei que atividades mentais eram mais satisfatórias. Mas agora, quase todas as noites eu acordo com um sentimento desesperado em meu coração. De repente, sinto que estou precisando desesperadamente da espiritualidade. Tentei em vão tentar compreender esse sentimento. Minha mente não parece capaz de analizá-lo. Mas, já que não consigo enxergar claramente com a minha mente o que está acontecendo comigo, fico preocupado de poder estar sofrendo de algum delírio. Você poderia me ajudar? Esse sentimento desesperado que tenho é perigoso para a minha saúde mental?”
O Mestre respondeu: “Não, não é perigoso. Você está clamando pela satisfação do seu choro interior. Você não está chorando com a mente. Você está chorando dos mais profundos recônditos do seu coração. O coração interior possui capacidade infinita. Ele não é limitado como a mente. Não é preciso abordar a Verdade altíssima com a mente. Portanto a saúde mental não faz parte da questão.
“Mas por que eu estou sentindo esse anseio, Mestre? O que estou realmente ansiando por?”
“Quando ansiamos em nossas profundezas,” o Mestre disse, “é porque conhecemos a necessidade de Paz, Luz e Deleite. Quando temos esse tipo de anseio interior, essas qualidades vem à tona a partir do interior ou baixam a partir das alturas. Digo aos meus discípulos que podem desenvolver o clamor interior ao dar mais importância para aquilo que eles realmente precisam nas suas vidas. Quando damos importância para nossas necessidades reais, automaticamente o nosso anseio interior, a nossa sinceridade interior está fadada a aumentar. Quanto mais sentimos que precisamos desesperadamente de Paz, Luz e Deleite, mais cedo o nosso anseio anterior aumenta.
“Como podemos satisfazer essa necessidade?” perguntou o buscador.
“No mundo exterior, quando temos fome, tentamos satisfazer a nossa fome. Se não há comida em casa, vamos a um restaurante ou para a casa de um amigo. De forma similar, a vida espiritual quando estamos verdadeiramente famintos por Paz, Luz e Deleite, iremos a um Mestre espiritual que pode satisfazer nossa fome. Primeiro de tudo ele aumentará a nossa fome interior e então ele a satisfará.”
“Mas e a minha falta de sono? Ela é prejudicial ou detrimental para a minha saúde?”
O Mestre explicou: “Se tivermos Paz. Luz e Deleite dentro de nós, essas qualidades divinas não prejudicarão a nossa saúde. Pelo contrário, elas fortalecerão o físico. O físico terá uma nova sinceridade, uma nova fé para satisfazer o divino em nós. A palavra ‘sinceridade’ é muito importante. Se quisermos alcançar Paz, Luz e Deleite a ferro e fogo, se tentarmos usar a força do físico ou do vital, se tentamos forçar ou exagerar, traremos problemas desnecessários para a nossa mente. Contudo, se dependermos do anseio interior, nossa sinceridade nos transportará para o Altíssimo. Nessa hora, a proteção divina estará presente. Ela não permitirá que tenhamos quaisquer problemas mentais.”
“Como posso me tornar verdadeiramente sincero, Mestre? Como posso saber se sou sincero?”
O Mestre o assegurou: “No seu caso, você tem sinceridade. Mas, às vezes, apesar de sermos sinceros, ainda tentamos forçar algo. Tentamos acelerar o nosso progresso com a nossa energia vital ao invés de depender da nossa própria sinceridade interior. Quando temos um anseio interior sincero, descobrimos que é o ser interior que está ansiando dentro de nós e por nós. E quando o ser interior anseia, nossa mente exterior não precisa e pode não ser afetada. É apenas quando tentamos alcançar algo com a mente exterior é que ela será afetada, porque ela não está pronta para receber essas qualidades de uma maneira divina.”
“Mestre, posso fazer uma última pergunta? A paciência também é uma qualidade divina. Tenho medo de que com este sentimento de desespero, a impaciência virá.”
“Se você sabe o que é paciência,” o Mestre diz, “é muito fácil ter paciência. Se você sente que pode ser paciente por um certo tempo, ficará impaciente quando o tempo acabar. Se você pensa que em dois dias você realizará Deus, mas se Deus ainda estiver se escondendo de você após dois dias, dois meses, dois anos, você ficará impaciente.”
“Como podemos cultivar paciência?” perguntou o escritor.
“Você deveria sentir ‘eu realizarei Deus na Hora escolhida por Ele. Meu papel é orar e meditar, e o papel de Deus é me conceder realização quando sentir que a hora chegou.’ Se você sentir isso, a paciência virá. Você é responsável apenas pela sua oração e meditação, e dá a responsabilidade pelo resultado a outra pessoa, que é Deus. Deus apenas pediu que você orasse e meditasse; Ele não fixou uma hora para você ir visitá-Lo. Cada um de nós deve cuidar das próprias coisas. O tempo pertence a Eles, mas a oração pertence a vocês. Desta forma, você pode ser divinamente paciente.”
“Mestre,” disse o jovem, curvando-se com toda a humildade, “você não apenas respondeu todas as minhas perguntas hoje, mas também me deu a resposta para as perguntas de toda a minha vida. A partir de hoje, o clamor interior do meu coração será a minha outra realidade.”
Sri Chinmoy, do livro “Is God Really Partial”, 3 de novembro de 1973
Dicas para meditação 49 – como manter a inspiração para meditar
Questão: Quando comecei a meditar às três da manhã, costumava ter meditações muito boas e estava bastante inspirado. Porém, depois de alguns dias, não tive a mesma inspiração e ficou bem difícil.
Sri Chinmoy: Ao começarmos algo pela primeira vez, obtemos inspiração. Qualquer coisa nova nos dá uma tremenda inspiração, só porque é nova. No entanto, se a continuarmos fazendo, não teremos o mesmo entusiasmo, o mesmo ímpeto, a mesma inspiração. Queremos conseguir alguma coisa muito profunda, elevada e sublime, algo muito luminoso da nossa meditação de manhã cedo. Somos como um corredor de longa distância, Quando o juiz dá a largada, no começo o atleta realmente está inspirado e começa a correr bem rápido. Entretanto, depois de duas ou três milhas, fica bastante cansado. Correr fica tedioso e difícil. Se ele desistir da corrida apenas porque está cansado e sua aspiração foi embora, não vai atingir a meta. Mas se ele continuar correndo, no fim vai acabar alcançando a chegada. Sentirá que valeu a pena o esforço e o sofrimento do corpo.
É como se fosse assim também na vida espiritual. Ao começar sua jornada às três da manhã, sinta que amanhã será a continuação dessa caminhada. Não a encare como um novo começo. E, no terceiro dia, sinta percorreu outra milha. O dia em que começa sua jornada espiritual é, na verdade, o mais importante. Nessa hora, você terá o máximo de inspiração. No entanto, se puder sentir que a cada manhã, durante sua meditação, você está percorrendo um pouquinho a mais, saberá que um dia vai atingir sua Meta. Mesmo que sua velocidade diminua, precisa continuar correndo e não desistir no meio do caminho. Ao alcançar a Meta, verá que valeu o esforço. Todos os dias, ao meditar, ajudará se você pensar que é um prosseguimento da meditação do dia anterior. Com um passo de cada vez, vai atingir a Meta.
Você tem aspiração e então a perde. Clama por ela, mas talvez não consiga a mesma aspiração de novo. Contudo, aqui você precisa entender que não é um especialista em meditação. Sua meditação, no momento, está à mercê da sua inspiração ou aspiração. Ao estar inspirado, tem aspiração e está pronto para meditar. Mas essa aspiração, esse impulso interior, vai durar só por um dia ou algumas semanas, e então vai desaparecer. Entretanto, ao se tornar um especialista, a meditação vai estar sob seu comando.
Se você meditar regularmente por cinco ou seis meses, um ano ou dois, a meditação vai se tornar espontânea e natural automaticamente. Depois de um período, em tal e tal hora, vai se sentir compelido a meditar. Sentirá que a meditação é uma necessidade da sua alma, e o impulso interior de meditar nunca será capaz de deixá-lo. Ele vai sempre inspirá-lo e energizá-lo. Todos os dias, de manhã cedo, quando for a hora da sua meditação, seu ser interior vai bater na porta do seu coração.
Meditation: God’s Blessing-Assurance, p. 30-33
Pergunta: Guru, como podemos aumentar nossa aspiração e mantê-la firme?
Sri Chinmoy: Para manter sua aspiração elevada, firme e constante, três coisas são necessárias: fé em si mesmo como buscador; fé constante no julgamento do seu Mestre; consideração pelo que é feito, não quem fez – isso é, a tarefa foi cumprida? Quem a cumpriu não é a questão.
No seu caso, você tem fé em mim em medida abundante, mas não tem tanta fé assim em si mesmo quanto deveria ter. Se não tem fé suficiente em si mesmo, é extremamente difícil manter o mais puro ou o mais elevado tipo de fé no Mestre a toda hora. O mais puro e elevado tipo de fé tem de ser contínuo e constante. E, para tanto, deve-se ter completa fé em si mesmo. Precisa sentir: “Estou destinado a atuar continuamente no Lila cósmico do Guru”.
Todos os dias, você precisa ver se o necessário foi feito, e não quem o fez. Infelizmente, ao vermos que algum indivíduo em particular atingiu alguma coisa, sentimos que não temos nada a ver com isso. Você pode dizer: “Oh, o Supremo escolheu ele e não eu para fazer isso. Sou um inútil. Sou um imprestável. Não posso fazer nada”. Então, imediatamente você começa a se criticar e a se diminuir, o que é errado. Se um colega discípulo fez algo divino, sinta, por favor, que foi você quem fez isso. Sua aspiração é igualmente responsável pela manifestação divina dele. Quando algo é manifestado, se você sente que sua aspiração teve alguma coisa a ver com ele, mantém uma tremenda aspiração. Cada buscador deveria sentir que, quando algo é alcançado no plano físico, ele ou ela é igualmente responsável pela vitória divina. Nossa vitória em conjunto está na manifestação da mais elevada aspiração.
De manhã cedo, ao começar a meditar, tente sentir por um minuto que hoje você será capaz de se sustentar sem comer nem um pedaço de comida, sem beber nem mesmo um copo d’água. Sinta que, sem comer nem beber nada, será capaz de sobreviver por um dia, até mesmo por uma semana. Mas precisa sentir que, se não aspirar bem, se não meditar bem, então ao anoitecer a morte virá e vai capturá-lo. Morte significa a destruição da sua aspiração, não a morte física. A aniquilação vai capturar sua aspiração se você não meditar bem. Se encarar sua meditação matinal com bastante seriedade, automaticamente sua aspiração vai permanecer elevada. Sempre dê à aspiração o devido valor. Assim, um tremendo poder vai vir de você mesmo. O que determina sua vida ou sua morte é sua aspiração, e não seu alimento material. Precisa sentir que essa qualidade é responsável pela sua evolução terrena e sua conquista celestial. Quando está faltando aspiração, você não existe. Ela é a única realidade da sua vida. Com esse sentimento, automaticamente será capaz de manter sua mais alta aspiração 24 horas por dia.
Esses escritos são apenas amostras dos ensinamentos de Sri Chinmoy, não sendo a sua filosofia completa sobre o tema.
Para um homem não aspirante,
o trabalho é uma punição,
trabalho é uma tortura.
Para um homem aspirante,
o trabalho é uma bênção,
o trabalho é uma alegria.
– Sri Chinmoy
Há alguma contradição na busca da riqueza mundana e da Verdade Absoluta?
Sri Chinmoy: Sempre haverá uma triste contradição entre as duas. Quando você clama por fama, renome, riquezas e outras coisas e, ao mesmo tempo, clama pela Luz interior, pela Luz abundante e pela Luz infinita, haverá uma contradição grave. De um lado, você está alimentando desejos ordinários dentro de você, desejando, digamos, uma casa, depois mais uma; Do outro lado, você está buscando o caminho da aspiração, a partir da qual você pode entrar no Infinito. Lá você não entra de pouco em pouco – você apenas entra. Você quer entrar no Infinito e você pode fazê-lo. Você simplesmente entrar e o seu clamor interior traz a Graça de Deus.
Quando você caminha através dos desejos, não há fim para eles. Hoje o seu desejo é satisfeito e amanhã você será vítima de um novo desejo. Primeiro você fica um pouco famoso; depois um pouco mais. O desejo de hoje aumenta amanhã em medida infinita. Não há fim. Hoje você é satisfeito, mas amanhã será possuído por um novo desejo.
No caso da aspiração, não funciona assim. A sua natureza, a sua própria natureza, deseja permanecer no Infinito. Quando alguém permanece na Luz altíssima, na Luz tudo-preenchedora, a Luz é quem decide dar uma experiência específica ao buscador ao lhe conceder renome e outras coisas. Mas se o buscador em si quiser ter ambos desejo e aspiração, fama e renome mundanos e mais a verdadeira aspiração pelo Altíssimo, ele não ficará nem no caminho espiritual e nem no mundo material ordinário, pois será constantemente atraído por essas duas forças contraditórias. Uma força dirá que a outra é inútil. O desejo dirá: “A aspiração é inútil. Você construirá castelos no ar.” A aspiração dirá: “O desejo é estupidez, uma estupidez sem fim.” É como um camelo no deserto. Ele come arbustos espinhosos e sua boca sangra profusamente. Mas ele volta e come mais espinhos.
Essas são as duas forças contraditórias que existem: o desejo o leva à frustração e a aspiração o leva à satisfação. Mas existe um outro ponto sutil que devemos tocar. É o mundo material, o mundo físico. Não podemos rejeitar o mundo físico. Por quê? É porque nosso mundo espiritual está dentro do mundo físico. Quando é uma questão do mundo interior e exterior, temos de entender que a Realização do mundo interior deve ser expresada no mundo exterior. Não podemos separar o mundo interior do mundo exterior. Essa é a nossa visão, a nossa filosofia. Esse é o nosso caminho. Outros caminhos são diferentes. Se deixamos o mundo exterior e ficamos nas cavernas dos himalaias, não realizaremos a Verdade Absoluta aqui na Terra.
Se dissermos “Os seres humanos são muito maus; eu quero fugir disso”, estaremos separando o mundo interior do mundo exterior. Nossa filosofia é que o mundo exterior deve ser uma manifestação ou uma expressão do mundo interior. Para manifestar a Verdade, é preciso primeiro ter a Verdade e, para isso, a aspiração é necessária.
Como eu disse no início, se tentarmos unir o desejo e a aspiração, seremos arruinados. Porque eles são como o pólo norte e pólo sul, nem a aspiração e nem o desejo terão interesse em nós ou em nos satisfazer, pois não conseguem caminhar juntos. Uma vez que, através da aspiração, a Realização seja estabelecida, você poderá adentrar o campo da manifestação. Talvez isso lhe seja confiado. Ninguém o culpará por entrar no mundo exterior, porque haverá um Poder superior que trará o “resultado exterior” para você. Esse Poder superior só está interessado na sua Realização, na sua unicidade com o Absoluto altíssimo. O Poder estará em você e por você. Isso é o que Deus quer de você. Isso é o que Deus precisa de você.
Para um buscador, se ele é um verdadeiro buscador, ele deve passar pela aspiração e não pelo desejo. Se agora mesmo alguém tem aspiração e desejo, essa pessoa deveria abandonar o caminho espiritual? Não. Ela deve trilhá-lo. É preciso ver as porcentagens. Se ela tem 50% aspiração e 50% desejo, então o que deve fazer? Ela não deve renunciar a vida humana comum, mas também deveria prestar mais atenção ao caminho da aspiração. Gradualmente, gradualmente, a porcentegem de desejo diminuirá. Chegará o dia em que essa pessoa realmente verá que é a aspiração quem o satisfaz, que traz a ele toda alegria que ele sente. Ela verá que a aspiração irá satisfazê-lo para sempre. Nessa hora, a vida-desejo automaticamente ressecará e a vida de aspiração a carregará até o fim da estrada, a verdadeira Meta.
Qual o lugar do trabalho na vida espiritual?
Sri Chinmoy: Há alguns Mestres espirituais que permitem que seus discípulos vivam errantes. Eles são como parasitas; hoje estão aqui, amanhã estão em outro lugar. Nosso caminho não é assim. Eu peço que meus alunos trabalhem ou estudem. Se você trabalhar, se tiver uma padrão de vida modesto e decente e tiver uma vida normal, eu ficarei muito feliz. É absolutamente necessário ter uma vida normal.
Sinta que o trabalho, se feito devotadamente, é a oração do corpo. A oração do corpo é necessária, absolutamente necessária, para satisfazer Deus. Assim como o coração ora, a mente, o vital e o corpo também devem orar. Quando dizemos que o corpo deve orar, sabemos que essa oração só pode ser realizada através de serviço abnegado.
Sri Chinmoy, Service-boat and love-boatman, part 1, Agni Press, 1974
Brahman é o Infinito Imperecível. Outro nome para Brahman é Aum. Aum é o Criador. Aum é a Criação. Aum está na Criação. O Aum está além da Criação.
O significado de Aum pode ser descoberto através de livros. Mas o conhecimento de Aum nunca pode ser obtido através do estudo dos livros. Ele deve ser conquistado vivendo-se uma vida interior, uma vida de aspiração, que transportará o aspirante aos níveis mais elevados de consciência. A maneira mais fácil e mais efetiva para subir alto, mais alto, altíssimo, é carregar-se de amor puro e devoção genuína. Dúvida, medo, frustração, limitação e imperfeição estão destinadas a se entregar ao amor devotado e à devoção entregue. O amor e a devoção têm o poder de possuir o mundo e serem possuídos pelo mundo. Ame a manifestação de Deus; você descobrirá que a criação cósmica é sua. Devote-se à causa da manifestação cósmica; você verá que ela o ama e o considera como parte de si.
Não há mantra mais poderoso do que a mãe de todos os mantras, Aum, o som cósmico. Um yogi ou personalidade espiritual escuta esse som auto-criado nos mais profundos recessos de seu coração. Quando começar a ouvi-lo, você poderá ter certeza de que está bastante adiantado na vida espiritual. A sua Realização não mais será um mero brado em meio à escuridão. O dia em que você alcançará sua Auto-realização se aproxima rapidamente.
Chamamos o Aum de anahata nada, o som sem-som, ou o som que não foi soado. Empregamos o termo ‘sem-som’, mas isso é dizer pouco. O som cósmico é inaudível aos nossos ouvidos comuns, mas se ouvirmos o som sem-som dentro do coração, veremos que ele é infinitamente mais poderoso do que o som mais alto que possamos produzir. Na suavidade pode residir um tremendo dinamismo. Por vezes eu falo de forma paterna, com grande carinho e afeição. Falo com muita suavidade e delicadeza, mas ainda assim uso um poder absolutamente dinâmico. Talvez eu esteja sorrindo e oferecendo todo tipo de afeição, mas em minha suavidade há um poder vulcânico.
Se repetir a palavra Aum todos os dias por duas, três ou quatro horas, você guardará a vibração desse som em seu coração. Não será preciso entoar o som interiormente, pois entoando-o exteriormente o som interior se cria automaticamente. Quando o som sem-som vibra constantemente em seu coração, todo o seu corpo fica carregado de sabedoria divina, luz divina, poder divino. Praticar esse único mantra é suficiente para levá-lo a Deus.
Aum é o símbolo de Deus, a vibração do Supremo. É um som único, indivisível, indescritível. Ouvindo-o interiormente, identificando-nos com ele e vivendo em seu interior, seremos libertos dos laços da ignorância e realizaremos o Supremo dentro e fora de nós.
Durante o entoar do Aum, o que na verdade acontece é que a paz e luz descem das alturas e criam uma harmonia universal em nosso interior e exterior. Enquanto repetimos Aum, tanto o ser interior quanto o exterior ficam inspirados e carregados com luz divina e aspiração. O Aum é sem igual. Ele guarda infinito poder. Simplesmente repetindo Aum podemos realizar Deus.
Quando recitar Aum, procure sentir que Deus está subindo e descendo dentro de você. Centenas de buscadores na Índia realizaram Deus simplesmente repetindo Aum. Não importa quão grave seja um pecado, se uma pessoa entoar algumas vezes Aum a partir das profundezas de seu coração, a Compaixão onipotente de Deus perdoará e concederá redenção ao buscador. Num piscar de olhos, o poder do Aum transforma escuridão em luz, ignorância em conhecimento e morte em Imortalidade.
São várias as formas de se entoar Aum. Quando o fazemos com grande força da alma, entramos na vibração cósmica, onde a criação é perfeita harmonia e a dança cósmica é executada pelo Absoluto. Se cantamos devotadamente, tornamo-nos um com a Dança cósmica; tornamo-nos um com Deus o Criador, Deus o Mantenedor, e Deus o Transformador. Aum é ao mesmo tempo a Vida, o Corpo e o Alento de Deus. Isso é o que você pode sentir cantando Aum.
Quando for atacado no plano vital emocional, e pensamentos, ideias e vibrações ruins tomarem conta de você, repita Aum ou o nome do Supremo tão rapidamente quanto o possível. Não o faça lentamente. Enquanto tenta afastar as impurezas da sua mente, é preciso entoar como se estivesse correndo para embarcar num trem em movimento.
Durante o japa, não prolongue muito o som. Se alongar a sílaba Aum, não terá tempo para cantá-la quinhentas ou seiscentas vezes. Basta dizer de uma forma normal mas devotada, de forma que você sinta a vibração. E precisa ser feito em voz alta, não em silêncio. Deixe que o som do mantra vibre até mesmo em seus ouvidos físicos e permeie todo o seu corpo.
Recita-se Aum em voz alta porque, quando a mente exterior se convence, sentimos mais alegria e entrevemos uma conquista maior. Todavia, se soubermos como adentrar a fonte original do som, que fica dentro do coração, não precisaremos entoar em voz alta. É de fato possível recitar Aum silenciosamente ou ouvi-lo interiormente, sem realmente pronunciá-lo. Onde quer que estejamos, o som do Aum já estará presente. Poderemos ouvir o som de Aum sem o cantarmos, mas não saberemos de onde vem, se é do nosso coração ou da atmosfera.
Às vezes, durante a meditação os buscadores ouvem o som de Aum ainda que ninguém o esteja recitando. Isso quer dizer que interiormente alguém canta ou cantou Aum, e a sala de meditação preservou o som. Se tivermos consciência durante o sono, ouviremos o som de Aum. Não é o batimento do coração que ouvimos, mas sim o som sem-som. Será uma sensação muito convincente.
Se você quiser meditar enquanto estiver num lugar público, onde há todo tipo de barulho e perturbação, busque adentrar o seu próprio som interior. Para a sua surpresa, verá que os sons que o incomodavam um minuto atrás não mais o perturbam. Na verdade, um sentimento de plenitude surgirá pois, ao invés de ouvir barulho, você ouvirá música divina, uma música divina gerada em seu interior.
Mas Aum não é um termo que possui significado em nossa cultura.
É verdade. Na sua cultura a palavra mais significativa é ‘Deus’. Já na Índia, repetimos Aum ou o nome de um deus ou deusa cósmica, como Shiva ou Kali. Quando se entoa um mantra, o mais importante é saber em que aspecto do Supremo temos fé absoluta. Eu uso a palavra ‘Deus’ aqui no ocidente, porque sei que toda a vida vocês foram ensinados a orar para Deus. Mas Aum também pode existir em você com toda a significância que é peculiar a esse som. Chegará um dia em que será capaz de mergulhar mais fundo dentro de si, e se Aum o inspirar mais do que ‘Deus’, você deverá entoar Aum. É a inspiração recebida o que mais importa. Assim, você pode recitar ‘Deus’ se for o que mais lhe inspira.
O mundo interior nos diz que amar Deus é a nossa responsabilidade suprema, nossa única responsabilidade e nosso dever. O mundo exterior nos diz que servir a Deus, a Autoridade Suprema, é o nosso dever.
Se vivemos no mundo exterior e não aspiramos, seremos perseguidos por muitas perguntas. A primeira e mais importante é: “Quem é Deus?” A resposta será dada pelo mundo interior, mas não a ouviremos. A resposta do mundo interior é: “Quem não é Deus?” Essa é a resposta certeira que obteremos do mundo interior. Apesar de também ser uma pergunta, dentro dela mora está a resposta: todos são Deus, Deus no processo de auto-preparação, auto-revelação e auto-manifestação.
Há buscadores maduros e buscadores imaturos. Há pessoas aspirantes na Terra e há pessoas não aspirantes na Terra. As pessoas não aspirantes nos dirão que a vida interior é inútil. Elas dirão que os buscadores espirituais estão buscando uma meta vazia. Não há objetivo: é tudo fantasia mental, alucinação e autoengano. As pessoas aspirantes que não são maduras de tempos em tempos tentam fazer os outros sentir que são maduras. Elas oferecem sua própria sabedoria e julgamento, dizendo que o mundo exterior nada é senão um elefante enfurecido, que a agressão é o que reina, a destruição é o que reina. Essas pessoas sentem que não há alma, objetivo, realidade, mas sim apenas um elefante enlouquecido ou um tigre devorador que está destruindo o mundo exterior.
Mas os buscadores da Verdade suprema que possuem uma certa luz sabem com uma certeza que o mundo interior e o mundo exterior são ambos criações de Deus. Quando pensamos sobre o mundo interior, somos lembrados de Deus, a criação. O Criador e a criação devem ser vistos juntos. Deus sente que Ele é completo e perfeito precisamente porque Ele possui a criação dentro de Si, Consigo, a Seu redor e por Ele. A criação sente que é perfeita porque Deus, que é todo Perfeição, é a sua Fonte. Sem o auxílio e capacidade do mundo interior, não é possível progredir; ficamos cegos. A pessoa precisa de luz para caminhar pela estrada da perfeição, ou não conseguirá alcançar o seu destino, que está muito, muito distante. E, caso não dê o valor adequado às capacidades do mundo exterior, não fará progresso, pois não terá pernas. Tanto os olhos quanto as pernas são precisos; tanto o mundo interior quanto o mundo exterior são necessários para a perfeição. O mundo interior incorpora a visão, que é a realidade verdadeira. O mundo exterior incorpora o poder, o poder dinâmico, que também é indispensável. A luz é necessária e indispensável para a realização no mundo-silêncio interior, e o dinamismo é necessário e indispensável para a manifestação no mundo-som.
O mundo interior e o mundo exterior. O Aquele que deseja se tornar a Vida do Infinito, a Realidade da Eternidade e a Beleza da Imortalidade deve prestar a atenção devida a ambos os mundos. Ambos os mundos são de importância fundamental: o mundo-semente interior e o mundo-fruto exterior. É dá semente que obtemos o fruto, e do fruto que obtemos a semente. No mundo interior Deus nos reivindica e eternamente nos guarda como parte de Si. No mundo exterior tentamos e choramos para reivindicar Deus como parte de nós e reciprocar o Amor de Deus por nós.
Quando oramos e meditamos, quando mergulhamos fundo nos mais íntimos recessos do nosso ser, não apenas sentimos que estamos no mundo interior, mas também sentimos que somos o próprio mundo interior. Quando transformamos a nossa existência exterior aqui, ali e acolá numa mão que auxilia, num coração que serve e numa vida que ama, nos tornamos uma existência tudo-amorosa – e não apenas vivemos no mundo exterior, mas nos tornamos um com o mundo exterior em toda a sua realidade.
No mundo interior há um tesouro inestimável, que é o clamor constante por conhecer o Altíssimo e se tornar o Absoluto. No mundo exterior também há um tesouro imortal, inestimável, que é o sorriso, o sorriso iluminador. O buscador sorri para a vasta criação de Deus. Seu sorriso é a unicidade-identificação da sua própria existência-realidade com a criação inteira de Deus. Tanto no seu mundo interior e exterior, o buscador chora e sorri devotadamente, repleto de alma e incondicionalmente. Ele chora por alcançar a Altitude absoluta da maneira de Deus, à Hora escolhida por Deus. Ele sorri para ver, sentir e manifestar Deus. Ele enxerga Deus, sente Deus e manifesta Deus, a Realidade Suprema, da maneira que Deus quer que ele O veja, sinta e manifeste.
Como voltar a ser criança, ou “como desaprendemos os ensinamentos da mente?”
Sri Chinmoy: A maneira principal é trazendo a luz da alma para a mente e também para os ensinamentos da mente. Então a luz da alma irá iluminar ou obliterar tudo que a mente, a mente física, a mente duvidosa e suspeita nos ensinou. A mente humana comum nos ensinou muitas coisas. A mente está constantemente suspeitando, a mente está constantemente duvidando, constantemente trazendo a verdade até nós de sua própria maneira. Mas com a luz da alma as coisas que aprendemos podem ser facilmente deixadas de lado ou iluminadas.
Ou então, se tentarmos constantemente trazer o coração à tona e não dermos nenhuma atenção à mente física, automaticamente desaprenderemos o que a mente nos ensinou. Essa é a segunda melhor forma. É como o ditado de que “o que os olhos não vêem, o coração não sente.” Se não revermos os ensinamentos da mente, naturalmente esqueceremos deles. Ao mesmo tempo, para desaprender coisas antigas, os ensinamentos da mente, devemos dar atenção às coisas novas, aos ensinamentos do coração. Quanto mais aprendemos coisas no coração e do coração, mais cedo esquecemos as coisas antigas que aprendemos com a mente de dúvida e suspeita.
Sri Chinmoy, Self-discovery and world-mastery, p 27, Agni Press.
Coloque a mente dentro do coração. Pegue a mente e coloque-a no rio do coração. A mente é como uma criança travessa. Antes, ela estava dormindo. Assim, a mãe podia ficar em silêncio e orar a Deus. Entretanto, a criança agora acordou e quer fazer traquinagens. Ela não quer mais deixar que a mãe aspire. O que a mãe vai fará? Ela ameaçará a criança, dizendo: “Ainda estou orando, ainda estou meditando. Se você me perturbar, terei de puni-la”. Enquanto a mente deixar que você medite, você não precisa se preocupar. Mas quando ela começar a incomodá-lo e a causar dor, isso significa que ela não quer que você receba mais paz, luz e bem-aventurança sublimes. Você precisa usar o poder de sua alma e colocá-la no coração.
Se puder permanecer no coração, começará a sentir um clamor interior. Essa súplica interior – que é a aspiração – é o segredo da meditação. Quando um adulto chora, o seu choro geralmente não é sincero. No entanto, quando uma criança chora, mesmo que esteja chorando só por um doce, ela é muito sincera. Nessa hora, o doce é o mundo inteiro para ela. Se você lhe der uma nota de 100 dólares, ela não vai ficar contente. Ela está interessada apenas no doce. Quando uma criança chora, o pai ou a mãe imediatamente vai até ela. Se você puder suplicar do seu mais profundo interior por paz, luz e verdade, e se essa for a única coisa que irá satisfazê-lo, então é certo que Deus, que é o seu Pai e sua Mãe eternos, virá para ajudá-lo.
Você sempre deveria sentir que está tão desamparado quanto uma criança. Assim que você sentir que está desamparado, alguém virá para ajudá-lo. Se uma criança estiver perdida na rua e começar a chorar, alguém de bom coração vai mostrar onde é a casa dela. Sinta que você está perdido na rua, e uma tempestade está chegando. Dúvida, medo, ansiedade, preocupação, insegurança e outras qualidades não-divinas estão vindo até você. Entretanto, se você chorar com sinceridade, alguém virá para socorrê-lo e mostrará como chegar até a sua casa, que é o seu coração. E quem é essa pessoa? Deus, o seu Piloto interior.
Hoje você pode ser um principiante na vida espiritual, mas não sinta que será um iniciante para sempre. Em algum momento, todos foram iniciantes. Se praticar concentração e meditação diariamente, se for sincero de verdade na sua busca espiritual, então é certo que fará progresso. O importante é não desanimar. A realização-Deus não acontece da noite para o dia. Se você meditar com regularidade e devoção, se puder clamar por Deus como uma criança que chora pela mãe dela, então não vai precisar correr até a meta. A meta virá e se colocará diante de você, considerando-o como uma parte dela mesma.
Uma maneira de aumentar a sua receptividade é ser como uma criança. Se a mãe diz para ela: “Isso é bom”, a criança não tem nenhuma tendência a pensar que aquilo é ruim. Não importa o quão evoluído você seja na vida espiritual, poderá progredir do modo mais rápido possível se tiver uma atitude de criança, um sentimento de criança inocente autêntico e sincero.
O nosso progresso será mais rápido se meditarmos no coração. Quando meditamos na mente ou dentro da mente, sentimos que já sabemos bastante sobre a vida espiritual. Porém, quando olhamos para o interior profundo, descobrimos que não sabemos quase nada sobre a vida espiritual. Só acumulamos informação nas nossas mentes – informação, nada mais. Mas, quando meditamos no coração, sentimos que somos como crianças que realmente querem aprender tudo de novo com a sua mãe ou pai. A criança sente que não sabe nada, mas quer aprender tudo da forma correta.
Portanto, o meu conselho aos buscadores que desejam seguir o nosso caminho é que se concentrem e meditem no coração. E mesmo aqueles que não se encaixam no nosso caminho podem tentar meditar no coração. Não é só o nosso caminho que enfatiza a importância de meditar no coração. Há outros caminhos e outros Mestres espirituais que defendem a mesma ideia.
Pelos textos de Sri Chinmoy, sei que meditar é várias coisas: um processo de identificação, um mergulho fundo, um voo alto, uma forma de ouvir Deus. E é muito mais, de acordo com a sua capacidade de meditar. Um instrumento para se tornar Deus.
Sou iniciante na meditação, acredito sinceramente, apesar de ter praticado sem falta por dezoito anos hoje. Hoje é domingo, então resolvi fazer uma meditação de uma hora no fim da tarde.
Cada vez que olho para a foto de Sri Chinmoy ao meditar – eu medito na foto do meu Mestre, que é uma das formas mais tradicionais de meditação – sinto algo mais vivo, mas próximo. Vou descrever minha meditação com essa referência, da foto. Mas é certo que outras pessoas devem ter experiências similares de outras formas.
Às vezes a foto parece tão viva – mais viva do que eu.
Mais viva do que qualquer coisa, na verdade, no sentido de que consciência define vida. Ela é mais consciente do que as coisas vivas que costumo enxergar.
Às vezes ela é tão profunda, vasta.
Meditar nela é como um salto, um pulo num poço à la Alice no País das Maravilhas – como se pudesse mergulhar lá em queda livre por dias sem alcançar o fundo.
Às vezes é tão elevada, sublime.
Observá-la é como lembrar-se da sua Meta altíssima.
Às vezes a foto parece se preocupar, cuidar de mim.
Isso foi, inclusive a minha primeira experiência ao ver a foto de Sri Chinmoy dezoito anos atrás. Ela era muito séria, rigorosa, e parecia se importar profundamente com o rumo que eu dava para a minha vida. Eu sentia que ela queria que eu tivesse a melhor vida possível e, ao mesmo tempo, que ela sabia que eu não sabia como fazer isso. E percebi que, com o passar do tempo, as coisas que deveria fazer ou me tornar para ter essa vida foram-me sendo ensinadas, na maior parte do tempo, a partir do interior.
Dicas para meditação 48 – quando o progresso espiritual parou e é difícil meditar
Pergunta: Quando o aspirante sente que o progresso espiritual dele parou e é difícil meditar, o que deveria fazer?
Sri Chinmoy: É bem possível recuperar essa aspiração e há várias maneiras de fazer isso. A primeira maneira é repetir o nome do seu Mestre espiritual. Ou, se não tiver um Mestre, pode repetir “Aum” ou “Supremo”. Deveria repetir o nome enquanto inspira. Não há necessidade de contar quantas vezes está fazendo isso. Pode repetir o nome interiormente e em silêncio, assim como em tom alto. Ao inspirar, repita-o silenciosamente por três vezes. Será mais do que capaz de fazer isso. Então, pode repeti-lo alto. Da cabeça aos pés, faça a palavra vibrar. Essa é uma abordagem.
A segunda forma de conseguir aspiração novamente é sentir que ela é como uma candeia. Vamos imaginar que o vento a apagou. Ela não está mais acesa. Você precisa de luz. Quem pode oferecer luz? Alguém com uma chama incandescente de aspiração. Quando um aspirante em particular está perdendo ou perdeu sua aspiração, imediatamente deveria ir até outro aspirante em quem a aspiração está refulgente.
Outro segredo é comparar os momentos em que teve com essa vez em que não tem aspiração. Quando teve aspiração, o que sentiu? E agora que não tem aspiração, o que está sentindo? Tente ver quantas experiências teve no período de sua intensa aspiração. Suponha que, há um ano, eu estava com uma aspiração intensa. Nessa época, tive vinte, trinta ou quarenta experiências elevadas. Deixe-me reunir todas as experiências bem na frente da minha mente, uma após a outra. Que visão eu tive? Vi a Luz? Vi uma aura? Vi outro mundo? Vi alguma outra coisa? Todas essas experiências você tem que trazer de volta. Enquanto estiver recolhendo as experiências da época em que estava com intensa aspiração, verá que essas experiências estão lhe dando uma nova vida. A vida que você levou nos últimos meses – um deserto árido – será agora regada pelas experiências de um ano atrás.
Aspiration-Flames, p. 41-43
Pergunta: Guru, como podemos dizer se estamos subindo ou descendo, quando o movimento acontece em passos tão pequenos?
Sri Chinmoy: Qualquer um pode saber se está subindo ou descendo. Ao descer, imediatamente sua alegria interior, sua satisfação interior, vai embora. Você pode enganar outras pessoas, mas não pode enganar a si mesmo, se for sincero. Pode tentar se enganar ou se iludir, arranjando alguma qualidade divina com sua mente ou seu vital. Mas quando seu mundo interior fica árido, você se sente realmente miserável, caso seja sincero. Se não se sentir miserável quando sua vida interior estiver árida, isso significa que você vai tentar se convencer de que nada está errado, quando tudo está errado. Sua casa foi totalmente incendiada, destruída, mas você diz: “Oh não, minha casa não foi queimada. Essa não é a minha casa. Minha casa está em outro lugar”. No entanto, sabe que ela foi destruída. Ou se você tem um dólar e não o vê de novo, sabe que o perdeu. Como é que pode dizer que não o perdeu? É só um dólar. Entretanto, sabe que foi perdido.
Selfless Service-Light, p. 32-33
Pergunta: Como posso manter a aspiração quando voltar para a Suécia?
Sri Chinmoy: Quando veio da Europa para Nova York, seu bolso estava cheio. Você tinha uma carteira com dinheiro dentro dela. Percorreu milhares de milhas e usou suas finanças. Agora, está voltando de novo e vai ganhar dinheiro, para que possa vir aqui da próxima vez. Você trouxe riqueza material para gastar. De forma semelhante, trouxe riqueza espiritual para sua vida espiritual. Você aspirou com mais intensidade. Naturalmente, obteve Paz, Luz e Felicidade. Veio aqui também conseguir mais inspiração e aumentar suas qualidades divinas. Sinta, por favor, que tem outra carteira dentro do seu coração. Aí você colocou Paz, Luz e Felicidade. Pode manter dentro do seu coração quaisquer qualidades divinas que obteve aqui em Nova York, da mesma maneira que mantém uma nota na sua carteira. Agora você pode voltar à Europa e tentar utilizar sua riqueza espiritual de forma sábia.
Mas existe uma diferença entre riqueza espiritual e riqueza material. Ao usar dinheiro de modo adequado, você pode apreciá-lo por algum tempo, mas gradualmente ele vai desaparecer. Entretanto, ao usar riqueza espiritual, que é Paz, Luz e Felicidade, de maneira apropriada, se oferecê-la à pessoa correta, automaticamente o Supremo preenche seu receptáculo, o recipiente dentro do seu coração. Se você começar com uma pequena gota de Paz e usá-la de uma maneira divina, o Supremo vai lhe dar Paz abundante. No entanto, você precisa usá-la de modo adequado. O Supremo vê se você agiu de forma apropriada. É como uma criança que ganhou um centavo da sua mãe. Quando ela usa direito o dinheiro, a mãe dá 5 centavos. Quando ela usa direito os 5 centavos, a mãe dá 10 centavos. De forma parecida, você recebe Paz, Luz e Felicidade. Se começar a usar essas qualidades de maneira apropriada, quando for perturbado ou se sentir agitado pelas forças erradas do mundo exterior, eu asseguro que a Fonte vai prover mais Paz, Luz, Felicidade e todas as outras qualidades divinas. Sinta, por favor, que está carregando todas as coisas que recebeu aqui dentro do seu coração, ao voltar para a Suécia.
Aqui, na sala de meditação, estamos aspirando. É por isso que nossa consciência está elevada. Então, ao irmos para casa, nossa consciência vai para baixo. Alguma calamidade vai acontecer ou alguma outra coisa surgirá, e vamos perder a nossa aspiração. Mesmo que não haja nada exteriormente que nos impeça de aspirar, nosso próprio ser interior não vai deixar que nós fiquemos no topo da árvore. Às vezes, não há nenhuma perturbação exterior, mas mesmo assim achamos difícil ficar no topo da árvore, porque não vivemos ali no dia a dia. Aspiramos por meia hora com total sinceridade, e então o relaxamento começa. Sentimos que trabalhamos muito duro. Fizemos nossa parte por 5 minutos ou meia hora, e agora sentimos que merecemos descansar por uma ou duas. Começamos a ler jornal ou a assistir à televisão, e dessa forma relaxamos.
No entanto, se quiséssemos manter nosso nível, o ápice da nossa aspiração, deveríamos ser contínuos, fluentes. Suponham que meditamos por uma hora. Talvez a gente não consiga meditar por mais uma hora ou coisa parecida. Sem problema. Faremos algo que vai manter e preservar nossa meditação. Podemos ler livros espirituais ou cantar canções espirituais. Nessa hora, automaticamente nosso ser interior vai nos inspirar a ler livros. Não vamos precisar usar a mente para pensar: “Oh, chegou a hora de ler”. Nosso ser interior vai nos ajudar a fazer a coisa certa. Agora mesmo, nosso ser interior está dentro de nós, profundamente escondido. Entretanto, estamos tentando o melhor, através do yoga, para trazer o ser interior à tona. Depois de ler por meia ou uma hora, podemos visitar um amigo espiritual ou, se isso não for possível, ligar para ele e falar sobre nossas experiências.
Também podemos escrever sobre nossas próprias experiências. Não vamos publicá-las mas, ao colocá-las no papel, vamos revelar nossa própria luz interior e aperfeiçoar nossa natureza espiritual. Por meia hora, podemos escrever e ler o que escrevemos. A cada vez que lemos uma das nossas experiências, obtemos paz, luz e felicidade abundantes. Isso não é falsa imaginação. Assim que escrevemos, criamos alguma coisa. O criador sempre quer apreciar sua criação. Veja o jardineiro. O jardineiro passa por poucas e boas ao plantar e regar a flor. Depois de seis ou sete meses, ao vê-la, ele a aprecia e admira profundamente. De modo semelhante, também conseguimos alegria com nossas criações.
Dessa maneira, fazendo todas essas coisas, podemos ir em frente por cinco ou seis horas. Mesmo enquanto estivermos comendo, podemos nos lembrar das experiências que tivemos na meditação de manhã cedo. Essa imaginação é como uma bateria. Estamos carregando nossa memória com nosso progresso espiritual. Dessa forma, podemos continuar, entrar ou reter nossa meditação.
No entanto, infelizmente, não fazemos isso. Meditamos por meia hora ou 45 minutos. Então nos sentimos cansados e exaustos. Nos envolvemos com pessoas não-aspirantes, lemos livros não-aspirantes, fazemos muitas coisas erradas depois de meditarmos. Sentimos que vimos uma margem do rio. Queremos ir para a outra margem. Mas a outra margem, infelizmente, é toda escuridão. Temos de tentar permanecer na margem que tem luz. Temos de fazer coisas que vão aumentar nossa meditação ou, pelo menos, reter o poder dela. Precisamos ser bem sábios na nossa vida diária, em como gastamos cada hora, cada segundo. Virá um dia em que não vamos ter nenhuma restrição na nossa vida. Nossa própria existência será um fluxo de aspiração. Entretanto, agora temos de usar nossa mente consciente para aspirar.
Precisamos meditar de manhã cedo e então ler, cantar canções espirituais ou encontrar pessoas espirituais. Quando estivermos no escritório ou fazendo alguma outra atividade, temos de tentar permanecer com o fluxo espiritual que obtivemos de manhã cedo. Da nossa meditação matutina, adquirimos paz, luz e felicidade, que são dinheiro espiritual. Precisamos depositar esse dinheiro no nosso coração, que é o mais seguro de todos os bancos. Assim, quando estivermos no trabalho, ao precisarmos nos proteger de pessoas não-aspirantes, podemos nos concentrar no nosso coração e trazer à tona um pouco de paz, luz e felicidade que adquirimos de manhã cedo. Desse modo, seremos capazes de manter nosso patamar espiritual e nosso nível de consciência elevado.
Pergunta: No começo da minha vida espiritual, eu tinha um monte de entusiasmo, mas ele minguou. Como posso continuar progredindo firmemente?
Sri Chinmoy: Ao embarcarmos na vida espiritual, precisamos de entusiasmo. Sem ele, não vamos nos mexer um centímetro. Entusiasmo é muito bom, mas disposição em demasia é ruim. Se comermos além da nossa capacidade, vamos ter indigestão. No seu caso, não era entusiasmo. Como um glutão, você ficou disposto ao extremo e tentou comer demais. Não devemos sentir que vamos realizar Deus numa só noite, ou que corremos numa competição em que tentamos vencer todo mundo. Estamos competindo, na verdade, apenas com nossa ignorância. Precisamos tanto de paciência quanto de entusiasmo para vencermos a corrida.
Devemos sempre sentir que temos algo para atingir e algo para dar. Se esperarmos por absoluta paz mental sem abnegação, vamos nos frustrar. Entretanto, o tempo é um fator importante. Podemos pensar com toda a sinceridade: “Vou realizar Deus amanhã”, mas nossa absoluta sinceridade não vai nos conseguir um mestrado numa só noite. Sinceridade é bom, mas devemos ser sábios também. Temos de conhecer nossa capacidade. Se decidirmos que em tal data vamos realizar Deus, estamos fadados ao desapontamento. Deveríamos nos lembrar de que somos como uma criança que estuda um ano, depois vai a uma série mais avançada. Também temos que estudar, que meditar com bastante entusiasmo, mas é um péssimo erro marcar uma data para a conquista da nossa meta. Se formos sinceros, Deus vai nos dar a realização na Hora escolhida por Ele.
Quando acendemos um fogão só um pouquinho, talvez não vejamos a chama. Ao acendê-lo bem, vemos a chama. Também na vida espiritual, primeiro a nossa aspiração é bem pequena. Mas, gradualmente, nos aproximamos pouco a pouco de Deus. Quando nos voltamos diretamente para Ele, nossa chama-aspiração vai queimar de maneira resplandecente. Na vida espiritual, vem uma hora – depois de cinco, quinze ou mesmo trinta anos, dependendo da Vontade de Deus – em que a meditação se torna espontânea. Uma vez que tudo se torne espontâneo, não vamos ter mais a experiência de entusiasmo por cinco minutos e então passar o resto do dia em depressão. Pensamos que, durante aqueles cinco minutos, ganharíamos milhões de dólares espirituais.
É sempre bom ter entusiasmo na nossa vida. De outra forma, não haverá progresso. No entanto, se tivermos disposição em demasia, tentaremos pegar coisas de Deus muito antes de estarmos prontos para recebê-las. Estamos correndo em direção ao nosso destino. Contudo, se tentarmos ir além da nossa capacidade, vamos apenas tropeçar, cair e nos machucar. Isso só pode atrasar nosso progresso. Sejamos pacientes e fiquemos contentes em ir um pouquinho devagar, mas constantemente e com segurança.
Problems! Problems! Are They Really Problems? 1, p. 55-57
Pergunta: Por que é que às vezes, quando alguém faz um progresso interior rápido, isso não se reflete na vida exterior dele?
Sri Chinmoy: Às vezes acontece de você ter a impressão de que alguém está fazendo um verdadeiro progresso interior, mas pode não ser assim. Algumas pessoas tentam mostrar seu progresso interior ou elas se iludem. Às vezes, você vê alguém que está rezando e meditando a toda hora. Fica com a impressão de que ele está fazendo um maravilhoso progresso. Mas só Deus sabe o que ele está fazendo: se está pensando em Deus ou enganando a si mesmo. Entretanto, se alguém realmente faz progresso, esteja certo de que a vida exterior dele também vai passar por uma mudança considerável.
Transformation-Night, Immortality-Dawn, p. 49
Você não terá nenhuma imperfeição quando se tornar consciente e constantemente um com a Vontade do Supremo a todo instante, e fazer a coisa certa de acordo com a mensagem que recebe do seu interior. De outro modo, sua atitude ou sentimento fará quase invariavelmente com que você cometa um erro deplorável. E ao cometer um erro sério uma vez, seu progresso interior pode parar. Ou se cometeu um erro sério, deplorável, então seis meses de progresso podem ser destruídos ou anulados. Porém, se fez uma coisa certa para agradar o Supremo em mim, esteja certo de que progrediu seis meses num efêmero segundo. Num segundo, você pode fazer um progresso surpreendente, incrível, que pode durar por seis meses. Contudo, se comete um erro bem sério, o Mestre perde toda a fé em você. Uma vez que ele perca a fé, seu progresso será totalmente destruído. Faça sempre o Guru sentir que pode ter fé implícita em você, na sua ação, na sua capacidade, na sua sinceridade, na sua devoção.
The Quintessence of Knowledge-Sun, p. 22-23
Pergunta: Como sabemos se estamos crescendo ou retrocedendo espiritualmente?
Sri Chinmoy: Em primeiro lugar, você não está retrocedendo. Não vai voltar à sua vida pregressa. Não desistiu do nosso caminho. Eu ainda sou seu Guru, então você não retrocedeu. Isso é um absurdo.
A outra pergunta é se você está fazendo progresso ou não. Às vezes, quando corremos o mais rápido possível, se nossas mãos, nossas pernas e nosso corpo inteiro estão em perfeita coordenação, sentimos que não estamos correndo. No entanto, se esticamos nossas mãos e nossas pernas, tentando fazer com que os outros e nós mesmos acreditemos que estamos correndo, sentimos que estamos indo bem rápido. Quando estamos no aeroporto, com toda a agitação dele, sentimos movimento. Entretanto, ao entrarmos no avião e começarmos a viajar 500 ou 600 milhas por hora, vamos sentir que não estamos nos mexendo.
Assim, quando você estiver firme no meu barco e confiar no barqueiro, talvez pareça que, às vezes, a embarcação não se mexe. Mas ela está se mexendo. Se você ainda está no barco, e está, tem de sentir que está fazendo progresso.
Há outra maneira de ver seu progresso. Você costumava apreciar vários pensamentos não-divinos: medo, dúvida, inveja e outros. Há quatro anos, veja quantas vezes era vítima dessas idéias. Mas agora, só de vez em quando, talvez esses pensamentos o ataquem. Naturalmente, você fez progresso. Aí está a prova.
The Illumination-World, p. 21-22
Questão: Às vezes, sinto que não só não estou fazendo progresso, como também regredindo na minha vida espiritual.
Sri Chinmoy: Infelizmente, algumas pessoas correm um pouquinho e já ficam cansadas. De fato, elas ficam tão cansadas que deixam que a ignorância as puxe para trás. Uma vez que você tenha começado a correr na vida espiritual, se avançar cansado e desistir da sua espiritualidade, não será capaz de permanecer no mesmo lugar. As forças da ignorância vão atacá-lo impiedosamente e arrastá-lo de volta para o mar dela. Mas a direção da evolução da alma segue apenas um caminho. O progresso que você fez durante sua vida de aspiração não será perdido. A ignorância do mundo físico e do mundo vital cobrem a alma a tal ponto que ela acha extremamente difícil se livrar desse fardo pesado de escuridão e ignorância. A alma fica coberta com um denso véu de ignorância, mas uma vez que o véu seja retirado novamente, toda a sabedoria da alma, adquirida na sua curta vida de aspiração, virá à tona. A alma sempre mantém a quintessência das suas experiências de progresso.
Problems! Problems! Are they really problems? 2, p. 35
Pergunta: Como trazemos o Espírito para o nosso dia a dia?
Sri Chinmoy: Com o despertar do dia, sinta que Deus vem primeiro na sua vida. Por alguns minutos, invoque a Presença de Deus. A Presença de Deus está sempre dentro de nós, mas se você sente que Deus está em outro lugar, no Céu altíssimo, então invoque a sua Presença…
Esse conceito eu conheço bem e comento com os buscadores interessados. E, hoje em dia, sinto que a meditação faz parte da minha vida, mas tendo feito a meditação matinal por 18 anos hoje, parece que ficou um pouco mecânica. Antes, cada dia era uma oportunidade única, algo a se desbravar. Hoje, é mais um dia, um bom dia e uma boa oportunidade. Percebem a diferença?
Ao ler o texto hoje, “Com o despertar do dia, sinta que Deus vem primeiro na sua vida”, lembrei de como era a minha aspiração ao acordar bem cedo para meditar assim que comecei a meditar em 2003. (Eu costumava acordar 3:45, e fazia uma preparação muito especial, tanto exterior quanto interior.) Fiquei inspirado a retomar aquela intensidade inicial. Fiquei tão inspirado que quis até mesmo escrever.
É por isso que devemos levar tão a sério os escritos de um Mestre.
Pergunta: O que você quer dizer por sentimento complacente?
Sri Chinmoy: Antes, por meses e anos alguns de vocês tentaram descobrir o sentido da vida, para que sua existência pudesse ter pelo menos um pouquinho de um sentimento de alegria ou razão de ser. Vocês estavam buscando alguma coisa, às vezes trabalhando com política ou se envolvendo com a sociedade, mas não havia uma meta mais elevada. Agora que vocês conhecem a meta mais elevada, é questão de atingir essa meta. No entanto, sentem que, por conhecer a meta, ela está ao seu alcance. Antes não havia montanha. Agora estão próximos à montanha e estão esperando para ver se alguém vai na direção dela. Se alguém for, então vão tentar escalar. Vocês se tornaram proprietários da montanha. Ela agora é propriedade sua. Se alguém vier, vocês vão escalá-la para mostrar que ela é realmente sua. É um sentimento complacente. A atitude deveria ser: “Sim, aqui está a montanha. Ela está me reivindicando, mas eu não vou exigi-la até atingir a meta”. Até esse momento, sua reivindicação não pode ser consciente. Às vezes, nos esquecemos totalmente disso. Vemos a imensidão da meta e dizemos: “Como é que podemos reivindicá-la?” Quando a meta olha para o peregrino, ela sempre o considera como sendo muito dela. Aqui, depois de chegar à base, aos pés da montanha, o peregrino deveria começar a escalá-la. Só assim ele pode considerá-la como sendo sua, de maneira consciente e constante. Se o peregrino não pode constantemente reivindicar a montanha, se não pode escalar sem a ajuda dela, então hoje dirá: “Não preciso dela”, e amanhã dirá: “É muito alta. Não posso assimilar a vastidão da montanha”.
Você obtém um falso senso de segurança de qualquer coisa a que está acostumado. Você vive numa casa. Logo na próxima porta, seus vizinhos são o medo, a dúvida e a destruição. A qualquer hora eles podem prejudicá-lo. No entanto, só porque vive perto deles por tanto tempo, obtém um tipo de falsa segurança.
Sri Chinmoy, Illumination-World, p. 14-15
Tive e observei algumas experiências na minha vida, de meus colegas e também pessoas que comparecem aos cursos de meditação. Todas essas experiências me lembram da importância da fé, e como ela é superior ao nosso sentimento de segurança que vem da experiência.
Esse sentimento de segurança é um paliativo para a nossa insegurança, e não uma solução. Ficamos amarrados a ele e não saimos do lugar, para não nos arriscarmos. É um estágio da nossa evolução, e possui um papel a cumprir, apesar disso.
Já, no caso do buscador espiritual, sua fé é sublime – ela mostra de formas sutis o seu destino maior. Se você estiver com o coração aberto para sentir, ela lhe levará às margens de um além mais dourado do que o que seus olhos enxergam agora – além das brumas.
É como o Cristo disse ao seu discípulo Tomás: “Você viu, portanto acreditou. Mas bem-aventurados são aqueles que acreditaram sem ver.”
Dicas para meditação 45 – deixando de acalentar más qualidades
Pergunta: Qual é a pior impureza?
Sri Chinmoy: A pior impureza é o pensamento negativo. Ao estar impuro, você diz: “Não consigo. Não posso fazer a coisa certa. Não posso pensar em Deus ou meditar em Deus. Não posso ver a Luz ou a Verdade”. Isso é dúvida. É a pior impureza possível.
Sempre temos de ver a luz de uma maneira positiva. Posso dizer que tenho luz numa medida pequenininha, minúscula. No entanto, se eu falar: “Não tenho luz nenhuma. Tudo o que tenho é escuridão”, então estou enganando a mim mesmo. Mas se um ser humano comum diz que tem luz abundante e ilimitada, ele também está apenas se enganando.
Se você pensa que não tem nenhuma luz e que é todo escuridão, isso é falsa modéstia e auto-engano. A falsa modéstia e o auto-engano nunca vão levá-lo à realização em Deus. Se você pensar constantemente: “Sou impuro, sou insincero”, então realmente vai ficar impuro e insincero. Alguém pode lhe falar: “Sou impuro”, mas quando diz isso, sente no fundo da mente que é pelo menos uma gota mais sincero que o vizinho dele, que o amigo dele, ou que alguma outra pessoa. Desse modo, a insinceridade também vem da impureza. Portanto, insinceridade, imperfeição e pensamentos negativos são todos formas de impureza.
Quando vemos alguma coisa dentro de nós mesmos, tentamos exibi-la exteriormente. Se tenho insinceridade por dentro, vou demonstrá-la por fora também.
Isso quer dizer: se tenho insinceridade por dentro, vou buscar refúgio exteriormente na casa da insinceridade. Entretanto, se sou sincero e puro por dentro, exteriormente vou procurar abrigo na casa da pureza e da sinceridade.
Portanto, a pior impureza inclui as formas negativas de pensar, a insinceridade e o sentimento de indignidade. Todas essas qualidades negativas são auto-impostas.
Flame-Waves 12, p. 46-47
Pergunta: Guru, como podemos parar de acalentar inconscientemente pensamentos não-divinos?
Sri Chinmoy: Sinta que existem dois competidores: seu Guru e os pensamentos não-divinos. A quem você quer satisfazer? Se quer me satisfazer, não pode acalentar esses pensamentos, porque você sabe que vão fazê-lo se sentir miserável. Ou sinta que você tem um quarto para alugar. Você quer alugá-lo para minha compaixão, amor e consideração, ou quer alugá-lo para os outros locatários: medo, dúvida e insegurança?
Se você não quer acalentar um pensamento, assim que ele vier diga imediatamente: “Guru, Guru, Guru, Guru, Guru, Guru!” Diga isso bem rápido, como um trem bala. Ou pode dizer “Aum” ou “Supremo”. Enquanto estiver dizendo isso bem rápido, esse pensamento não poderá entrar. Depois de cinco minutos, você vai ver que pensou em mim por muito tempo, ao passo que teve esse pensamento não-divino só por um segundo. Vai obter coragem da coisa que fez por tanto tempo.
Você obtém um falso senso de segurança de qualquer coisa a que está acostumado. Você vive numa casa. Logo na próxima porta, seus vizinhos são o medo, a dúvida e a destruição. A qualquer hora eles podem prejudicá-lo. No entanto, só porque vive perto deles por tanto tempo, obtém um tipo de falsa segurança. A três quarteirões, você tem um vizinho que é muito simpático: todo compaixão, amor e consideração. Ele é a sua alma. Mas só porque ele está a três quarteirões de distância, você não o chama. Sente que ele está muito longe e que não é forte o suficiente. Entretanto, isso está errado. O amor, a compaixão e a consideração da alma são extremamente poderosos. Ou você pode sentir que o amor da alma é enorme e, por causa dessa enormidade, você fica com medo. As qualidades não-divinas são pequenininhas. Você sente que pode controlá-las. Quando entram em você, nessa hora elas o controlam.
Illumination-World, p. 14-15
Pergunta: Guru, ao dizer que acalentamos dúvidas e outras coisas não-divinas, o que quer dizer com “acalentar”?
Sri Chinmoy: Quando digo que você acalenta algo, quero dizer que obtém uma espécie de alegria sutil disso. Quando o pensamento começa, é como uma criancinha. Quando uma criancinha belisca um adulto, ele fica com dor. Mas só porque ela é apenas uma criancinha, o adulto não a interrompe. Ele sente dor, mas também uma espécie de alegria por uma coisinha tão pequena estar beliscando-o. Então, quando a criança fica mais velha, o adulto a deixa continuar beliscando-o, porque está obtendo um pouquinho de alegria. Quando a criança cresce e se torna um adolescente, ao beliscar o adulto, vai realmente machucá-lo. Ao crescer, essa criancinha vai dar realmente uma pancada naquela pessoa.
Portanto, esse minúsculo pensamento não-divino, ao começar, é muito pequeno. Ele causa um pouquinho de dor, mas também dá um pouquinho de alegria. Você sente que está protegendo-o, que ele está sob seu controle. Sente que pode jogá-lo fora a qualquer hora. Permite que o pensamento venha à sua casa. Se é um desejo, sente que a qualquer hora pode satisfazê-lo ou não, que depende de você, já que você é o anfitrião. Entretanto, uma vez que esse pensamento entrou na sua casa, vai crescer. Ao ser acalentado, sente que a casa é realmente a casa dele, e que ele é o anfitrião e você o convidado. Então, a responsabilidade é sua.
Quando oramos, podemos repetir uma oração formal, com palavras fixas, ou então buscar no nosso eu interior por uma oração pessoal, espontânea. Qual das duas é melhor?
Algumas das vantagens da oração formal que você recebeu do seu Mestre espiritual é a disciplina – você sabe que a oração está lá – e a precisão – você sabe que a oração está correta, pois veio de um Mestre espiritual verdadeiro que alcançou a iluminação. Você pode recitar a oração todos os dias, ou várias vezes no dia, como um verdadeiro mantra. Ela é um texto fixo, que você decora e repete. Você exercita a sua regularidade, intensidade, aspiração e obediência.
A desvantagem da oração fixa é que, ao se descuidar, você pode acabar fazendo ela mecanicamente, sem sentimento interior, o que diminui o seu valor.
Já a oração espontânea você verbaliza de acordo com a sua busca, com o seu anseio naquele momento. O importante é o sentimento de necessidade de proximidade com o Supremo. Um exemplo muito famoso é a oração do Cristo: “Seja feita não a minha, mas a Vossa Vontade.”
A vantagem é que essa oração pode ser mais sincera, mais devotada, mais pessoal. Já as desvantagens são que ela pode ser egoísta, vaidosa ou inadequada, pois reflete o seu estado completo no momento e ainda não alcançamos a iluminação. O fato de não ser uma forma fixa também pode contribuir para que você não a faça regularmente, diariamente.
Não é possível para um mero buscador saber qual forma é melhor em cada caso. Na dúvida, faça ambas, e faça a oração formal mesmo sem compreendê-la completamente, por obediência – assim como vamos para a escola obrigados pelos pais e sem saber exatamente por que é importante ir para a escola. Depois de anos, perceberemos a importância de termos sido disciplinados pelos nossos pais – eles possuem mais sabedoria.
If our prayer and meditation are informal, this does not mean they are bad. But at the beginning of our spiritual life we will never get intensity from anything that is informal. When we talk informally or mix with anybody informally, we may get real pleasure, but there is no intensity. Only if one has intensity will he get real joy. Informal things, especially if they are inner, will automatically be relaxed because they will find no focus, no energy, nothing to help them stay for a longer time. There is no abiding life in them. The forms of ritual will give them a firm foundation to rest on.
These so-called rituals are of supreme necessity in the beginning, because the physical mind has to be convinced. A day will come when the physical will be fully convinced. Then the seeker will deal directly with the soul and will become part and parcel of the consciousness of the soul. His inner intensity will be spontaneous and constant. At that time, he will not need any rituals.
If there is intensity, one will see the source and the goal. Intensity is like a bullet that comes from this specific place and goes to that specific place with a positive force and direction. When there is no intensity, one’s prayer cannot reach its goal. The best thing to do when praying is to be very formal and systematic, to have a purpose and a pattern. But one also has to remember that when prayer is too formal it is in danger of becoming mechanical.
Sri Chinmoy, Prayer-world, mantra-world and japa-world, Agni Press, 1974
Dicas para meditação 43 – percebendo o progresso e os desafios
Pergunta: Como podemos ser sinceros conosco mesmo, para vermos de modo mais claro como estamos progredindo?
Sri Chinmoy: Quando uma criança tem sete anos de idade, se faz alguma coisa errada mais de uma vez, acaba percebendo isso. Na primeira vez em que faz algo errado, não percebe. Mas, ao repetir o erro, acaba sabendo que o que está fazendo é errado. Alguns de vocês costumavam me falar que não percebiam o que estavam fazendo. Mas eu sei que não existe um discípulo sequer que nunca teve uma boa meditação. Suponha que alguém esteja comigo por dois anos. Durante esses dois anos, ele não pode me dizer que nunca teve uma boa meditação. Ele teve. Se teve uma meditação boa, elevada, então digo que nas profundezas daquela meditação, as boas e as más qualidades dele se revelaram. Durante esses dias de boa meditação, o Supremo nele trouxe à tona suas qualidades divinas e também as não-divinas. As qualidades não-divinas vieram à tona para que ele pudesse ver o que precisa ser transformado. Se alguém está comigo por até mesmo dois meses, suas boas qualidades vieram à tona e suas más qualidades também começaram a vir para fora – não para intimidá-lo, mas para serem transformadas. Deus está dizendo: “Aqui estão as coisas que você tem de transformar e aqui estão as coisas das quais pode ter orgulho”.
Não se sinta desapontado, desanimado ou desencorajado ao ver suas más qualidades. Depois que forem transformadas, vão se tornar uma só com as qualidades boas. Se você tiver uma boa meditação num certo dia, nesse dia as boas qualidades virão à tona. As qualidades ruins virão para fora, para deixar você saber que essas são as coisas que têm de ser transformadas, e quanta distância ainda falta para você chegar à Meta.
Ao ter a mais elevada meditação, por um lado você vai sentir que está bem próximo de Deus. Por outro, sentirá que ainda tem muito para transformar, que só Deus sabe quanto tempo vai levar. Há apenas dois centímetros entre você e Deus, mas esses dois centímetros podem lhe parecer uma estrada interminável.
A sinceridade vem do coração, não da mente. A mente é travessa. Ela vai confundi-lo. E também o vital e o coração estão infelizmente muito próximos um do outro. O vital está próximo da região do umbigo. De lá, a energia vital pode entrar no coração. Portanto, se você sentir que está recebendo várias mensagens do coração, provavelmente está recebendo mensagens do vital.
A melhor forma de saber se está sendo sincero é ver quanto você se entregou ao seu ser interior. Pode saber o quanto se entregou ao ver o quão alegre você é. Mas isso não pode ser uma falsa alegria.
Quando alguns discípulos me olham com os semblantes tristes, digo a eles: “Por favor, por favor, não fiquem deprimidos. Sorriam para mim, sorriam para mim”. Então eles sorriem para mim, mas sei que é um sorriso absolutamente falso. Entretanto, eu sinto: “Tudo, bem, comecem com uma felicidade falsa. Ao invés de me mostrar uma face de abatida depressão, arrogância e outras qualidades não-divinas, pelo menos comecem com um sorriso falso. Um dia me darão um sorriso sincero, com toda a alma”.
Meditation: God’s Duty and Man’s Beauty, p. 55-59
… Em primeiro lugar, você tem de perguntar se esses problemas de agora existiam antes. Imediatamente a resposta virá: sim. Então, como é que agora está ciente deles, e naquele tempo não os percebia? Precisa saber que, quando você vive uma vida comum, não-aspirante, as forças hostis são espertas. Elas sabem que você está à mercê delas. Elas conhecem sua capacidade. Sabem que está na ignorância e aos pés delas. Então falam: “Tudo bem, já que ele está dormindo, não vamos incomodá-lo”. Mas, na hora em que você se levantar, elas vão atacá-lo.
Existem muitos buscadores que ficam reclamando ao Mestre deles: “Antes de aceitarmos a vida espiritual, tínhamos menos problemas. Agora que a aceitamos, nossos problemas aumentaram”. Mas isso não é verdade. Eles devem saber que tinham esses mesmos problemas. Só que não sabiam como vencê-los. É por isso que não estavam cientes deles. Se você não quer vencer alguma coisa, está dormindo profundamente e o problema está dormindo profundamente. Entretanto, agora que você entrou na vida espiritual, está enfrentando todos os seus problemas. Já que está enfrentando-os, as forças hostis ficarão com eles e tentarão combatê-lo. Elas alimentam os problemas, para que assim eles continuem a lutar. Mas essas forças sabem que não serão capazes de vencê-lo. Apenas vão tentar atrasá-lo, atrasá-lo. Assim, você precisa enfrentá-los.
Se você não aceitar os problemas, como vai vencê-los? Se tentar evitá-los, eles vão vir com mais poder. Com bastante veemência eles virão e vão atacá-lo. Você não pode se esconder dos seus problemas. Precisa vencê-los aqui e agora. Se esperar e disser: “Não, amanhã eu serei mais forte, e então serei capaz de vencê-los”, esse amanhã não vai vir. Cada segundo é uma oportunidade dourada, e se você usa mal essa oportunidade dourada, está fortalecendo inconscientemente as forças da ignorância.
The Jewel of Humility, p. 33-35
…Ao entrar na vida espiritual, às vezes você vê e sente que muitas qualidades não-divinas, de repente, estão vindo à tona. Alguns discípulos perguntam aos seus Mestres: “Como é que eu nunca tive inveja antes? Eu não tinha essa insegurança, essa frustração e outras coisas. Por que estou tendo-as agora?”
Antes de entrarmos na vida espiritual, estávamos todos inconscientes. O tigre dentro de nós estava dormindo. Porém, quando o tigre vê que estamos tentando deixar os domínios dele, diz: “Aonde estão indo? Que direito vocês têm de me deixar? Vou devorá-los antes que me deixem!” Enquanto o tigre-dúvida está confiante o suficiente de que você vai ficar com ele por todo o tempo, não sente a necessidade de intimidá-lo ou amedrontá-lo. No entanto, quando você começa a tentar sair da sua jaula-escravidão, o tigre-ignorância tenta impedi-lo. Ele o ataca veementemente com dúvidas e outras forças não-divinas, tão logo sente que está ameaçando deixá-lo. É por isso que você é atacado assim que vem ao Centro meditar. É onde as forças divinas são mais fortes. Portanto, é onde o tigre-ignorância se sente ameaçado por você.
Não pense que as fraquezas e imperfeições estão vindo à tona só porque você aceitou a vida espiritual. Pelo contrário: elas estavam ali antes, mas estavam escondidas. Você deveria ser grato à sua vida espiritual por ter trazido suas imperfeições para fora. Quanto mais cedo suas imperfeições vêm à tona, mais cedo você será capaz de enfrentá-la e vencê-las. Quando a dúvida e outras imperfeições o atacarem, deveria dizer: “Vocês vieram. Agora me deixem vencê-las de uma vez por todas. Assim, eu serei livre”.
Muitos discípulos são perfeitos quando estão em casa, mas na hora em que vêm ao Centro, ficam invejosos ou começam a duvidar deles mesmos ou suas mentes ficam cheias de pensa-mentos não-divinos. Assim que olham para mim, dizem interiormente: “Oh, estou acalentando esses pensamentos não-divinos!” Eles têm medo de que eu veja seus pensamentos não-divinos. Então, tentam escondê-los, como um ladrão. Todavia, deveriam agir como uma criança e não como um ladrão. A criança não fica envergonhada quando está suja. Ela só corre até a mãe e ela o limpa.
Há muitas pessoas que têm praticado asanas, posturas físicas, por muitos anos, sem nunca ter tido mesmo uma única experiência. Por quê? Não é a postura o que vale. Não é a postura ou como você se senta. É a aspiração. Se você tivesse a capacidade, poderia até mesmo deitar e ainda meditar. Poderia correr e meditar.
No seu caso particular, posso ver claramente que a sua postura está correta, mas que a coisa que é de fato necessária na posição de lótus está faltando. Quando estiver sentado de pernas cruzadas e inspirando ar, o corpo todo deveria sentir conscientemente um rio de Amor divino fluindo em e através dele. Sem Amor não há Deus, e também não há existência humana. Você se ama, você ama Deus, você ama seus entes mais queridos e próximos e você ama a humanidade inteira. Por favor, tente primeiro trazer à tona o aspecto do Amor de Deus, e, uma vez que tiver firmado dentro de si esse aspecto de Amor, verá que todos os outros aspectos estão destinados a vir. O amor é a qualidade pioneira. Portanto, quando você chorar por Deus, sinta Amor – Amor imediato, espontâneo, sem reservas e devotado. Todas as qualidades divinas de Deus virão a seguir esse Amor divino.
Uma historinha pessoal sobre a postura interior para meditar bem
Agora que vocês já leram os escritos, posso deixar uma impressão pessoal, ou talvez uma historinha pessoal.
Eu acho que não sei e nem consigo meditar. E nem tenho uma postura física ideal. Mas, de vez em quando, acho que fiz ou me propus sinceramente a fazer uma ou duas coisas certas, algo que era esperado de mim. Muitas vezes nesses dias é que tenho uma boa meditação, seja antes ou depois de fazer (consigo lembrar de vários casos). Só que essas coisas não são minhas próprias ideias, mas sim inspirações que recebi. Parecem ser minhas ideias, mas se me permitir ser mais observador, percebo que elas são de fato coisas que recebi como inspiração, e não fruto da minha diligência ou inteligência. A Compaixão é quem medita em e através de mim, e, portanto, de vez em quando, eu consigo meditar bem.
Dicas para meditação 42 – Como posso saber se estou meditando demais?
Pergunta: Como posso saber se estou meditando demais?
Sri Chinmoy: Como pode saber se está meditando demais? É muito simples. Se estiver meditando demais, vai ter uma espécie de tensão ou dor no terceiro olho. Se estiver meditando muito – quer dizer, além da sua capacidade – vai adquirir uma postura rígida. Pode sentir: “Sou tão divino, tão perfeito, enquanto o resto das pessoas é imperfeito e não-divino. São todas criaturas insignificantes”. Se estiver tentando puxar paz, luz e felicidade além da sua capacidade, pode não obter mais nenhuma alegria ou satisfação das suas atividades terrenas. Pode sentir que essa existência terrena sua é inútil e sem significado. Se tiver esse tipo de desgosto, depressão ou sentimento ascético, e quiser se retirar do mundo, precisa saber que está tentando meditar além da sua capacidade.
Pode ser também que esteja tentando meditar do jeito errado – quer dizer, de uma maneira diferente da que sua alma quer que medite. Você pode meditar, digamos, por apenas quinze minutos, que é um tempo pequeno para a meditação. Porém, se a forma da meditação não for correta para você, sentirá uma tremenda tensão na sua testa.
Aspiration and God’s Hour, p. 16-17
Pergunta: Ao meditar, perco energia e fico cansada. É por que eu medito demais?
Sri Chinmoy: Não, não é porque você medita demais. Se está perdendo energia enquanto medita, significa que sua meditação está incorreta. Se meditar bem, vai ganhar energia. Não vai perdê-la. Se fizer a coisa certa, naturalmente será bem sucedida. Mas se meditar de uma forma errada, então a meditação falhará em seu propósito.
Sua meditação, infelizmente, não é da maneira que deveria ser. Você deveria meditar no seu coração ou no seu ser interior. No entanto, está meditando na mente ou num outro lugar errado. Esse é o seu problema.
Meditação é a única maneira de ganhar energia infinita, luz infinita e felicidade. Todavia, se o método que você usa todos os dias está errado, naturalmente vai perder energia ao invés de ganhá-la.
Aspiration and God’s Hour, p. 27-28
Pergunta: Poderíamos ter uma semana de meditação contínua para fazer algum progresso?
Sri Chinmoy: Assim, vão ter que abrir mais hospícios. Não é possível. Apenas Mestres espirituais podem meditar por horas e dias a fio. Buscadores comuns precisam falar e se envolver com as pessoas. De outro modo, ficarão loucos. Qualquer indivíduo tem de ver e falar com os outros e obter uma vibração exterior. De outra maneira, a mente e os nervos ficam muito agitados. A raiva vem e também um tipo de orgulho sutil: “Não falei com ninguém por uma semana”. Eles se tornam anormais.
Meditar 24 horas por dia é bem possível, mas só depois que realizar Deus ou estiver à beira da realização. Nessa hora, você terá adquirido a capacidade. Assim, mesmo enquanto estiver comendo, falando ou trabalhando no seu escritório, verá que está fazendo sua melhor meditação; verá que pode fazer quatro coisas ao mesmo tempo.
Pergunta: A consciência física pode ficar atrás enquanto a consciência psíquica está recebendo uma luz mais elevada?
Sri Chinmoy: Isso já aconteceu várias e várias vezes, milhares de vezes. A consciência psíquica está recebendo Paz, Luz e Felicidade de cima em medida abundante, enquanto a consciência física não é poderosa o suficiente ou ampla o suficiente para retê-la. Então, o que acontece? Finalmente o físico se revolta e nós sofremos. É por isso que digo aos discípulos: “Não empurre, não puxe”. Espiritualidade é uma questão de aceitação e transformação. Aceitamos a nossa vida como ela é. Então, tentamos transformá-la. Mas não fazemos isso a ferro e fogo. O meio divino é através da aspiração. Se puxarmos além da nossa capacidade, vamos quebrar. Se uma criança quer carregar algo muito pesado, além da capacidade dela, sofrerá. Devagar e sempre vencemos a corrida.
Aqui, capacidade é receptividade. Se desenvolvemos uma grande receptividade, então não importa quão elevado é o nosso nível espiritual ou quanto trazemos lá de cima, seremos capazes de assimilá-lo. Se o recipiente é bem largo, não precisamos nos preocupar. Quando aspiramos escalar para o nível mais elevado, temos de aspirar por expansão. Não só iniciantes, mas também buscadores com essas deploráveis experiências. O físico se revolta quando não é espaçoso o suficiente para reter a Paz, a Luz e o Poder que o psíquico traz para baixo. Deveria haver uma harmonia perfeita entre a capacidade física e a capacidade do coração.
Aspiration and God´s Hour, p. 43-44
Pergunta: Na minha meditação, várias vezes tive a experiência de que eu era livre. Senti a liberdade da minha existência. Mas então tive que voltar à minha vida habitual, e me senti muito cansado e esgotado.
Sri Chinmoy: Quando você tem uma experiência mais elevada, é uma coisa que nutre, alimenta, fortalece e ilumina sua vida. Mas se estiver exausto, esgotada a sua energia, isso significa que você puxou além da sua capacidade. De outro modo, logo após a meditação, se foi uma meditação apropriada, vai ganhar a força de um leão. Às vezes, acontece de você sentir que foi ao alto, muito alto, e então distribuiu tudo o que recebeu. No entanto, isso não aconteceu no seu caso.
Discípulo: Também me sinto muito triste quando volto.
Sri Chinmoy: A tristeza que está sentindo é muito natural, porque você esteve num mundo mais elevado e então teve de voltar para este mundo prático, o plano terreno. Nessa hora, preocupações e problemas mundanos entraram em você. Mas se meditar por alguns anos, esses problemas não vão ficar no seu caminho, porque já terão sido superados nesse momento. Quando você voltar da sua meditação, terá uma tremenda paz, equilíbrio, alegria e amor pela humanidade. Ao ter um tremendo amor pela humanidade, nessa hora não vai se sentir exausto. Pelo contrário: se meditar bem, não haverá puxar nem empurrar. Logo depois da sua meditação, ao entrar na vida comum, será capaz de manter a mesma alegria, deleite, paz e equilíbrio.
Dezoito anos atrás eu estava me recuperando de um ferimento num dos ossos das pernas e não estava fazendo exercício nenhum, pois acreditava que não conseguiria mais. Eu era um bom rapaz, que não fazia nada de mal, mas também não fazia nada muito significativo ou frutífero. Minha vida era meio vazia. Num daqueles dias, eu fui num curso gratuito de meditação. O palestrante tinha levado uma foto do seu Mestre espiritual, Sri Chinmoy. Em dado momento do curso, parei de prestar atenção no que se falava e comecei a olhar para a foto. Parecia que ela retornava o olhar para mim, um olhar sério – como se aquele Mestre tivesse responsabilidade por mim, como se a minha vida e meu progresso fosse responsabilidade dele também. Foi algo que nunca esqueci.
Alguns meses depois, me tornei discípulo dele e também passei a meditar diariamente. Uma das coisas que Sri Chinmoy considera essencial para um buscador espiritual que deseja fazer progresso é o esporte, e deixou exemplo correndo inúmeras maratonas e ultramaratonas. Um dos seus lemas é “Run and become, become and run.” Ele ensina que o esporte é fundamental para termos saúde, purificar nossas emoções e trazer determinação, luminosidade e espontaneidade para o físico e mental. Com isso, a sua prática intrinsecamente espiritual de meditação e oração também se beneficia, pois o instrumento (que é você todo, todas as suas partes do ser) está em boas condições. Lembro que bem no dia que recebi a notícia de que tinha sido aceito, eu fiquei tão inspirado que saí para correr pela primeira vez, já que era a recomendação do Mestre.
Passados uns dez anos, tive um caso de dengue muito sério. Não conseguia me recuperar. Todos os dias eu ficava muito fraco, a ponto de querer perder a consciência. Nenhum médico conseguia descobrir o que era. Depois de meses e anos piorando gradualmente, no trabalho (eu era obrigado a ir, por não ter diagnóstico), eu lembro que queria muito desmaiar, para não precisar mais ficar resistindo. Nos dias não tão ruins, eu pensava “Vou tentar viver só mais uma semana.” Nos dias ruins, pensava “Vou tentar viver só mais amanhã.”
Em 2013, um médico de ayurveda pegou o meu pulso e viu tudo o que acontecia. Ele recomendou que eu me mantivesse fisicamente ativo durante o dia, por mais difícil que fosse. Eu já tentava correr o quanto eu conseguia de manhã, que era quase nada, mas adicionei pausas no trabalho para subir e descer escadas, etc. Não pareceu adiantar. Até que um dia fiquei sabendo da corrida que o meu Mestre (sim, ele novamente) havia criado em em Nova Iorque, com opção de seis ou de dez dias de duração. (Isso mesmo, você corre por até dez dias dentro de um parque, como se fossem dez corridas de 24h uma em seguida da outra.) Eu pensei, “vou ficar fisicamente ativo bastante tempo se fizer essa corrida!” Eu já não tinha mais nenhuma ideia do que fazer e estava piorando ainda. Eu me inscrevi para a corrida de dez dias. Foi a decisão de investir a minha vida inteira naquele único momento. Se não desse certo e fosse a minha última aventura por aqui, muito bem! – pelo menos eu haveria tentado tudo.
Alguns me perguntaram porque eu comecei com a corrida de dez dias, ao invés da de seis. Um dos motivos é que eu havia perdido o medo de tudo. Outro é porque não achava que haveria diferença treinar para correr seis ou dez dias. (O que você faria de diferente se fosse “treinar” (se é que é possível) para correr seis dias e se fosse para treinar para dez dias?)
Durante a corrida, as experiências acontecem de hora em hora. Tive muitos problemas biomecânicos – pés, joelhos, costas, canela. Sempre tinha que me adaptar, cortar os tênis para dar espaço para os pés inchados, cuidar de bolhas, etc. Mas o fato é que nem tudo tem conserto. Já no meu segundo dia, depois de uma pausa, pensei “Isto aqui não é para mim. Isto aqui é para atletas, etc. Eu não sou ninguém.” Chega uma hora, onde o cansaço, os ferimentos, a dor, a dúvida de si, tudo isso se junta, e não há algo que você possa fazer para resolver. Só há duas estradas. Desistir, ou continuar.Neste exato momento, você tem que ficar mais forte do que é, ou então desistir.
Felizmente, diversas vezes pude cantar com o poeta: “Duas estradas divergiram num bosque, e eu – eu tomei a estrada menos viajada. Isso fez toda a diferença.”
São coisas que vêm de dentro de nosso do nosso coração espiritual. Sinto que foi a prática diária de meditação que me deixou aberto para essas experiências. Eu era muito fechado para tudo, minha vida era mecânica; quando comecei a meditar com dezenove anos, minha vida era só o andar dos ponteiros do relógio e o que mais aparecesse no dia a dia da faculdade. Não tinha um propósito maior.
Já, na corrida, por mais que pareça impossível, inflamações que me deixariam de cama por dias (e não me deixariam sair para correr cinco minutos) passaram a ser meros inconvenientes, e eu corria três, seis, dez, doze horas em cima delas. Correndo dois ou três dias por cima de um machucado, o seu corpo muda algo na forma de reagir, e o problema passa. Provavelmente um médico me recomendaria semanas de descanso para recuperar. Mas o problema se cura com doze horas de corrida e muito pouco sono! Algumas experiências como a canelite, que foi a mais terrível, fez com que, primeiro sentisse toda a pena de mim. Lembro de sentar-me no meio fio e ficar vários minutos parado, criando coragem para encarar a dor caminhar mais dez metros até a minha barraca para descansar de fato. Depois de um tempo, aceitei a experiência num nível mais alto, enfrentei-a e, para a minha surpresa, a dor imediatamente diminuiu muito.
Depois de uns seis dias, minhas pernas estavam ficando mais fortes (sem descanso algum), e comecei a correr mais rápido. Comecei a comer menos. Comecei a dormir menos. Parecia que o corpo estava funcionando com base em outras leis que não vivenciamos no nosso cotidiano de acorda-trabalho-escola-dorme.
Desafios exclusivamente psicológicos também acontecem. Num dos dias, acho que esqueceram de contar uma ou duas voltas minhas na pista do parque. Minha mente se revoltou. Mas eu sabia que não estava lá pela quilometragem. Para mim, era algo exclusivamente entre eu e algo maior, um destino aonde precisava chegar. Mas, ainda assim, os pensamentos me mordiam: “Eles esqueceram!” Depois de muitas horas insistindo com a mente, um vai-e-volta constante, dizendo que nada daquilo importava de fato, ela por fim se rendeu. Tive uma experiência incrível! Fiquei livre daquele fardo e estava correndo como uma criança que brincava num parque! Nunca mais tive esse problema!
Mais no final da corrida, pelo sétimo dia, tudo era um paraíso. Eu enxergava mais cores nos pássaros. Eu sorria mais sinceramente. Eu me identificava com as pessoas. Eu sentia algo genuíno pelos ajudantes voluntários organizando a corrida. Sorria com sinceridade para eles, para encorajá-los, pois também estavam fazendo algo difícil. O mundo ficou muito maior, mais belo e, ao mesmo tempo, cabia muito mais coisas dentro do meu coração. Essa não foi uma experiência que acabou depois de algumas horas. Ela ficou para sempre dentro de mim.
Cada dia nessa corrida parecia uma semana. Acho que é por causa do progresso que fazemos. Aprendemos tantas coisas, temos de nos tornar tão mais fortes de um momento para o outro, que a sensação é a de anos de aprendizado.
Alguns dias depois da corrida, comecei a ficar mais forte. As crises de fraqueza começaram a diminuir em intensidade e regularidade. Tive esperança novamente. Depois de um ano, comecei a ficar fraco de novo, mas repeti a corrida nos anos seguintes, com melhoras evidentes. Hoje, quase tudo já passou – o que ficou mais foram as memórias.
Até hoje, já fiz essa corrida oito vezes, e ano que vem a farei novamente! Tudo começou naquele dia, no curso de meditação.
Se você acredita que correr dez dias é incrível (e estaria certo), já ouviu falar da corrida de 5000km? O tempo limite é 52 dias, mas você precisa fazer quase 100km por dia em média para terminar nesse tempo.
No começo, por favor, não fique perturbado se não conseguir meditar bem. Só Deus sabe quantos anos de prática alguém deve ter para se tornar um pianista muito bom. Se um ilustre pianista pensa no seu próprio nível quando começou a tocar, ele vai rir. É por meio do progresso gradual que ele atingiu o patamar atual na música. Também na vida espiritual, não se preocupe no começo se achar difícil meditar. Não empurre nem puxe. Dez minutos de manhã cedo são o suficiente.
Se meditar todos os dias, será capaz de fazer progresso na sua vida interior. Mas você tem de sentir que não pode comer uma refeição deliciosa todos os dias. Hoje, talvez você coma um prato muito delicioso. Então, por três ou quatro dias pode comer um alimento muito simples. Contanto que esteja comendo e arranjando um alimento nutritivo, saberá que está mantendo o seu corpo. Portanto, se tiver uma boa meditação num dia e no dia seguinte não conseguir uma meditação boa, não se sinta mal. Na vida espiritual, o seu negócio é meditar e meditar. Se num dia você não conseguir meditar muito bem ou de acordo com a sua satisfação, por favor, sinta que em algum outro dia o Senhor Supremo vai lhe dar de novo a oportunidade, a inspiração e a aspiração para meditar extremamente bem. Todavia, se você se sentir perturbado ou irritado, vai perder a oportunidade de meditar bem no futuro. A melhor coisa é ficar bem calmo, quieto e firme na sua vida espiritual. Você será capaz de meditar bem e a sua meditação será da mais alta categoria.
-Sri Chinmoy, Dependence and Assurance, p. 10-11
Pergunta: Recentemente, ao meditar, tenho tido sensações dolorosas. São ataques de forças não-divinas?
Sri Chinmoy: Não são forças erradas. Não são não-divinas no seu caso. São forças divinas, mas infelizmente você as está puxando muito além da sua capacidade. Seu receptáculo interior não é largo o suficiente para conter as forças que você está trazendo para baixo. É por isso que está tendo essas sensações dolorosas. De outro modo, haveria um fluxo suave, contínuo.
Ao meditar, por favor, sinta que a meditação não é a atitude de um glutão. Quando somos glutões, queremos devorar tudo. Nos tornamos devoradores vorazes e depois ficamos com dor de estômago. Na vida espiritual, temos de ir de maneira vagarosa, firme e sensata. Quando oramos e meditamos, em primeiro lugar precisamos saber da nossa capacidade. Aqui não estamos nos desencorajando. Se eu souber que a minha capacidade é correr cem metros, então vou correr cem metros por alguns dias ou alguns meses ou até mesmo, se a necessidade exigir, por alguns anos. Mas se eu tiver a capacidade de correr só cem metros e de repente quiser correr 400 metros, naturalmente vou desabar. Vou completar a corrida com uma enorme dificuldade e então vou cair. Simplesmente me arruinarei.
Aqui também, ao meditarmos temos de saber por quanto tempo podemos meditar com toda a alma: se por cinco, dez, quinze ou vinte minutos. Depois desse período, podemos ter um tipo de cobiça inconsciente. Se sentirmos que podemos conseguir tudo numa só noite, vamos todos virar almas realizadas em Deus. Mas esse tipo de avidez será a causa da nossa queda.
Ao orarmos e meditarmos, temos de saber da nossa capacidade: quanto podemos nos esforçar e quanto amor, devoção e entrega com toda a alma temos por Deus. Uma criancinha tem uma certa força. No entanto, ela não sabe que, quando puxa algo grande para baixo, imediatamente isso cai e quebra as suas mãos e os seus braços. Assim como a criança, estamos puxando para baixo alguma coisa bastante pesada. É pesada no sentido de que tem um enorme poder. E aonde é que vai esse poder que você invocou? Naturalmente, esse poder é bom, mas por causa da sua imensidade, não poderá permanecer dentro de você. Você não está em condições de abrigar esse poder.
Ao meditar de manhã, por favor, sinta a necessidade de ver a sua capacidade. Você agora está em condições de comer apenas três fatias de pão. Se vir que alguém ao seu lado está comendo seis fatias de pão, vai pensar: “O que há de errado comigo? Por que é que não posso comer seis fatias?” Mas deixe-o comer as seis fatias se ele tem a capacidade. Talvez haja alguém ao seu lado que não consiga comer sequer uma fatia. Ele pode pegar só meia fatia de pão. Assim, de acordo com sua capacidade, de acordo com sua fome interior, você vai tentar satisfazer a si mesmo. De acordo com a capacidade dos outros, eles vão fazer a mesma coisa. Portanto, as forças de que você está falando não são não-divinas. São forças divinas, mas o problema surge porque você está tentando puxá-las além da sua capacidade.
Palmistry, Reincarnation and the Dream State, p. 25-27
Um singelo olhar do meu Senhor Supremo me traz uma felicidade inimaginável.
-Sri Chinmoy
Nos dias passados eu estava muito inquieto, irritado, vazio. Em parte acredito ser por estar trabalhando mais e, ainda por cima, no computador quase que exclusivamente. Sinto que o computador deixa a mente ativa e, por não ter equilíbrio suficiente, ela acaba desestabilizando todo o resto do ser. Outro motivo é que me machuquei e fiquei uns dois ou três dias sem correr. Pode haver outros motivos que não soube dizer.
Chegou a quarta-feira que é o dia de meditação do nosso Centro. Durante, eu já senti alguma coisa que não sabia dizer o que era mudando, como se fossem bons presságios. Ao final, assistimos um vídeo de Sri Chinmoy numa meditação pública. Eu me senti como se estivesse lá presente, naquela hora, naquele lugar da meditação. Sri Chinmoy se virava para diferentes partes da plateia, e eu conseguia sentir o seu olhar passando por mim, assim como acontecia quando eu o via pessoalmente antes. Seu olhar silencioso abriu portas interiores, assim como acontecia antes.
Eu me senti uma pessoa completamente diferente. Toda aquela sensação que descrevi no início do texto tinha sido jogada fora e, em seu lugar, fiquei feliz, alegre, grato. Tudo ficou muito mais bonito. Não só espiritualmente falando, mas até minhas tarefas diárias eu fiz me sentindo muito feliz.
O olhar silencioso
Um verdadeiro Mestre espiritual é aquele que tem unicidade inseparável com o Altíssimo. Por via de sua unicidade, ele pode facilmente entrar no buscador, ver seu desenvolvimento e aspiração, e saber tudo sobre sua vida interior e exterior. Quando o Mestre medita em frente aos seus discípulos, está trazendo Paz, Luz e Beatitude das Alturas, e isso entra neles. E do interior eles aprendem automaticamente como meditar. Todos os verdadeiros Mestres espirituais ensinam meditação em silêncio. Um Mestre genuíno não precisa explicar exteriormente como meditar ou dar-lhe uma forma específica de meditação. Ele pode simplesmente meditar em você, e seu olhar silencioso o ensinará como meditar. A sua alma entra na alma dele e traz dela a mensagem, o conhecimento de como meditar. -Sri Chinmoy, do livro O Mestre e o Discípulo
Pergunta: Deveríamos manter períodos específicos de silêncio exterior além da meditação?
Sri Chinmoy: Sim. Às vezes, é bastante necessário ter um silêncio exterior por meia ou uma hora, além de uma profunda meditação. Quando falamos desnecessariamente, isso nos enfraquece; enfraquece os nossos nervos sutis. Então, na hora da nossa meditação de verdade, não poderemos meditar bem. Isso não significa que você vai ficar em silêncio por horas e horas. Isso será uma atitude de auto-engano, porque exteriormente você se mantém em silêncio, mas no seu interior a sua mente está na sarjeta, vagando e vagando. Esse tipo de silêncio não é silêncio. Apenas a sua boca e a sua língua não estão funcionando. Você está se forçando deliberadamente para que sua boca não se abra, mas isso não ajuda. No entanto, quinze minutos, meia hora ou uma hora de silêncio depois ou antes da meditação vai nos ajudar. Se observarmos silêncio antes da meditação, vamos nos fortalecer. Se permanecermos em silêncio depois da meditação ter acabado, teremos a oportunidade de assimilar a Paz, a Luz e a Felicidade que recebemos em medida abundante durante ela. Essa assimilação é de importância fundamental porque, sem ela, tudo o que recebermos será perdido.
The Height of Silence and the Might of Sound, p. 25-26
Dicas para meditação 38 – Receptividade e Assimilação
Sri Chinmoy: Ao meditar, a receptividade é de importância fundamental. A riqueza espiritual é como o sol. A luz do sol é para todos, mas se você fecha todas as janelas e portas da sua casa, então como a luz do sol pode entrar? Quando o Mestre medita, traz lá de cima Paz, Luz e Felicidade. No entanto, se você mantiver a porta do seu coração fechada, o que ele trouxer não será capaz de entrar.
Sempre digo aos meus discípulos que mantenham os olhos abertos enquanto meditam. De outro modo, estarei no meu mais elevado e vocês estarão no seu próprio mundo. Às vezes, estou trazendo Paz, Luz e Felicidade infinita, mas vocês estão no mundo do sono. Se os seus olhos estiverem abertos, verão a fonte, de onde tudo está vindo, nos meus olhos. Os meus olhos estão apenas trazendo Paz, Luz e Felicidade lá de cima.
A melhor maneira de receber durante a meditação é por meio da gratidão. Você está oferecendo gratidão ao Supremo porque ele o escolheu para estar no Barco Dele. Já que a sua consciência está elevada, você está buscando o que estou trazendo para cá. Alguns nem vêem isso. Outros vêem, mas acham que não precisam disso. Todavia, você vê e está faminto. Outros não estão famintos, apesar de verem a comida; ou estão famintos, mas não querem comer o alimento que o Mestre quer fornecer. No seu caso, você está faminto e reconheceu o fato de que existe alguém com o alimento.
E quem criou a sua fome? Não foi você quem a criou. A pessoa com o alimento a criou em você. Então você é grato à pessoa mais uma vez. E a sua gratidão vai diretamente ao Supremo. Ela não vem para mim. Eu sou apenas o mensageiro. Ela vai à Fonte, ao Supremo.
Se tiver uma meditação elevada, não deveria falar logo após ela. Deveria primeiro tentar assimilar o que recebeu. Uma vez que a assimilação acontece, ela se torna propriedade sua. Antes disso, ela pode desaparecer. Se alguém disser: “Como vai você?”, ele pode levá-la embora. Porém, uma vez que você a assimilou no seu sistema, ela se tornou sua. Pode acontecer também na meditação de, enquanto você recebe, estar assimilando também. Assim, quando for a hora de parar a meditação, estará tudo assimilado.
Pergunta: Você pode explicar se vale a pena tentar conversar sobre as experiências interiores de alguém com outras pessoas?
Sri Chinmoy: Alguns Mestres espirituais aconselham os seus discípulos a partilhar suas experiências só com eles. Na maioria das vezes, não é aconselhável comunicar ou oferecer as experiências interiores de alguém para outras pessoas. Suponha que você teve uma experiência elevada, sublime. Mesmo se contar essa experiência ao seu amigo mais íntimo, a inveja dele pode tentar devorar a riqueza, a realidade viva da sua experiência. Às vezes, ao dividir suas experiências interiores com um iniciante, ele pode tentar ter a mesma experiência a ferro e fogo.
Na vida espiritual, isso nunca pode ser feito. O progresso espiritual é um processo lento, constante e gradual. Só porque você provou uma manga e me contou sobre ela, eu posso tentar também subir no pé de manga. No entanto, se não souber subir, ao tentar vou cair e me machucar. Também, ao contar suas experiências interiores a outras pessoas, o orgulho humano poderá entrar em você.
Só se deveria compartilhar experiências interiores com a permissão do Mestre. Se a pessoa não tem um Mestre, então deve mergulhar profundamente em si mesma e ouvir os ditames da alma. Se a alma ou o Mestre pede a algum buscador que divida suas experiências com o resto do mundo, então não haverá nenhum problema. Nesse caso, pode acontecer de, se uma pessoa contar sobre suas experiências, os amigos dela vão ficar inspirados a entrar no mundo de aspiração. Porém, é sempre aconselhável perguntar ao Mestre ou mergulhar profundamente em si mesmo para saber se deve compartilhar suas experiências com os outros. De outra maneira, isso pode criar resultados imprevistos e deploráveis no próprio buscador ou naquele com quem está tentado partilhar das experiências.
Pergunta: É uma boa idéia discutir sobre experiências espirituais com nossos irmãos e irmãs?
Sri Chinmoy: Não é aconselhável discutir sobre experiências interiores com seus irmãos e irmãs espirituais. Embora eles pertençam à mesma família sua, ainda não venceram a inveja. Exteriormente, vão ficar felizes e exaltá-lo aos céus. Entretanto, interiormente, os corações deles vão queimar e tentarão tirar a essência da sua experiência por meio da inveja e de outras forças baixas. Não existe uma regra rígida, mas mesmo que um discípulo seja extremamente próximo a você – digamos que o seu marido ou a sua esposa – ainda assim a inveja pode surgir.
Às vezes, ao ter uma experiência e contar aos seus amigos sobre ela, eles vão duvidar dela. Nessa hora, imediatamente a força, o poder e a luz da experiência desaparecem. A dúvida tem o poder de levar a sua experiência embora imediatamente.
Na vida exterior, se você contar aos outros que está sofrendo ou numa consciência baixa, então poderá conseguir alguma solidariedade deles e eles tentarão elevar a sua consciência. Entretanto, quando é uma questão de muito elevadas e sublimes, existe toda a possibilidade de ser mal-compreendido, criar inveja ou ser atacado pela dúvida dos outros. Assim, por favor, mantenha essas coisas para você mesmo. Suas experiências vão finalmente se transformar em realização, que é como a plena luz do dia. Você não pode esconder a luz do dia, mas tem de esconder a chama, porque existem pessoas que podem assoprá-la com a inveja ou com a dúvida.
Você deveria, porém, deixar o seu Mestre saber dela. Seu Mestre espiritual não tem inveja de você, porque ele teve experiências infinitamente mais elevadas. Ele também sabe que nenhum discípulo terá uma experiência maior sem a inspiração pessoal, o conhecimento e a ajuda consciente ou indireta dele. Se você contar ao seu Mestre sobre uma experiência sua, isso só vai acrescentar à sua convicção. Ou se foi apenas uma alucinação mental, o Mestre pode lhe dizer.
Algumas pessoas têm experiências falsas. Elas lêem alguns livros que tratam de experiências mais elevadas e então essas experiências inconscientemente entram na mente delas; de modo inconsciente, elas estão tentando assimilar as sublimes experiências da pessoa que escreveu o livro. Mas, às vezes, nem mesmo o autor teve as experiências. Ele só as pegou emprestadas do livro de outra pessoa. Nessa hora, o Mestre será capaz de dizer se as experiências são ou não genuínas e realmente resultado de uma aspiração interior.
Se você não tem um Mestre a quem contar suas experiências, então o que pode fazer? Tem de tentar observar aonde o resultado da experiência o leva e o que está obtendo dela. Se obtiver paz, luz e felicidade em medida abundante, vai saber que a experiência é genuína. Se é uma experiência real, genuína, sua mente vai ficar calma e quieta e seu coração vai entrar numa perfeita harmonia. Apenas em perfeita harmonia consegue-se o mais elevado tipo de experiência. Todavia, se a experiência for falsa, vai criar uma excitação e vai compeli-lo a contar aos seus amigos sobre ela, para que assim você receba admiração e apreciação deles. Porém, isso só vai deixá-los com inveja. Você não tem o direito consciente ou inconsciente de aumentar a inveja deles. A melhor coisa a ser feita é manter suas experiências interiores para si mesmo.
Hoje estava correndo, e uma moeda de um real caiu da sacola. Só ouvi o barulho da queda de um metal. Sri Chinmoy costuma contar que ele pega todas as moedinhas que acha na rua, mesmo de um centavo. A intenção é não esnobar o presente de prosperidade. Eu peguei esse costume também.
Então fiquei procurando a moeda na calçada, mas não consegui achar. Um senhor passou caminhando e perguntou, “Perdeu algo?” Enquanto caminhamos alguns metros, ele passou bem do lado da moeda, que estava bem mais para frente de onde eu estava procurando. Ele disse: “Ah, você a achou por causa de mim!” Parece algo engraçado, mas achei que Alguém tinha mandado ele, ou era Ele mesmo Alguém que foi me mostrar onde estava a moeda, pois eu justamente não tinha conseguido achar e estava prestes a me conciliar com a perda.
Agora já bem grato e feliz com a experiência e a sensação de cuidado por mim, na quadra seguinte encontrei um abacate caído para dentro de um terreno público meio abandonado. Estava verde ainda e devia ter caído na grama e rolado até a grade. Levei-o para casa como um presente também e vou esperá-lo amadurecer junto com a minha percepção das coisas!
Pergunta: Como posso reconhecer uma experiência espiritual?
Sri Chinmoy: No seu caso é fácil. Por milhões de vezes você teve um sentimento de verdadeira disposição em ajudar a humanidade, e com a Graça de Deus ajudou-a de acordo com sua capacidade. Então obteve alegria. Mas não encare essa alegria como resultado da sua ação. Quando obtiver alegria interior, por favor, não sinta que é resultado de um desejo satisfeito ou de uma ação bem sucedida.
Não sinta que está feliz porque o resultado é satisfatório. Não. Separe imediatamente você mesmo da sua ação. Assim, verá que a alegria que está tendo é de um sentimento de unicidade – unicidade com a Consciência universal, a Consciência cósmica ou a sua própria consciência.
A espiritualidade é sempre natural. Qualquer coisa que não seja natural nunca pode ser espiritual. Agora mesmo você não vê a verdade como o seu direito de nascimento. A verdade é alguma coisa não natural; alguma outra pessoa possui a verdade, mas você não a possui. Mas, ao estar na vida espiritual, verá que a espiritualidade é propriedade de todo mundo.
No seu caso, você teve experiências espirituais várias e várias vezes. A qualquer hora que me concentro em você, vejo que quer ser iluminado e guiado pelo Supremo. Essa própria idéia de que você quer ser iluminado, guiado ou moldado por alguém que sabe como guiá-lo e moldá-lo não é um desejo. É até mais do que uma aspiração. É uma expressão exterior da experiência interior da sua alma. É a sua alma que está tendo essa experiência interior.
Uma pessoa não-aspirante diz: “Eu tenho de me salvar. Tenho de fazer tudo. Ninguém fará nada por mim”. Entretanto, no seu caso, já vi várias vezes que você tem o desejo de ser ajudado e guiado pelo Supremo em mim. Isso é o mais elevado ou, podemos dizer, a mais efetiva experiência da sua alma, expressa na forma de desejo ou aspiração. Constantemente você está tendo experiências quando sente que é uma criança no Colo do Supremo. Esse mesmo sentimento você verá se for profundamente dentro de si mesmo. É uma experiência incorporada pela sua alma, e você só está tentando manifestá-la na forma de aspiração.
Experiences of the Higher Worlds, p.33-35
Pergunta: Como posso dizer se as minhas experiências interiores são genuínas ou falsas?
Sri Chinmoy: Se ficar em dúvida quando tiver uma experiência interior, concentre-se no coração. Se a experiência for genuína, você vai sentir uma sensação sutil de formigamento. Se sentir como se uma formiga estivesse escalando ou se arrastando no seu coração, então saberá que a sua experiência é genuína.
Quando tiver uma experiência interior, tente respirar tão lenta e silenciosamente quanto possível, e sinta que está trazendo pureza ao seu sistema. Sinta que a pureza está entrando em você como uma linha e está girando ao redor do seu umbigo. Se você sentir que o seu coração espiritual não está disposto a entrar no seu umbigo, então a sua experiência é uma mera alucinação. No entanto, se o coração entra de bom grado no umbigo, esteja certo de que a sua experiência não é uma alucinação; é absolutamente verdadeira e genuína.
Quando tiver uma experiência e quiser saber se ela é válida, tente sentir por alguns minutos se você cresce naquela experiência ou não. Se sentir que pode crescer naquela experiência, mais cedo ou mais tarde, em uma hora ou duas, ou em um dia ou seis meses, então a sua experiência é genuína. Porém, se sentir que a realidade é alguma outra coisa e você nunca vai poder crescer naquela experiência, então ela não é genuína.
Quando tiver uma experiência, tente separar a sua vida exterior da sua vida interior. A vida exterior é uma vida de necessidade, demanda e exigência. A vida interior também é uma vida de necessidade, mas é da necessidade por Deus, não da sua necessidade; das exigências de Deus, não das suas demandas ou exigências. Tente sentir se é a necessidade de Deus que está operando em e através da sua experiência, se Ele precisa de você e quer satisfazer a Si mesmo em e através de você. Se você pode crescer nesse tipo de sentimento ou realização, a sua experiência é genuína. No entanto, se você se identifica conscientemente com as suas exigências, então a experiência não é verdadeira. É só uma alucinação.
Pergunta: Recentemente tenho me sentido não apenas fisicamente fraco, mas também fraco de outras formas. Fico me perguntando como posso ficar forte para poder correr o mais rápido.
Sri Chinmoy: Permaneça em silêncio, silêncio, silêncio. Mesmo quando estiver caminhando, não permita que quaisquer pensamentos venham. Não pense “Este é um pensamento bom, aquele é um pensamento ruim.” Não. Tente não ter pensamentos, nenhum pensamento. Permita que Deus pense dentro de você. Permita que o Supremo pense dentro de você. Deixe que Ele faça o necessário. Se algum pensamento aparecer, interrompa-o, interrompa-o, interropa-o. Você verá como terá muito mais energia, disposição, avidez e tudo o mais que precisar. O caminho lhe será mostrado.
Só mantenha a mente em silêncio absoluto – mesmo por dois ou três minutos. É como o desenvolvimento de um músculo. Se hoje conseguir manter a mente em completo silêncio por dois minutos, e amanhã por três minutos, então gradualmente, gradualmente, se fizer isso por bastante tempo, verá o quanto poderá melhorar na sua vida interior – não apenas na sua vida interior, mas também na sua vida exterior. Você será capaz de fazer melhorias tremendas.
Aprendi a encarar o escrever como um serviço especial. Assim que me propus a escrever neste momento, veio um sentimento de utilidade – de que eu estava a fazer algo de fato valioso. Não sei se vocês poderão aproveitar algo, mas pelo menos a minha própria aspiração se aproveita do ato!
Quando fazemos algo de valor, por vezes uma espécie de silêncio interior brota. Não é o silêncio completo, a ausência de pensamentos, mas sim algo dinâmico e, ao mesmo tempo, pacífico. É como saber que está fazendo a coisa certa, porque aquilo tem de ser feito e, portanto, nada nos incomoda de forma derradeira. Basta continuar fazendo.
Experiências de silêncio interior com coisas do dia a dia
Tocando violoncelo
Uma vez, num domingo à tarde, sentei-me para fazer uma meditação extra. Mas não deu certo. Estava por demais inquieto. Resolvi então pegar um instrumento musical para praticar um pouco. Como para mim era algo incrivelmente difícil, precisei me concentrar muito. Lembro até mesmo de um pouco de saliva escorrendo do canto da boca, pois eu tinha perdido controle dessas funções ao me concentrar para tocar.
Assim que terminei de praticar, senti-me novamente inspirado a tentar meditar. Assim que sentei, logo tive uma daquelas melhores meditações do ano. Acho que foi o fato de eu ter me concentrado bastante antes, que criou um silêncio na mente, permitindo ao coração meditar em paz. Senti que essa meditação sozinha valeu todo o gasto com comprar o instrumento e os meses de prática!
Praticando kendo: mushin
A primeira vez foi quando eu era adolescente. O sensei estava fazendo eu passar por um treino muito difícil, e eu fiquei além de esgotado. Quase não conseguia me manter em pé, nem esticar os braços para frente e tive de continuar treinando com ele. Quando – de repente – ele ataca e eu, sem saber o que estava acontecendo, fiz um contra-ataque que foi perfeito para o meu nível atual. Eu mesmo só observei o ato, e como o fiz com vigor e precisão, com uma energia que não parecia disponível nem quando estava descansado, e muito menos naquele nível de exaustão extrema.
A segunda vez que lembro foi mais recente. A situação foi similar. O sensei estava exigindo que eu fizesse golpes bem melhores do que eu conseguia no momento. E, com o passar dos momentos, eu ficava mais cansado, pela repetição. Isso fazia com que os golpes piorassem, ao invés de melhorar. Foi então que, depois de muita exigência, o golpe “perfeito” brotou: ao invés de eu reagir após o chamamento dele para golpear, simplesmente consegui golpear na mesma hora que ele decidiu que eu deveria golpear. O próprio sensei sorriu e me abraçou, dizendo: “Você viu!? Aqui dentro (apontando para a minha cabeça), esse foi um golpe muito bom.”
Outra vez que lembro foi quando o sensei colocou todos nós para um dos exercícios mais cansativos, e por mais tempo que o de costume. Em seguida, ele chamou a mim e mais alguns colegas para continuar fazendo com ele e outros mais graduados o mesmo exercício do qual estávamos exaustos, sem descanso algum. Tentei fazer o meu melhor. Percebi ao voltar para casa que estava tão silencioso que nem mesmo a minha mente sabia como voltar para casa. Eu só sabia voltar por partes: “Saia do dojo. E agora? Anda até a estação de metrô. E agora? Pega tal trem.” Etc. Caminhando da última estação para casa, eu estava tão satisfeito, mesmo indefeso como uma criança de tão cansado. Espontaneamente surgiu na minha mente a repetição “Supreme, Supreme, Supreme…” (Supremo, Deus.) Eu fiquei repetindo o nome de Deus em silêncio, pois nada mais havia senão isso para ocupar o espaço criado.
Experiências de silêncio interior com a meditação
Fazer a “coisa certa”
Lembro de estar no trabalho logo antes de dar um curso de meditação. Antes de ir embora no fim do expediente, parei para meditar por uns 5 minutos. Foi uma meditação tão boa que era óbvio que não era eu quem estava meditando. Aquela meditação me foi concedida, isso sim. Peguei o metrô para ir dar o curso mais a noite e nada importava. Tudo estava ótimo, todas as coisas, todas as pessoas belas, e eu estava satisfeito. Acho que simplesmente eu estava fazendo a coisa certa ao ir de noite oferecer o curso de meditação, e Alguém quis me ajudar a fazer o serviço dar certo.
Tenho vagas impressões também de outras vezes em que, logo após “fazer a coisa certa”, senti um grande silêncio e satisfação interior. Algumas coisas foram difíceis de fazer ou decidir, por vezes envolviam outras pessoas. Mas fico com a sensação de que foi o mais certo – não que eu me convenci de que era o correto, mas sim que a sensação e o silêncio que sobraram eram o indicativo.
O Mestre espiritual
Aproximadamente em 2005 estávamos reunidos num fim de semana para jogos, meditação, corrida, canto, etc. Nosso Mestre nos ligou de Nova Iorque e abençoou cada um no telefone: “My soul´s highest blessings and my heart´s infinite love to you.” Assim que soltei o telefone, percebi a mudança de consciência. Não restava nada a ser feito. Resolvi ir meditar na sala. Um colega também veio. Ficamos sentados muito tempo. Eu tinha a sensação de que nem precisava meditar – era só me manter aberto e receptivo. Tudo já tinha sido feito. Eu fui um paciente do que aconteceu. Vocês já viram algum ditado como “Um simples toque do Mestre pode…”?
Pergunta:Os discípulos devem oferecer conselhos com base nos seus escritos?
Sri Chinmoy: Não dê conselhos, porém torne claro que isso é o que você acha que seja o significado do que escrevi. Explique do seu jeito e diga que é baseado no seu entendimento, na sua experiência interior. Desde que o outro não entende por si mesmo, ele pode tentar a sua interpretação; porém ele não está obrigado a ver as coisas exatamente do seu modo. Por você ter tido um entendimento, pode dizer que quer compartilhar com ele. Se ele sentir que o seu entendimento está correto, tudo bem. Caso contrário ele pode chegar às suas próprias interpretações.
Obedience or Oneness, p. 26
Pergunta:O que eu deveria fazer quando estou em posição de dar conselhos a alguém?
Sri Chinmoy: Se você se sentir compelido interiormente a dar conselho à alguém, deve fazê-lo. Entretanto, pode ser que o meu conselho seja mais direto ou possa trabalhar mais rápido do que o seu. Posso lhe assegurar que o seu conselho não será tão divino, espiritual ou, digamos, tão frutífero quanto o meu. Contudo seu conselho poderá ajudar e ser frutífero se sentir a minha presença e tiver uma tremenda devoção a mim enquanto você estiver dando conselhos a seus irmãos e irmãs espirituais. Se você tiver uma tremenda devoção na hora em que for dar o conselho, eu lhe digo que nessa hora você será incapaz de errar.
Quando alguns de meus discípulos dão conselho, eles imediatamente se consideram iguais a mim. Se esquecem totalmente que são meus discípulos e queeu sei um pouco mais do que eles. Eles estão tendo a imensa oportunidade de se revelarem. Nessa hora eles negam a minha existência na vida deles.
Digamos que alguém necessita de algum conselho seu ou, mesmo que ele não necessite de conselho, você sente que aconselhá-lo é seu grande dever. Ele é seu amigo há muito tempo e agora seus pensamentos estão nublados. A dúvida ou alguma outra força ruim entrou nele. Enquanto você o aconselha dentro da sua necessidade, se estiver pleno de devoção a mim, Você estará atraindo então minha luz e sabedoria tal como um imã. Isso irá para a pessoa a quem você quiser oferecer. As pessoas cometem erros porque se esquecem de mim totalmente. Por alguns minutos eles se tornam o Mestre daquele buscador em particular com quem estão falando e então cometem erros.
Muitas vezes aconteceu e muitas vezes irá acontecer em que o Supremo deseja que uma pessoa em particular tenha uma experiência, de modo que no futuro ela seja mais cuidadosa na sua vida espiritual. Você pode estar cometendo um erro por aconselhá-lo.Você faz de coração, pois sabe que ela está fazendo algo errado. Porém como você sabe se é da Vontade de Deus ajudar aquela pessoa naquele momento? Como você sabeque seu conselho é oportuno? Ele necessita de ajuda, mas sua melhor ajuda poderá ser fornecida durante sua meditação. Você estará indo a pessoa certa, ao Supremo. “Supremo, eu sinto que essa pessoa necessita de ajuda. Mas como eu posso ajudar? Somente Você é que pode ajudá-lo.” O Supremo estará pronto para ouvir sua prece e então Ele irá fazê-lo à sua própria maneira.
Uma pequena anedota: outro dia de manhã cedo senti que era o melhor dia da minha vida. O dia mais feliz da minha vida. O que aconteceu assim, tão logo cedo?
Conquistei algum objetivo da minha vida? Recebi uma boa notícia? Alguém me disse algo bom? Consegui um bom emprego? Comprei a casa própria? Ganhei na loteria? Família, amigos?
Não.
Eu só estava sentado, meditando em silêncio, e senti uma satisfação tão grande no meu coração. Eu estava ali apenas e senti-me o ser mais feliz. Todas possibilidades mais acima são bem transientes. Hoje parecem ótimas, mas amanhã já acontece algo e passamos a ficar na dúvida se realmente foram coisas boas, quanto mais a melhor coisa que já aconteceu.
Já a experiência que tive foi algo tão sólido, tão real. Sinto ela enquanto escrevo-a hoje, passadas algumas semanas. Meus dias mudaram, pelo menos os dias que vivem dentro de mim. Eu mudei.
Peace means satisfaction —
Satisfaction through prayer,
Through meditation
Or through surrender
To God’s Will.
Dicas para meditação 33 – ser sozinho x estar sozinho
Pergunta:Como alguém pode caminhar sozinho ainda assim experimentar a unicidade?
Sri Chinmoy: Antes de tudo, temos que saber a diferença de estar sozinho e ser sozinho. Nós podemos sentir solidão mesmo quando estamos entre centenas daqueles chamados de amigos ou mesmo entre verdadeiros amigos.Se não sentimos a presença de Deus dentro do nosso coração, estaremos propensos asentir solidão não importa quantos amigos ou quantas centenas de pessoas estejam ao nosso redor.
Ir sozinho não significa que tenhamos indiferença ou distanciamento. Ir sozinho significa que a hora de Deus chegou para nós. Agoratemos que correr em direção a nossa meta sem esperar pelos nossos entes queridos, cuja hora ainda não chegou. Se a hora de alguém chegar um minuto antes ou depois da sua, isto não da sua responsabilidade.Quando a sua hora chega, você vai e se acontecer de, ao mesmo tempo a hora de alguém chegar, vocês podem então ir juntos. Porém se alguém começar antes ou após você, não significa que não possa estabelecer sua unicidade com ele. Você pode facilmente sentir sua unicidade com aqueles que estão à frente ou atrás e pode manter sua unicidade enquanto vai sozinho. Você está sozinho porque ninguém está ao seu lado, contudo há pessoas atrás e à frente de você que podem experimentar facilmente um sentimento de unicidade enquanto estiverem andando pelo mesmo caminho e em direção ao mesmo destino.
Se você sente um interesse real e verdadeiro pela manifestação do Supremo em mim, de que maneira você poderá me ajudar? Uma maneira é desenvolver consideração pela humanidade. Nós todos temos consideração pela humanidade, porém o que fazemos? Usamos a palavra “consideração” porém rezamos à Deus para ajudar ou iluminar a humanidade? Não! Nosso interesse é egoísta. Se o mundo melhorar, será melhor para nós. Temos contudo que desenvolveruma consideração real e desinteressada pela humanidade.
Service-Boat and Love-Boatman II, p. 44
Pergunta:Como posso expandir meu amor à humanidade?
Sri Chinmoy: Você pode expandir o seu amor às pessoas desde que veja o tempo todo o seu Amado dentro delas. O seu Amado é o Supremo. Se você enxergar o Supremo dentro delas então você fará tudo por elas. Se você vê a beleza dentro de alguma coisa, então irá tocá-la. Caso não veja a beleza,verá então somente a escuridão e a feiúra e não a tocará. Logo, se você vê a Presença de Deus dentro da humanidade, somente então irá amá-la. Terá que ver algo divino para amá-la Caso veja o Amado Supremo dentro de todo e cada ser humano, automaticamente terá amor e respeito pela humanidade.
É como uma flor. Você cuida da flor porque ela tem fragrância e beleza. Mas se ela não tivesse nem fragrância nem beleza, você não gostaria dela. Similarmente, Deus está dentro dos seres humanos. Deus é a fragrância e a beleza. Se você gostar de fragrância e beleza, então naturalmente gostará da flor, da humanidade.
Deus, o Amor, está dentro de tudo que vemos. Se nós amarmos a Deus, e nós o amamos pois Ele é todo Amor, seja lá o que Ele tenha criado nós também amamos.Ele está em todas as suas criações, pois Ele está em toda a parte por ser onipresente.Se você pode amar Deus, o Amor, então automaticamente você aumentará seu amor por todas as coisas. Deus o Amor engloba tudo e está dentro de tudo. Se você almeja a Fonte, o Criador, então automaticamente almeja a criação.
Father’s Day: Father with His European Children, p. 24-25
Introdução à meditação 7 – sabedoria ou conhecimento interior?
Negligenciamos a palavra ‘sabedoria’, mas isso é infelizmente um erro. Conhecimento e sabedoria são coisas diferentes. Conhecimento é como um livro da biblioteca. Conhecimento lida com fatos. Sabedoria lida com realidades interiores e coisas divinas interiores. Quando falamos sobre amor, devoção e entrega, sabemos que o amor, devoção e entrega são fundamentados na sabedoria. Deixamos a vida comum, mundana, humana – por quê? Porque a sabedoria despertou em nós. Não é que imediatamente o amor por Deus surge, a devoção surge, não. A sabedoria nos compele ou nos inspira a deixar a vida comum mundana, a vida familiar, a vida-desejo. A sabedoria nos mostra que a vida desejo é como mastigar espinhos.
-Sri Chinmoy, do livro Light Language, Vidagdha Bennett.
Muitas pessoas nos ligam ou comparecem aos nossos cursos buscando ‘auto-conhecimento’ ou ‘conhecimento interior’. O que gostaríamos de compartilhar aqui é que o uso dessa palavra conhecimento pode nos dar a impressão de que é algo que você pode obter vindo no curso ou que alguém pode passar a você.
Na verdade, não pode. A sua alma ou o seu Mestre espiritual podem infundí-lo de sabedoria, e você pode nunca ter lido um livro. Sri Ramakrishna, por exemplo, era praticamente analfabeto.
No entanto, para não cerrar as portas da nossa alma e para iluminar nossa mente na busca por um Caminho ou Mestre espiritual que abrirá as portas da nossa consciência para a sabedoria divina que é nosso direito de nascimento, é de utilidade você ter contato com escritos de um Mestre diariamente, lendo seus livros e tentando, ao invés de aprender o conhecimento ali apenas, absorver a luminosidade da consciência do Mestre que ali permeiam. Quando você fala sobre um Mestre espiritual ou lê ou comenta seus ensinamentos, isso não lhe traz uma abertura, um certo deleite? Pois é, quer dizer que sua consciência está se elevando, ficando mais próxima da sabedoria. Não é a discussão em si do tema, mas sim a luz que permeia o nome do Mestre e seus atos o que importa principalmente.
“Todos os dias você possui vinte e quatro horas à disposição. Dessas vinte e quatro horas, você dedica diariamente meia hora ou uma hora para Deus. Você medita de manhã cedo por cinco minutos e então diz: “Eu meditei.” Você fez a sua parte e passa o resto do dia do seu próprio jeito. Mas não há aspiração, devoção, clamor interior. Das vinte e quatro horas, você poderia facilmente ter dedicado pelo menos três ou quatro a Deus.”
Alguns meses atrás, estive com colegas europeus do Centro Sri Chinmoy que estavam fazendo horários extras de meditação (porque e como começar) durante o dia. Anos atrás eles criaram também um horário diário para orar por cinco minutos pela Vitória divina. Achei bem inspirador, pois nunca sabemos com certeza qual é a coisa certa – talvez até pensemos o que seria a coisa “boa”, mas a coisa “certa” pode ser diferente. Pode ser que algumas experiências sejam necessárias para nós. Assim também não há julgamento nem tomar partido com os conflitos exteriores ou interiores, coletivos ou individuais. É apenas oferecer a sua boa vontade para o mundo e para que o melhor aconteça, para a Vitória de Deus.
“Seja feita não a minha, mas a Vossa Vontade.”
Recentemente comecei junto com meus colegas a fazer dois horários no dia para orar ou meditar por alguns minutos pela Vitória divina. Foi muito inspirador. Em seguida, comecei a ler um diário de um dos alunos de Sri Chinmoy da Suíça, que tem enormes responsabilidades materiais e espirituais. Num certo momento, Sri Chinmoy havia lhe recomendado que parasse o trabalho/etc a cada duas horas para meditar por três minutos. Ele frisou que deveria considerar esses três minutos como o verdadeiro trabalho, e que as duas horas restantes de tarefas do escritório seriam apenas uma preparação para esses três minutos. Nunca tinha pensado nisso, mas não fiquei surpreso ao ouvir. Faz todo sentido. Como eu faria algo corretamente sem ter a inspiração interior adequada? Posso até fazer “o que eu acho melhor”, mas talvez não “o que é o melhor”. A meditação e oração vão abrir portas para que uma Vontade superior possa inspirar nossas ações.
“Seja feita não a minha, mas a Vossa Vontade.”
Será que eu não consigo dedicar um minuto dentre cada sessenta minutos de uma hora? Comecei a fazer mais meditações curtas durante o dia. A cada hora um timer toca, e paro tudo que estou fazendo por um minuto. Tenho tido experiências ótimas. Tantas coisas boas de dentro de mim têm vindo à tona. Fico até surpreso ao lembrar sensações que tive em décadas passadas sobre a minha vida espiritual; lembrar orações que fazia anos atrás – tudo isso tem vindo espontaneamente em algumas dessas meditações de um minuto.
Para quem quiser tentar, algo que ajuda é usar um timer. Posso recomendar usar um app gratuito para o iPhone chamado Timer+. Você consegue configurar para apenas tocar um sinal a cada intervalo definido, e repetir durante o dia quantas vezes quiser, sem ter que encostar no celular nem apagar notificações. Você também pode usar aqueles timers de corda para cozinhar, que são em forma de ovinho ou de galinha.
“Quando se dedica, sinta que poderia ter usado o momento para alguma outra coisa. Você poderia ter ido assistir um filme, a uma festa, feito algo tolo, mas ao invés disso resolveu meditar, orar e fazer coisas espirituais. … O tempo que passa não volta. Hoje, o dia vinte e sete de dezembro de 1971 não voltará, ele já era. O amanhã aparecerá no calendário, mas o tempo fugaz de hoje, o alento efêmero de hoje, irá embora.”
Pergunta: Como posso desenvolver o auto-controle em minha vida quando todos ridicularizam meus esforços?
Sri Chinmoy: O auto-controle requer simplicidade, sinceridade e humildade. Podemos dizer que o desjejum do auto-controle é a simplicidade, o almoço é a sinceridade e o jantar é a humildade.
Infelizmente, estamos vivendo uma eraem que o auto-controle não é apreciado; ele se tornou um objeto de ridículo. Um homem se esforça para ter auto-maestria enquanto seus amigos, vizinhos, parentes, conhecidos e o resto do mundo zombam dele.eles não encontram razão para a sua sincera tentativa de dominar sua vida. Eles pensam que a maneira descontrolada com que vivem suas vidas é muito mais vantajosa e que esse homem que está tentando controlar sua própria vida é um tolo, perdendo seu tempo e abrindo mão de toda a alegria.
Quem é o tolo? Aquele que quer ter controle sobre sua vida ou aquele que quer permanecer como uma vítima constante do medo, da dúvida e das ansiedades? Ë desnecessário dizer que aquele que quer conquistar a si mesmo não somente é o homem mais sábio, mas também o maior herói divino, o divino guerreiro. Ele luta contra a ignorância na batalha da vidapara estabelecer o Reino dos Céus aqui na terra.
The Hunger of Darkness and the Feast of Light 2, p.33-34
“Uma palavra pode mudar a vida inteira de uma pessoa.”
– Sri Chinmoy
No curso de conversas informais com seus discípulos, Sri Chinmoy mencionou a visita que fez ao lugar onde viveram os Mestres espirituais Ramana Maharshi e Sri Ramakrishna. Aqui traduzo um trecho onde Sri Chinmoy menciona a sensação que pode ter ao ouvir o nome de um lugar sagrado ou do seu próprio Mestre ou caminho:
“Muito, muito antes de Ramana Maharshi ir para lá, Arunachala [N.d.T.: a montanha onde o Maharshi viveu e alcançou a iluminação] já era sagrada. Muitos sábios viveram lá por séculos e séculos antes da chegada de Ramana Maharshi. É por isso que esse nome o encantou. Tão logo ouviu o nome, ele sentiu algo em seu coração. Ele sentiu uma alegria indescritível, tal êxtase.
“… De forma parecida, quando alguém diz Dakshineshwar [N.d.T.: onde morou Sri Ramakrishna], sinto algo verdadeiro imediatamente. Não sinto a mesma coisa quando ouço outros nomes. Os outros lugares são todos grandiosos, importantes lugares, mas infelizmente eu não sinto a mesma coisa.
“Eu fui para o Ashram Sri Aurobindo quando tinha um ano e alguns meses de idade. A partir dos quatro anos de idade, se qualquer pessoa dissesse o nome “Sri Aurobindo”, pronto! Eu sentia tanta alegria, algo tão sagrado. Algo dentro de mim nadava no mar de deleite.
“Aconteceu quando vocês ouviram “Sri Chinmoy”? Quantos podem dizer algo assim? A minha filosofia é que deve-se pegar as fotos dos Mestres espirituais e olhar para este, para aquele. Sinta qual mais o atrai, qual deles possui uma atração magnética. E então vá.
“Uma palavra pode mudar a vida inteira de uma pessoa.”
A meditação nunca os afastará de seus pais, de seus filhos, de sua família. Longe disso. Ela somente fortalecerá sua ligação com seus entes queridos, pois você verá dentro deles a própria existência de Deus.
…
Alguns pais são muito bons, muito sinceros e muito gentis com seus filhos. Eles mesmos não praticam Yoga; ou têm medo do caminho ou pensam ser muito tarde para eles. Eu não os culpo, no entanto na vida espiritual não existe algocomo tarde demais. Quando você começa de toda a alma, esta é a hora para você. A Hora de Deusé o dia em que de todo o coração você aceita a vida espiritual. Porém se os pais são bons e não estão aceitando o nosso caminho ou qualquer outro, mas estão permitindo que seus filhos venham, então certamente os filhos devem manter uma conexão com eles. Nos vilarejos indianos, os pais podem ser camponeses sem educação alguma, porém eles desejam que seus filhos estudem e sejam cultos. Esses pais são muito bons. Eles trabalham duro nos campos para receber muito pouco e poder mandar suas crianças para a escola.
Eles não puderam estudar quando eram crianças e agora eles se sentem velhos para isso, porém querem que seus filhos na escola. Aqui também, no caso dos pais que nunca praticaram espiritualidade ou yoga e agora estão com quarenta ou sessenta anos de idade e sentem que é muito tarde para eles.Eu digo que vocês têm que ser muito, muito bons com eles. Eles apreciam o valor da vida espiritual, da vida interior, da alegria interior e assim por diante, mas acham que não é para eles. …